quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Feed thyself II

Hoje celebra-se um daqueles dias cínicos e sem consequência. O Dia Mundial da Alimentação foi inventado nos anos setenta pela paliativa e impotente FAO, uma das organizações que se comprometeu a realizar os objectivos de desenvolvimento do Milénio, e que se juntará ao seu falhanço em 2015.

No vigésimo nono dia mundial da alimentação estamos no pior ano em quatro décadas de ajuda alimentar e existem perto de um bilhão de pessoas malnutridas. Pior ainda, eliminámos nestas décadas muito prósperas para o mundo ocidentalizado habilmente todas as capacidades dos países menos desenvolvidos de se alimentarem a si próprios. Países que antes dos esquemas de (re)estruturação de dívida externa e liberalização do comércio que substituíram o colonialismo tinham recursos naturais suficientes para alimentar toda a população mundial (a calorias razoáveis). Hoje estes países, se querem comer, têm que nos comprar a comida a preços inflacionados - taxa especial de combustível, percentagem dos intermediários e remuneração dos especuladores incluídas - mesmo que esta comida venha das suas próprias terras, que entretanto foram privatizadas e já não lhes pertencem. Ou então esperam que chegue um contentor das Nações Unidas com comida comprada às mesmas empresas que controlam a cadeia alimentar com o dinheiro dos contribuintes por todo o mundo. E isso só se o contentor escapar às garras da elite do país em questão.

Ainda bem que os nossos conterrâneos pobres não vêem os milhões (sim) de toneladas de comida deitada fora todos os dias ora porque está 'fora de prazo', ora porque ultrapassa as quotas estabelecidas para controlar o mercado ou tão simplesmente porque nós, os mais prósperos, já não tínhamos apetite..

O homem e a mulher civilizaram-se a partir da produção de alimentos. Foi quando começámos a cultivar a terra que a história escrita iniciou. Dez mil anos depois é a partir do controlo da produção de alimentos que alguns homens e algumas mulheres excluem mais de um terço da população mundial desta civilização (todos os que vivem com menos de 2$ por dia).

A alimentação teve um impacto tal na evolução humana, que até gerou uma nova espécie: o Homo Obesus. São já mais de um bilhão 'and counting', ultrapassando largamente o número de Homo Famintus. Será que Darwin chamaria a isso o resultado de uma selecção natural? Ou estará este processo de selecção ainda em curso? Olhando para a esperança de vida dos obesos, em franca redução, escolho resposta ‘B’.. Que grande ironia essa de mais gente morrer de sobre-nutrição do que de fome.

Mas desenganem-se os que julgam que a obesidade é o preço a pagar por uma vida mais confortável. Contrariando a lógica, a obesidade e a fome partilham a mesma causa: a falta de acesso a comida saudável. O fast food já é mais barato do que os alimentos frescos e a obesidade deixou de ser o privilégio dos ricos para se tornar o novo flagelo dos pobres. Os ricos, incluindo os patrões de empresas como Monsanto, já adaptaram a sua alimentação e preferem a comida biológica, deixando os produtos de composição duvidosa que fabricam para o resto do mundo consumir.

O meu desejo para mais este Dia Mundial é que se desmantele de vez o mito da escassez e que enfrentemos as consequências de um mundo de abundância que é para a maioria dos humanos como a árvore de fruto foi para o Tântalo, fora do seu alcance. Com a diferença de que Tântalo foi condenado à sua condição por deuses enquanto os desafortunados modernos o foram pelos seus congéneres.

1 comentário:

chaichop disse...

The current situation is absolutely disgusting. Humans wont rest until their greed ravages everything and everyone around them. :( (yeah, im a pessimist).