sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Bem-vindos a Lisboa, a pérola da Nato.

Hoje começou finalmente a Cimeira da Guerra e muito apropriadamente a cidade de Lisboa assumiu as mecânicas de um estado de sítio para o qual foi cuidadosamente preparada durante os últimos meses pelos governantes do país e agentes da "autoridade".

Com a ajuda de jornalistas menos escrupulosos e jornalistas apenas ignorantes (artigos DN por Valentina Marcelino, artigo Sol, e.o.) - inoculando o público para tolerar as medidas e despesas aplicadas para travar supostas ameaças de terroristas da Al-Qaeda, anarquistas, "outros grupos de esquerda" ou, porque não, "pessoas vestidas de preto"- e gestos dramáticos como a suspensão unilateral do Acordo de Schengen, a criação de uma espécie de "Green Zone" na Expo e o cancelamento do concerto dos Arcade Fire, o aparato de segurança da Cimeira deixou claro que Lisboa dá as boas-vindas aos senhores da guerra, mas não estende o mesmo gesto aos senhor@s da paz.

Duas centenas de activistas foram impedidos de entrar em território português, sem uma boa justificação, violando o direito à liberdade de opinião, de reunião e de expressão consagrado na carta internacional dos direitos humanos. Entre os activistas proibidos de pisar território português, estão os palhaços da Clown Army, um dos melhores exemplos de protesto criativo não-violento e um grupo de objectores de consciência da Finlândia.

Deslegitimando movimentos reconhecidamente pacifistas, as autoridades conseguem muito eficazmente diminuir a participação de activistas bem preparados, organizados e mediáticos e tentar assim desorientar o protesto contra a Nato, abrindo caminho para o uso de medidas repressivas indiscriminadas.

Não se trata do primeiro incidente de perversão da tradicional hospitalidade portuguesa, mas é certamente o mais descarado.

Para perceber como chegamos a este clima fascista, passemos de relance os principais episódios negros na história de Portugal-anfitrião de pessoas-mais-importantes-que-nós:
  • 2003: a Cimeira das Lajes - não obrigou ao corte de trânsito nas ruas de Lisboa nem deu direito a ponte mas ditou a guerra do Iraque, ligando para sempre Portugal a este crime irreparável. Ajudou também a salvar a Nato da extinção, empenhando-a numa guerra com contornos místicos que ecoam as cruzadas, onde o inimigo, para além do "herege" muçulmano, é toda e qualquer pessoa não conformada.
  • 2007: a Assinatura do Tratado de Lisboa - foi certamente caro, mas como só estavam presentes europeus não foi preciso paralisar a cidade..
  • 2009: a Cimeira Ibero Americana - aqui contámos com as eminentíssimas presenças de senhores ultra-poderosos como o Obama e o secretário-geral da Nato, por isso já deu para brincar com blindados e condicionamentos de trânsito e ensaiar as técnicas dos SWAT. Também foi nesta cimeira que se instituiu a tradição da tolerância de ponto em dias de visitas de super VIPs.
  • já em 2010: a Visita do Papa - atenção, está nesta lista não por se tratar de um senhor da guerra (espero bem que não) mas porque a histeria securitária do governo português atingiu novos patamares: uma cidade paralisada, refém das decisões tomadas pelos seus governantes para garantir a segurança de pessoas que, num mundo sem guerras e desigualdades, podiam simplesmente usar os transportes públicos, como fazem os primeiros ministros de países como Holanda, Dinamarca e Suécia. O que podia ter sido um dia santo para quem gosta do Papa foi transformado num dia de barulho infernal de helicópteros e sirenes, com a cidade cortada ao meio durante mais de uma hora.
Três coisas a reter olhando para a lista de eventos histericamente apadrinhados pelo governo português:
  1. Proteger uma elite das imaginárias massas raivosas num mundo onde o fosso que separa os ricos dos pobres se aprofunda é muito caro. Só para a segurança dos amigos da Nato o estado português vai gastar perto de dez milhões de euros. A visita do Papa custou uns estimados 37 milhões de euros por dia, incluindo, é verdade, três altares descartáveis :-)
  2. Por outro lado, os gastos em segurança ajudam a alimentar um mercado que emergiu com a guerra do Iraque, o da segurança doméstica (home security), estimado em muitas centenas de milhares de milhões de euros com um crescimento anti-cíclico (mais crise, mais mercado) e que está a dar fôlego às sofridas bolsas financeiras. Os países ricos com mercados saturados encontram neste novo mercado de choque a fórmula para manter o crescimento a vários dígitos que segundo os analistas mais sensatos deveria ser uma coisa do passado.
  3. A cereja em cima do bolo: os produtos e serviços deste mercado são largamente financiados pelos contribuintes!
Entretanto fui dar uma volta por Lisboa. As ruas estão desoladas e reina um silêncio que mais faz lembrar um qualquer Domingo não fosse pela presença de coletes amarelo fluorescente em cada esquina, bandos de agentes da PSP com postura conspiradora em cada bairro, umas barreiras rua sim-rua não para condicionar o pouco trânsito que se verifica e o zunzum de fundo dos helicópteros. Por obediência ou medo, os portugueses refugiaram-se nas suas casas. Nas ruas uma em cada duas pessoas é agente e a outra turista (com ar ligeiramente perplexo).

Um mercado que lucra exclusivamente com as calamidades e estados de sítio, precisa de investir continuamente na promoção de um mundo inseguro. Portugal, o eterno bom aluno, conseguiu. Lisboa acatou o recolher obrigatório, um circo pago com o nosso dinheiro, para proteger pessoas-mais-importantes-que-nós que viram o futuro e decidiram que está repleto de perigos indefinidos que merecem medidas de segurança mais elevadas e a gradual limitação de direitos cívicos consagrados, como a livre expressão de ideias, a livre reunião para as discutir e o livre protesto não-violento para as exigir.


Bem-vindos a Lisboa, bem-vindos ao admirável mundo novo.

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