sexta-feira, 11 de julho de 2008

Por um mundo livre de transgénicos

.. comecemos em Portugal. Amanhã, 12 de Julho, acção grande em Monforte, onde foram autorizados ensaios experimentais de milho transgénico em plena Rede Natura!

É um atentado à natureza, à soberania alimentar mas sobretudo um atentado ao direito de escolha. Ao autorizarem o cultivo de milho transgénico, com riscos de contaminação enormes (aliás, garantidos), deixa de ser possível confiar na segurança alimentar. 

Como centenas de casos de contaminação pelo mundo fora nos mostram (até em bancos de sementes ancestrais!), rapidamente toda a cadeia alimentar fica prejudicada e aqui não há volta atrás. A natureza procurará sempre um novo equilíbrio, mas pode não ser um equilíbrio que permita a sobrevivência da nossa espécie.. Em poucos anos podemos vir a eliminar a pouca biodiversidade que nos resta e estarmos sujeitos a pagar meia dúzia de empresas transnacionais cada vez que temos fome, pois são elas que detêm perversamente as patentes sobre a vida.

Juntem-se a esta causa, ela é central à luta pela soberania alimentar, ao combate à pobreza e à fome. Neste momento quem controla os transgénicos, controla a comida, pelo mundo fora.






quarta-feira, 9 de julho de 2008

G8 à mesa, 1 mundo com fome II


La Via Campesina Press Release
(Hokkaido, 9 July 2008)
The G8 is using the food crisis to promote their free trade agenda: Reacting to the G8 Leaders statement on Global Food Security issued last night in Hokkaido, Via Campesina farmer leader
Mr. Yoshitaka Mashima said: «We do not understand why the G8 leaders pretend to solve the food crisis with more free trade while it is the liberalisation of agriculture and food markets that continue to lead us to the current crisis. People need to eat local food to protect themselves from the instability of world markets. We do not need more imported food».

At a press conference today, farmers leaders said that the G8 governments were mistakenly using the current food and climate crisis to promote the free trade agenda that is serving large companies and not producers of food and consumers. The G8 leader's statement insists on reviving the agonising WTO negotiations and on preventing countries from regulating
food exports.

However, small farmers around the world, men and women, have experienced the devastating effects of free trade and WTO policies on livelihoods and local food production. They defend the right of countries to protect their domestic markets, to support sustainable family farmers, and to market food in the countries where it is produced. (..)

cont.: The G8 is using the food crisis to promote their free trade agenda

domingo, 6 de julho de 2008

Who resuscitated the electric car?


Quando os humanos querem, os humanos podem e mandam. Do momento em que uma nova via não só parece inevitável como até apetecível e '
trendy', saltam todos a bordo.


A subida inesperadamente acentuada dos preços do petróleo, a comercialização do combate às alterações climáticas e talvez até o cansaço de continuar a empacotar o mesmo motor de combustão ineficiente 100 anos depois do primeiro Ford levaram a que, tal como afirmei tentativamente em Janeiro, os carros ‘do futuro’ fossem apresentados já este ano ao mercado.

A Honda acabou de lançar o primeiro carro movido a hidrogénio (ainda a um custo proibitivo, mas para estimular o mercado eles estarão disponíveis em regime de leasing). As grandes marcas estão a atropelar-se uma a outra para introduzir carros eléctricos e híbridos ‘plug-in’. Na Holanda, um consórcio de uma empresa de energia e um fabricante de automóveis promete que em breve os utentes de carros eléctricos poderão ligar o seu veículo a fichas um pouco por todo o país e 'encher' o depósito com cerca de 3 euros.

Não se excitem demasiado, pois não se trata de nenhuma revolução. Os carros eléctricos que chegam agora ao mercado podiam ter sido lançados há 20 ou mesmo 30 anos, poupando centenas de milhares de milhões de emissões de CO2 (mais ainda se as centrais de energia tivessem sistemas de captura de carbono) e evitando a manta cinzenta de partículas que cobre a maioria das grandes cidades, causadora do aumento exponencial de alergias e asmas. Poucas pessoas saberão que há cem anos atrás, os carros eram eléctricos, que a célula de combustível que permite carros que não emitam mais que água foi inventado há mais de 160 anos, que o primeiro híbrido data de 1930 e que o estado da Califórnia tinha um 'zero-emission vehicle mandate' (ZEV) nos anos '90 que obrigou os grandes fabricantes a introduzirem carros eléctricos à pressa e com sucesso...

