terça-feira, 24 de maio de 2011

Acampamento no Rossio - 5º dia

Comunicado N.º 4
24.05.2011

«Claro que vamos ficar!»


Decorrerá hoje, pelas 19 horas, na Praça do Rossio, a 5.ª Assembleia Popular aberta, no seguimento de decisão aprovada ontem por esmagadora maioria. Mais de meio milhar de pessoas responderam sim ao apelo do movimento que, desde quinta-feira, se tem vindo a juntar nas ruas pela reinvenção da política.

Depois de mais um debate vivo, e de inúmeras participações de cidadãos que aproveitaram o “microfone aberto” para dar voz à sua indignação e para apresentar as suas propostas, foram aprovadas as seguintes decisões:

- a criação de uma sala de estudo permanente, no espaço da concentração, que possa servir de base de trabalho a estudantes que desejem permanecer no Rossio durante o dia;

- a criação de um espaço de apoio a crianças e pais que decidam participar na acção e nas actividades do movimento;

- prosseguir o trabalho desenvolvido pelos diversos grupos [acção directa e cultura, comunicação e informação, manifestação (28 de Maio), manifesto (sempre em construção), organização formal das Assembleias Populares, logística, assessoria jurídica e de segurança], para que as suas conclusões possam ser debatidas e decididas na Assembleia Popular de hoje;

- reforçar o apelo a todos aos que se identifiquem com o manifesto do movimento no sentido de se juntarem ao mesmo no Rossio, trazendo consigo a sua indignação, as suas ideias, os seus sonhos e a sua voz, bem como outros apoios logísticos básicos: água, azeite, geleiras, sacos térmicos, latas de conserva, pratos, copos e talheres reutilizáveis, corda grossa, lonas de tecido e plástico para proteger do sol e da chuva, cavaletes, etc…

Por último, depois de concluídos os trabalhos e de mais um jantar popular servido no espaço da concentração, importa assinalar que a dormida de ontem contou, pela primeira vez, com a presença de crianças, que dormiram na Praça juntamente com os seus pais. As ruas, que são nossas, são agora também delas…


1º Manifesto do Rossio

Este Manifesto encontra-se em processo de elaboração e aberto a propostas. Não é um documento definitivo.

Os manifestantes, reunidos na Praça do Rossio, conscientes de que esta é uma acção em marcha e de resistência, acordaram declarar o seguinte:

Nós, cidadãos e cidadãs, mulheres e homens, trabalhadores, trabalhadoras, migrantes, estudantes, pessoas desempregadas, reformadas, unidas pela indignação perante a situação política e social sufocante que nos recusamos a aceitar como inevitável, ocupámos as nossas ruas. Juntamo-nos assim àqueles que pelo mundo fora lutam hoje pelos seus direitos frente à opressão constante do sistema económico-financeiro vigente.

De Reiquiavique ao Cairo, de Wisconsin a Madrid, uma onda popular varre o mundo. Sobre ela, o silêncio e a desinformação da comunicação social, que não questiona as injustiças permanentes em todos os países, mas apenas proclama serem inevitáveis a austeridade, o fim dos direitos, o funeral da democracia.

A democracia real não existirá enquanto o mundo for gerido por uma ditadura financeira. O resgate assinado nas nossas costas com o FMI e UE sequestrou a democracia e as nossas vidas. Nos países em que intervém por todo o mundo, o FMI leva a quedas brutais da esperança média de vida. O FMI mata! Só podemos rejeitá-lo. Rejeitamos que nos cortem salários, pensões e apoios, enquanto os culpados desta crise são poupados e recapitalizados. Porque é que temos de escolher viver entre desemprego e precariedade? Porque é que nos querem tirar os serviços públicos, roubando-nos, através de privatizações, aquilo que pagámos a vida toda? Respondemos que não. Defendemos a retirada do plano da troika. A exemplo de outros países pelo mundo fora, como a Islândia, não aceitaremos hipotecar o presente e o futuro por uma dívida que não é nossa.

Recusamos aceitar o roubo de horizontes para o nosso futuro. Pretendemos assumir o controlo das nossas vidas e intervir efectivamente em todos os processos da vida política, social e económica. Estamos a fazê-lo, hoje, nas assembleias populares reunidas. Apelamos a todas as pessoas que se juntem, nas ruas, nas praças, em cada esquina, sob a sombra de cada estátua, para que, unidas e unidos, possamos mudar de vez as regras viciadas deste jogo.

Isto é só o início. As ruas são nossas.

