domingo, 6 de julho de 2008

Who resuscitated the electric car?


Quando os humanos querem, os humanos podem e mandam. Do momento em que uma nova via não só parece inevitável como até apetecível e '
trendy', saltam todos a bordo.


A subida inesperadamente acentuada dos preços do petróleo, a comercialização do combate às alterações climáticas e talvez até o cansaço de continuar a empacotar o mesmo motor de combustão ineficiente 100 anos depois do primeiro Ford levaram a que, tal como afirmei tentativamente em Janeiro, os carros ‘do futuro’ fossem apresentados já este ano ao mercado.

A Honda acabou de lançar o primeiro carro movido a hidrogénio (ainda a um custo proibitivo, mas para estimular o mercado eles estarão disponíveis em regime de leasing). As grandes marcas estão a atropelar-se uma a outra para introduzir carros eléctricos e híbridos ‘plug-in’. Na Holanda, um consórcio de uma empresa de energia e um fabricante de automóveis promete que em breve os utentes de carros eléctricos poderão ligar o seu veículo a fichas um pouco por todo o país e 'encher' o depósito com cerca de 3 euros.

Não se excitem demasiado, pois não se trata de nenhuma revolução. Os carros eléctricos que chegam agora ao mercado podiam ter sido lançados há 20 ou mesmo 30 anos, poupando centenas de milhares de milhões de emissões de CO2 (mais ainda se as centrais de energia tivessem sistemas de captura de carbono) e evitando a manta cinzenta de partículas que cobre a maioria das grandes cidades, causadora do aumento exponencial de alergias e asmas. Poucas pessoas saberão que há cem anos atrás, os carros eram eléctricos, que a célula de combustível que permite carros que não emitam mais que água foi inventado há mais de 160 anos, que o primeiro híbrido data de 1930 e que o estado da Califórnia tinha um 'zero-emission vehicle mandate' (ZEV) nos anos '90 que obrigou os grandes fabricantes a introduzirem carros eléctricos à pressa e com sucesso...

Como foi possível assassinar a tecnologia limpa de cada vez que ela aparecia para agora a abraçar? Muito simples. Depois de a Ford ter iniciado a sua produção em massa de carros com motor de combustão interna e depois de os americanos terem encontrado petróleo suficiente no Texas para alavancar a era do petróleo barato e do ‘urban sprawl’, o destino do carro eléctrico ficou selado. Na última tentativa de o introduzir, nos anos ‘90, o lobby sujo dos fabricantes de automóveis e da indústria petrolífera acabou por vencer novamente e o programa ZEV, que já tinha sido adoptado por outros sete estados, foi suspenso, sob pretexto federal de ser uma diligência ilegítima para regular o mercado da energia.

Pois era demasiado importante sacar primeiro todo o petróleo disponível na terra e queimá-lo. Um pouco de smog, ruído e efeito de estufa não podiam ensombrar um negócio tão lucrativo, onde tantos ‘players’ ficavam a ganhar. Em primeiro lugar a indústria petrolífera e petroquímica, a seguir os fabricantes de automóveis a quem bastava volta e meia re-estilizar um produto ‘cash-cow’ com uma tecnologia madura para continuar a encaixar, depois a indústria da construção que tinha pano para mangas com auto-estradas intermináveis e subúrbios cada vez mais extensos e ainda o governo que ganhava com os impostos e com os empregos criados, enfim, um modelo imbatível.

E agora... que o petróleo dos Estados Unidos acabou e que têm que travar guerras bilionárias para o assegurar, que os EUA e o Reino Unido gostavam de convencer o público a aceitar o carvão (lembro que nenhum destes países tem uma rede ferroviária de jeito), que o mercado de carbono passou os primeiros testes e parece ser lucrativo, agora sim torna-se interessante liderar uma pretensa revolução limpa nos carros e aproveitar a inexperiência do público para manter as indústrias fóssil, automóvel e de construção bem oleadas. A súbita promoção de 'carros verdes' pelos fabricantes de automóveis (a Opel, do mesmo grupo que matou o carro eléctrico nos anos ’90 – a GM -, até afirma escandalosamente de ter um Astra 'impacto-zero' que obviamente está longe de o ser, com emissões de carbono 50 gramas acima do novo target da União Europeia), e o facto de a produção de hidrogénio depender pesadamente do petróleo ou do carvão, leva-me a crer que vamos continuar a ver mais do mesmo mas com ainda menos transparência.

O futuro não terá carros a queimar petróleo. Mas, sob a legitimação de passarmos o carro a electrodoméstico gigante, vamos tentar continuar a entupir as nossas cidades com quantidades insustentáveis de veículos de uso pessoal, estender as zonas urbanas e as redes viárias até termos eliminado qualquer réstia de ruralidade e comunidade, erguer catedrais de consumo até cada uma só ter 10 clientes e entretanto queimar fósseis nas centrais até à última gota.

O renascimento do carro eléctrico não parece ser mais do que uma chicanice para prolongar indeterminadamente o ‘
business as usual’ de umas dezenas de multinacionais. Espero não ter razão.



Fontes:
Who killed the electric car? (doc e site)
History of electric vehicles
The end of suburbia (doc) e Escape from suburbia (a sequência)

Sem comentários: