sábado, 17 de janeiro de 2009

Quando a cidadania fica refém da intolerância






Ontem fui relembrada pouco suavemente de que o inimigo número um de qualquer cidadã activa não são os problemas ambientais, urbanísticos ou mesmo sociais, é antes de mais a intolerância.

Convidada para participar numa acção de celebração e defesa da nova zona pedonal de Almada, contestada um pouco por todos por razões contradictórias (uns querem todos os carros de volta, outros consideram os acessos especiais excessivos), enfiei os patins num saco, fui buscar a minha filha à escola e apanhei comboio e metro rumo ao entretanto ínfamo local. Quando cheguei estava a decorrer um lanche popular, um grupo de pessoas jogavam jogos tradicionais e de vez em quando tocava uma banda de samba. Outros distribuíam folhetos aos condutores, que achei surpreendentemente numerosos. Basicamente está sempre um carro ou autocarro a passar, poucos respeitam o limite de 10 km e é preciso muita cautela para não ser atropelado.

De facto o volume de trânsito só pode suscitar críticas à câmara e à polícia por não o controlar, mas como estas entidades já tinham sido abordadas, tratava se agora de sensibilizar os transeúntes em defesa de uma zona pedonal mais verdadeira. Foi uma acção modesta, já que em nenhum momento houve mais de 20 pessoas concentradas no local, várias das quais mães e crianças, e ainda idosos que assistiam aos festejos.

Tudo correu bem durante 2 horas, com conversas perfeitamente cívicas com quem passava, incluindo pais da escola da zona, condutores de autocarros e agentes, cada qual mais ou menos sensível à questão. Pelas 18 horas a banda inicia uma marcha à volta da praça, inevitavelmente atrasando o trânsito que para além de ser denso a esta hora, revelava o total incumprimento do limite de velocidade.

É nesta altura que fica evidente a presença de um corpo de intervenção com 8 elementos. E assim que se acumulam 3 carros atrás da banda, onde a minha filha de 8 anos tocava alegremente um tambor, a polícia de choque (nota posterior: não era de choque como aliás se vê na fotografia, mas comportava-se como tal sem a formação respectiva..) resolve fazer uma carga sem qualquer aviso prévio. Os agentes atiram-se à dúzia de musicantes rodeados por transeúntes, empurrando tudo e todos com extrema violência. Qualquer pessoa que se endireita leva com outro empurrão e ameaças verbais. Indiscriminadamente são agredidos uma mulher com bébé ao colo, o rapaz que as tenta proteger, premiado com um golpe de bastão que lhe abre a cabeça e uma senhora um pouco mais velha que acabou por ficar com um traumatismo craniano. Quando se apercebem das pessoas que estão a filmar e fotografar, os agentes ficam ainda mais exaltados. Um homem que nao quer entregar a camera de filmar, é detido e arrastado para a carrinha. A polícia começa, penso que ilegalmente, a apagar as fotos das pessoas que estavam a registar o acontecimento e foi aí que me coube uma forte bastonada na mão que segurava a máquina fotográfica, falhando por pouco partir dois dedos. A máquina teve menos sorte e terminou os seus dias alí na calçada. Durante 15 angustiados minutos nem soube da minha filha, que felizmente é forte e corajosa e fugiu dos policias enraivecidos, refugiando-se com perfeitos estranhos.

A cena só acalmou com a chegada de mais polícias.. de trânsito. Estes focavam a sua atenção na população assustada e indignada, chamaram ambulâncias e procuraram acalmar as pessoas. Um passou 10 minutos a sossegar a minha filha, que chorava convulsivamente, evitando assim, esperemos, que ela passe a ter medo de fardas. Eu fui atendida pelo que julguei ser um polícia à paisana, que me atou os dedos e me levou à ambulância. Fui para o hospital com o rapaz do golpe na cabeça, após termos sofrido ainda um rio de insultos dos polícias de intervenção que pretendiam justificar a sua acção. Os comentários foram tão baixos que me custa repeti-los, mas foram exemplificativos da atitude de menosprezo e agressividade da polícia ao longo dos incidentes. Ainda detiveram uma senhora de pelo menos 70 anos e que nada tinha a ver com a acção, só protestava a actuação da polícia. No hospital, acabado de ser suturado (8 pontos!) e meio zonzo, o franzino rapaz do golpe foi completamente revistado, algemado e levado, com um ar aterrado, para a esquadra do Pragal por nada menos que cinco agentes! Lá ficou detido por injúria pois tinha pedido ainda no local a um agente para se identificar, depois de ter assegurado que se identificaria também (Aliás, apenas o comandante da 2ª divisão acabou por se semi-identificar, já que deu o título mas não o nome).

É assustador pensar que em Portugal se atacam peões para defender automobilistas numa zona pedonal. Ainda mais custa aceitar que a polícia portuguesa não saiba proporcionar a sua actuação, nem distinguir uma dúzia de jovens, mulheres e crianças rodeados por idosos que usam pacificamente tambores e flyers, de uma multidão enraivecida que vandalize e lance engenhos incendiários. Por mais que se discorde dos argumentos dos cidadãos que resolveram celebrar a zona pedonal, exprimi-lo com violência misturada com um desprezo que roça o ódio, é descer às profundezas da ignorância. A reacção cegamente agressiva, por desconhecimento e medo da diferença, a eventos coloridos desta natureza, tão comuns noutras cidades da Europa, coloca o relógio 50 anos para trás. Fere-nos como civilização.

É fácil desanimar quando se é envolvida numa situação de tão profunda injustiça e ganhar medo em exprimir a nossa opinião, mas recuso-me a ser vítima da intolerância. Por isso escrevo este post, partilhando a má experiência com quem quiser ouvir, apresento as queixas que tiver que apresentar e sigo caminhando, com a mesma intenção de ser útil aos outros e de desejar a sua, e a minha felicidade.



22 comentários:

Miguel Carvalho disse...

estou sem palavras

Hugo Evangelista disse...

Pois, também eu...

Mas afinal qual foi a justificação da polícia?

Luís Silva disse...

E voces vão apresentar queixa ou não?!

Espero que sim que esses bandidos têm que pagar pelo que fizeram...

Hugz,
Luís

PAGBA disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
lanka4earth disse...

Entretanto a polícia lançou a sua versão oficial, como se ve aki: Comunicado PSP!
Falam em 200 pessoas!! A onde?? Em nenhuma altura havia mais de 20 concentradas juntas no local, podem ver nas fotos. Com mães e filhos à mistura. E cerca de 3 dezenas de transeúntes a qq altura, afinal é uma zona pedonal.. Este facto é ignorado e a justificação para a acção é porque já 'começávamos a perturbar o trânsito'. A multidão a quem a polícia alegadamente pediu para dispersar (não pediu, pois estava a mais de 25 metros de distância) e à qual se atirou de repente com uma corridinha, era formada por cerca de 12 pessoas, incluindo uma mulher com bébé e a minha filha de 8. Na notícia até eu sou erradamente citada, obviamente na zona pedonal já existia um limite de velocidade de 10 km/hora.. Bom, preparemo-nos para a desinformação :-(

isabel disse...

Partilho a sensação. Momento surreal. Estive com os meus filhos no início da celebração também me retiraram a máquina da mão apagando tudo quanto tinha. Sem se identificarem, apenas dizendo/ameaçando que é ilegal recolher imagens. Os meus filhos e eu ficámos abismados com a atitude. É a força da autoridade. Nem sei o que pensar, é triste, um momento que se tinha como uma acção pacífica de celebração por uma zona onde os peões podem circular transformado numa manifestação de autoridade policial.

Nádia disse...

a POPULAÇÃO tem de agir!
Temos de fazer alguma coisa....agir contra aqueles malditos!
Contra a canalha não se atiram eles!!!!!
Denunciar isto à tvi, sic e rtp1!!!!!!!!!!!

pandolet disse...

meu deus, mas que país é este!? nem sei que diga.

José M. Sousa disse...

Façam queixa à Inspecção-Geral da Administração Interna.
«Esta instituição surgiu para dar resposta a questões de menor transparência ou legalidade no âmbito do MAI mas, sobretudo, para responder de forma eficaz à defesa intransigente dos direitos humanos, dos direitos fundamentais dos cidadãos, numa perspectiva da melhoria da qualidade na acção policial e do exercício da cidadania no Estado de Direito Democrático.»
O inspector-geral, vulgarmente conhecido "inspector das polícias" é o Juiz Desembargador Dr. Mário Manuel Varges Gomes

Contactos: Inspecção-Geral da Administração Interna (IGAI)

Morada: Rua Martens Ferrão, 11 - Pisos 3, 4, 5 e 6
1050-159 Lisboa
PORTUGAL
Número de Identificação Fiscal: 600 043 797
Telefone: 21 358 3430 --- Fax: 21 358 3431
Correio Electrónico (E-mail): geral@igai.pt

José M. Sousa disse...

Já agora, também valeria a pena participar à Comissão de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias - Subcomissão de Administração Interna

Unidos na Diversidade disse...