Contactos:
http://acampadalisboa.wordpress.com/
movimento19m.pt@gmail.com

quinta-feira, 12 de maio de 2011

Financiamento pela indústria interfere nos estudos sobre alimentos transgénicos

2011/05/11
Comunicado

Informação agora publicada põe em causa OGM
FINANCIAMENTO PELA INDÚSTRIA INTERFERE
NOS ESTUDOS SOBRE ALIMENTOS TRANSGÉNICOS

Investigadores da Universidade Católica Portuguesa publicaram um artigo científico* onde se verifica que interesses comerciais influenciaram publicações sobre os riscos para a saúde de alimentos geneticamente modificados.

Está demonstrado que os interesses da indústria têm repetidamente afastado a investigação científica do seu primordial objectivo de difundir conhecimento independente. Houve, no passado, sobretudo em investigações sobre o tabaco, o álcool e os medicamentos, claros indícios de perigos para a saúde pública que foram encobertos, enquanto eram exageradas as vantagens ou inocuidade publicadas em estudos que recebiam dinheiro de multinacionais, ou elaborados por cientistas funcionários dessas multinacionais.

O sector das sementes geneticamente modificadas tem enorme potencial comercial, exigindo investimentos económicos extraordinários. Gualter Baptista, porta-voz da Plataforma Transgénicos Fora, esclarece: "Na procura dos lucros, estas indústrias não se abstiveram de praticar a intimidação, tentando desacreditar cientistas críticos e, simultaneamente, impedir avaliações de riscos independentes." O estudo agora publicado por investigadores portugueses é, pois, muito oportuno, e esclarece ainda uma outra dimensão deste assunto: o facto de os estudos financiados pela indústria ou envolvendo cientistas empregados pela indústria produzirem tendencialmente conclusões favoráveis à comercialização do produto, ao contrário das conclusões a que se chega em estudos não dependentes desse condicionamento financeiro.

O estudo mostra igualmente que mais de metade (52%) dos 94 artigos analisados não indicaram a fonte de financiamento e, mais importante ainda, que nestes artigos pelo menos um dos autores tinha ligações à indústria (73% do total). Por outro lado, em 84% dos artigos em que o financiamento era indicado nenhum dos autores tinha ligações à indústria. Além disso, confirmou-se que nos artigos que não indicaram a fonte de financiamento foi maior a frequência de conclusões favoráveis à indústria. É evidente que os estudos ligados à indústria não têm como objectivo colocar a ciência e a tecnologia acima dos interesses privados.

"Até a Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA, na sigla inglesa) da União Europeia (UE), cuja tarefa é, precisamente, a avaliação independente da segurança dos organismos geneticamente modificados (OGM), inclui membros com ligações à indústria. Felizmente, a EFSA foi publicamente confrontada com os seus casos de conflito de interesses", acrescenta Gualter Baptista.

Assim, no contexto das negociações em curso sobre a reforma da EFSA, é necessário que:
- Seja nomeado um novo Painel para os OGM, com novos membros rastreados quanto à sua independência relativamente aos interesses da indústria;
- A análise dos OGM seja financiada pela indústria mas contratada pela EFSA, sob seu exclusivo controlo;
- Seja realizado uma reavaliação científica de todos os OGM aprovados na UE até à data, com base exclusivamente em genuína investigação independente.

* Referência do artigo com o estudo:
Diels, J. et al., 2011. Association of financial or professional conflict of interest to research outcomes on health risks or nutritional assessment studies of genetically modified products. Food Policy, 36(2), pp.197-203. Disponível em http://www.stopogm.net/webfm_send/503
A revista Food Policy é a revista científica mais citada na área da economia e política agrícolas.

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A Plataforma Transgénicos Fora é uma estrutura integrada por doze entidades não-governamentais da área do ambiente e agricultura (ARP, Aliança para a Defesa do Mundo Rural Português; ATTAC, Associação para a Taxação das Transacções Financeiras para a Ajuda ao Cidadão; CAMPO ABERTO, Associação de Defesa do Ambiente; CNA, Confederação Nacional da Agricultura; Colher para Semear, Rede Portuguesa de Variedades Tradicionais; FAPAS, Fundo para a Protecção dos Animais Selvagens; GAIA, Grupo de Acção e Intervenção Ambiental; GEOTA, Grupo de Estudos de Ordenamento do Território e Ambiente; LPN, Liga para a Protecção da Natureza; MPI, Movimento Pró-Informação para a Cidadania e Ambiente; QUERCUS, Associação Nacional de Conservação da Natureza; e SALVA, Associação de Produtores em Agricultura Biológica do Sul) e apoiada por dezenas de outras. Para mais informações contactar info@stopogm.net ou www.stopogm.net

Mais de 10 mil cidadãos portugueses reiteraram já por escrito a sua oposição aos transgénicos.