domingo, 17 de maio de 2009

Carta enviada à EDP no âmbito do protesto digital contra a sua campanha enganosa

No âmbito da acção cibernauta lançada por ambientalistas e especialistas em ambiente - entre eles a Plataforma Sabor Livre, FAPAS, GEOTA, LPN e SPEA -, protestando a campanha publicitária (ainda a decorrer) da EDP, foi preparada uma carta para qualquer cidadão preocupado/a poder enviar à EDP. 

A campanha de comunicação da EDP, amplamente divulgada nos mais diversos órgãos de comunicação social (com o nosso dinheiro), escandalizou as Organizações Não Governamentais de Ambiente e inúmeras individualidades ligadas à conservação da natureza. Esta campanha associa erradamente as barragens à protecção da biodiversidade, quando na verdade a sua construção significa uma forte ameaça tanto às populações humanas como às espécies silvestres, não só as referidas na própria campanha - aves rupícolas, peixes, lobos, morcegos e flora – mas todas as constantes da biodiversidade específica de cada habitat.


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Exmos(as) Srs(as)

 

Venho por este meio manifestar o desagrado com a campanha publicitária que a EDP lançou recentemente. Trata-se de uma publicidade inoportuna e tendenciosa, na medida em que manipulam imagens de rios sem barragens para justificar opções de represamento, cuja argumentação técnica não é imparcial, como provam os processos jurídicos a decorrer.

 

Será mais útil utilizar os recursos mediáticos para informar sobre eficiência energética e mostrar exemplos concretos nesse sentido, do que fazer este tipo de investimentos em opções do lado da oferta, que já não se coadunam com as necessidades ambientais da época. Estima-se que a adopção de  medidas de eficiência energética seria  de valor muito superior à da potência instalada nas novas barragens

 

O que constatou o Estudo da Comissão Mundial sobre Grandes Barragens (estudo que abrangeu um levantamento de 125 grandes barragens, acompanhado por 17 estudos temáticos sobre questões sociais, ambientais e económicas, sobre alternativas às barragens e sobre os processos institucionais e de governo):

 

- No saldo final os impactos sobre o ambiente são mais negativos que positivos e, em muitos casos, provocam danos significativos e irreversíveis a espécies e ecossistemas. Há destruição de florestas e habitats selvagens, desaparecimento de espécies e a degradação das áreas de captação a montante devido à inundação da área do reservatório. Há redução da biodiversidade aquática, a diminuição das áreas de desova a montante e a jusante e o declínio dos serviços ambientais prestados pelas planícies aluviais a jusante, brejos, estuários e ecossistemas marinhos adjacentes.

 

- Há impactos cumulativos sobre a qualidade da água e risco de salinização e degradação do solo se essa água for usada na rega.

 

- Constatou-se também que das barragens estudadas todas emitem gases que contribuem para o efeito de estufa, como ocorre com os lagos naturais, devido aos inerentes processos de decomposição em águas "paradas"; a intensidade dessas emissões varia muito dependendo da localização/ temperatura e condições do local; uma comparação fiável exigiria que fossem medidas as emissões de habitats naturais anteriores ao represamento. Além disso, há emissões não desprezáveis no fabrico do betão usado na construção.

 

- Considerando os enormes investimentos já feitos em grandes barragens, é surpreendente que haja tão poucas avaliações independentes do seu desempenho e mesmo essas têm um alcance restrito e não integram devidamente as categorias e escalas de impactes.

 

- Depois de um projecto de barragem ser aprovado em estudos de viabilidade técnica e económica e ter o interesse de políticos, governos e de órgãos externos de financiamento, a própria inércia do projecto em andamento costuma prevalecer sobre outras avaliações, como resultado, inúmeras barragens foram construídas sem atender aos critérios sociais e ambientais aplicáveis no contexto da época.

 

- Os conflitos em torno das barragens derivam da incapacidade dos seus defensores respeitarem regulamentos estabelecidos, as directrizes e normas internas das instituições; em alguns casos as oportunidades de corrupção propiciadas pelas grandes barragens, como projectos infra-estruturais de grande porte, contribuem para distorcer ainda mais o processo decisório, o planeamento e a implementação.

 

O estudo da comissão mundial indica ainda boas práticas a considerar:

- Existe uma considerável margem de aperfeiçoamento na selecção de projectos de barragens e na operação das grandes barragens existentes e sua infra-estrutura.

- Adoptar processos participativos na tomada de decisão e nas opções e estratégias de "desenvolvimento".

- Assegurar a monitorização e revisão dos ecossistemas afectados.

 

Em relação às medidas de eficiência energética estas deveriam ser extensíveis às escolas e equipamentos públicos, lâmpadas de LEDs, equipamentos classe A de consumos, tarifários bi-horários, equipamentos de aquecimento que não utilizem electricidade; edifícios com melhor isolamento e adaptados ao solar passivo e activo, que evitem a utilização de aparelhos de climatização consumidores de electricidade.

 

 

Cumprimentos,


 

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