é inacreditável...

Realmente a nossa "cidadania" e "civilização" está presa por uns fios tão fininhos tão fininhos que à mínima agitação se partem e voltamos ao comportamento de quando tínhamos as 4 patas no chão.

Espero que apresentem queixas e que levem isso a altas instâncias... Já nem há respeito pelas mulheres deste país, sejam mães ou idosas...
é triste. e um bocado revoltante.

mas voçes estavam a impedir a circulação por completo???
força para si e para a sua filha.

Hugo Mendes

António Baptista disse...

Afinal qual foi o erro dos manisfestantes, quando apenas exigiam que a lei fosse cumprida...pede-se uma reciclagem para a policia que inclua aulas de civismo

Carlos disse...

Foi mesmo assim?
Eu também estive perto, com vista privilegiada de uma varanda.
O rapaz franzino foi o "ecológico" que liderou a destruição do milho transgénico no Alentejo, ou estarei enganado?
Será que também faço parte da desinformação?

pordentro disse...

Que país é este?
Este é o país que exige que sejam tomadas atitudes perante forças da (des)ordem que teimam em fazer "ensaios", "testes" e "treinos" com grupos de cidadãos absolutamente indefesos.

Esta carga policial não é mais do que a cara de um sistema fascizante. E elas vão intensificar-se.

A todas as pessoas que estiveram envolvidas, não se calem nunca. Quando aqueles que têm por função proteger os cidadãos têm este comportamento muito pouco haverá que esperar.

Silvares disse...

Na minha qualidade de cidadão e habitante de Almada só posso manifestar repúdio, nojo e uma profunda revolta. Enquanto português manifesto indignação por verificar que trinta e cinco anos após a libertação continuamos a revelar traços de selvajaria que imaginava apagados. Como europeu nem sei que diga ou pense. Temos de cerrar os dentes e perceber que o estado policial está a comer o estado democrático. Isso não podemos permitir.

lanka4earth disse...

Está a ser levada a cabo uma acção de desinformação, sim. Já se fala em 200 pessoas desordeiras que batiam em carros! Mas reparem no resultado: os feridos foram: rapaz franzino estudante de Almada que se meteu entre polícia e mulher com bébé, uma mãe com a filha presente (eu) e uma senhora de 50 anos.Os detidos foram 2 ou 3 (ninguém fala da senhora de 70 anos que vi desaparecer escoltada por agentes) e pelas seguintes razões (independentemente se tinham ideologias ambientalistas ou se eram protestantes ou católicos): um recusou-se a dar a camera com que filmava um agente que estava a mal-tratar a sua mulher com bébé ao colo, o outro pediu que os agentes se identificassem, após ter assegurado que faria o mesmo (e enquanto estava com a cabeça a sangrar do golpe que levou). As pessoas presentes eram cerca de 20 e só tinham tambores, flyers e cameras, para além de um lanche que dividiam com a população que passava. O único perigo para a segurança pública foi constituída pela própria polícia.

Condor disse...

Fizemos o link.


Obrigado e boa noite.





www.bandeiranegra1.wordpress.com

Meg disse...

Que animais, que verdadeiras bestas... Nem seres humanos são, quanto mais polícias.

Não se calem! Apresentem queixa! Força!

André Cunha disse...

Não me vou pronunciar a favor ou contra sem ter comigo as duas versões do sucedido.

Seja como for, se querem que isto tenha consequências, sugiro-vos a comunicar a imprensa.

Tenho a certeza que a SIC ou a TVi adorariam num programa tipo "Nós por cá" tendo em conta o alarde que fazem quanto ao espírito cívico do mesmo.

Queixas através apenas de entidades oficiais, não vão dar em nada.

Fernando disse...

É realmente uma vergonha. Tendo vivido grande parte da minha vida na zona da Costa da Caparica e Almada fico estupefacto com o sucedido.
Já não é a 1ª vez que a polícia perdeu a noção das coisas, alguém se lembra do "avanço policial" na Faculdade de Ciências e Tecnologia?
Acho que alguém necessita de dar um valente puxão de orelhas ás autoridades locais...

Espero que apresentem queixa deste abuso.

kylekatarn disse...

Enoja-me toda esta situação, não há nada a dizer, apenas muito a fazer.

"Autoridade" sem escrúpulos, vergonhosa na sua actuação.

Enfim...

lusitanobarbaro disse...

estou estupefacto!!
pensei que os policias agora tivessem alguma formação civica.
afinal continuam os mesmos animais.. gostava de ver isto tratado nos meios de comunicação social..