Com a ajuda de jornalistas menos escrupulosos e jornalistas apenas ignorantes (artigos DN por Valentina Marcelino, artigo Sol, e.o.) - inoculando o público para tolerar as medidas e despesas aplicadas para travar supostas ameaças de terroristas da Al-Qaeda, anarquistas, "outros grupos de esquerda" ou, porque não, "pessoas vestidas de preto"- e gestos dramáticos como a suspensão unilateral do Acordo de Schengen, a criação de uma espécie de "Green Zone" na Expo e o cancelamento do concerto dos Arcade Fire, o aparato de segurança da Cimeira deixou claro que Lisboa dá as boas-vindas aos senhores da guerra, mas não estende o mesmo gesto aos senhor@s da paz.
Duas centenas de activistas foram impedidos de entrar em território português, sem uma boa justificação, violando o direito à liberdade de opinião, de reunião e de expressão consagrado na carta internacional dos direitos humanos. Entre os activistas proibidos de pisar território português, estão os palhaços da Clown Army, um dos melhores exemplos de protesto criativo não-violento e um grupo de objectores de consciência da Finlândia.
Deslegitimando movimentos reconhecidamente pacifistas, as autoridades conseguem muito eficazmente diminuir a participação de activistas bem preparados, organizados e mediáticos e tentar assim desorientar o protesto contra a Nato, abrindo caminho para o uso de medidas repressivas indiscriminadas.
Não se trata do primeiro incidente de perversão da tradicional hospitalidade portuguesa, mas é certamente o mais descarado.
Para perceber como chegamos a este clima fascista, passemos de relance os principais episódios negros na história de Portugal-anfitrião de pessoas-mais-importantes-que-nós:
- 2003: a Cimeira das Lajes - não obrigou ao corte de trânsito nas ruas de Lisboa nem deu direito a ponte mas ditou a guerra do Iraque, ligando para sempre Portugal a este crime irreparável. Ajudou também a salvar a Nato da extinção, empenhando-a numa guerra com contornos místicos que ecoam as cruzadas, onde o inimigo, para além do "herege" muçulmano, é toda e qualquer pessoa não conformada.
- 2007: a Assinatura do Tratado de Lisboa - foi certamente caro, mas como só estavam presentes europeus não foi preciso paralisar a cidade..
- 2009: a Cimeira Ibero Americana - aqui contámos com as eminentíssimas presenças de senhores ultra-poderosos como o Obama e o secretário-geral da Nato, por isso já deu para brincar com blindados e condicionamentos de trânsito e ensaiar as técnicas dos SWAT. Também foi nesta cimeira que se instituiu a tradição da tolerância de ponto em dias de visitas de super VIPs.
- já em 2010: a Visita do Papa - atenção, está nesta lista não por se tratar de um senhor da guerra (espero bem que não) mas porque a histeria securitária do governo português atingiu novos patamares: uma cidade paralisada, refém das decisões tomadas pelos seus governantes para garantir a segurança de pessoas que, num mundo sem guerras e desigualdades, podiam simplesmente usar os transportes públicos, como fazem os primeiros ministros de países como Holanda, Dinamarca e Suécia. O que podia ter sido um dia santo para quem gosta do Papa foi transformado num dia de barulho infernal de helicópteros e sirenes, com a cidade cortada ao meio durante mais de uma hora.
- Proteger uma elite das imaginárias massas raivosas num mundo onde o fosso que separa os ricos dos pobres se aprofunda é muito caro. Só para a segurança dos amigos da Nato o estado português vai gastar perto de dez milhões de euros. A visita do Papa custou uns estimados 37 milhões de euros por dia, incluindo, é verdade, três altares descartáveis :-)
- Por outro lado, os gastos em segurança ajudam a alimentar um mercado que emergiu com a guerra do Iraque, o da segurança doméstica (home security), estimado em muitas centenas de milhares de milhões de euros com um crescimento anti-cíclico (mais crise, mais mercado) e que está a dar fôlego às sofridas bolsas financeiras. Os países ricos com mercados saturados encontram neste novo mercado de choque a fórmula para manter o crescimento a vários dígitos que segundo os analistas mais sensatos deveria ser uma coisa do passado.
- A cereja em cima do bolo: os produtos e serviços deste mercado são largamente financiados pelos contribuintes!
Um mercado que lucra exclusivamente com as calamidades e estados de sítio, precisa de investir continuamente na promoção de um mundo inseguro. Portugal, o eterno bom aluno, conseguiu. Lisboa acatou o recolher obrigatório, um circo pago com o nosso dinheiro, para proteger pessoas-mais-importantes-que-nós que viram o futuro e decidiram que está repleto de perigos indefinidos que merecem medidas de segurança mais elevadas e a gradual limitação de direitos cívicos consagrados, como a livre expressão de ideias, a livre reunião para as discutir e o livre protesto não-violento para as exigir.
Bem-vindos a Lisboa, bem-vindos ao admirável mundo novo.
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