Como foi possível assassinar a tecnologia limpa de cada vez que ela aparecia para agora a abraçar? Muito simples. Depois de a Ford ter iniciado a sua produção em massa de carros com motor de combustão interna e depois de os americanos terem encontrado petróleo suficiente no Texas para alavancar a era do petróleo barato e do ‘urban sprawl’, o destino do carro eléctrico ficou selado. Na última tentativa de o introduzir, nos anos ‘90, o lobby sujo dos fabricantes de automóveis e da indústria petrolífera acabou por vencer novamente e o programa ZEV, que já tinha sido adoptado por outros sete estados, foi suspenso, sob pretexto federal de ser uma diligência ilegítima para regular o mercado da energia.

Pois era demasiado importante sacar primeiro todo o petróleo disponível na terra e queimá-lo. Um pouco de smog, ruído e efeito de estufa não podiam ensombrar um negócio tão lucrativo, onde tantos ‘players’ ficavam a ganhar. Em primeiro lugar a indústria petrolífera e petroquímica, a seguir os fabricantes de automóveis a quem bastava volta e meia re-estilizar um produto ‘cash-cow’ com uma tecnologia madura para continuar a encaixar, depois a indústria da construção que tinha pano para mangas com auto-estradas intermináveis e subúrbios cada vez mais extensos e ainda o governo que ganhava com os impostos e com os empregos criados, enfim, um modelo imbatível.

E agora... que o petróleo dos Estados Unidos acabou e que têm que travar guerras bilionárias para o assegurar, que os EUA e o Reino Unido gostavam de convencer o público a aceitar o carvão (lembro que nenhum destes países tem uma rede ferroviária de jeito), que o mercado de carbono passou os primeiros testes e parece ser lucrativo, agora sim torna-se interessante liderar uma pretensa revolução limpa nos carros e aproveitar a inexperiência do público para manter as indústrias fóssil, automóvel e de construção bem oleadas. A súbita promoção de 'carros verdes' pelos fabricantes de automóveis (a Opel, do mesmo grupo que matou o carro eléctrico nos anos ’90 – a GM -, até afirma escandalosamente de ter um Astra 'impacto-zero' que obviamente está longe de o ser, com emissões de carbono 50 gramas acima do novo target da União Europeia), e o facto de a produção de hidrogénio depender pesadamente do petróleo ou do carvão, leva-me a crer que vamos continuar a ver mais do mesmo mas com ainda menos transparência.

O futuro não terá carros a queimar petróleo. Mas, sob a legitimação de passarmos o carro a electrodoméstico gigante, vamos tentar continuar a entupir as nossas cidades com quantidades insustentáveis de veículos de uso pessoal, estender as zonas urbanas e as redes viárias até termos eliminado qualquer réstia de ruralidade e comunidade, erguer catedrais de consumo até cada uma só ter 10 clientes e entretanto queimar fósseis nas centrais até à última gota.

O renascimento do carro eléctrico não parece ser mais do que uma chicanice para prolongar indeterminadamente o ‘
business as usual’ de umas dezenas de multinacionais. Espero não ter razão.



Fontes:
Who killed the electric car? (doc e site)
History of electric vehicles
The end of suburbia (doc) e Escape from suburbia (a sequência)

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Declaração do Dia da Soberania Alimentar


G8 à mesa, 1 mundo à fome

pela soberania alimentar - um pedido de reviravolta no sistema global de produção de comida.


"A Soberania Alimentar é o direito dos povos, das comunidades e dos países de definirem as suas próprias políticas agrícolas, pastorais, laborais, piscatórias, alimentares e territoriais, que se adeqúem às suas circunstâncias ecológicas, sociais, económicas e culturais. Inclui o direito genuíno à alimentação e à produção alimentar, o que significa que todas as pessoas possuem o direito a comida segura, nutritiva e culturalmente apropriada, aos recursos para produzir alimentos e ainda à capacidade de auto-sustentarem-se a si e as suas sociedades.”

in Declaração do Fórum para a Soberania Alimentar, Roma, Junho 2002

Nos dias 7 a 9 de Julho 2008, os oito países mais ricos do mundo vão reunir em Hokkaido, Japão, para discutir as actuais crises alimentar, petrolífera, climática e financeira.

Para eles chegou o momento mais propício de sempre para implementar o que a autora Naomi Klein intitulou ‘capitalismo do desastre’ (1) . Com o mundo incrédulo perante o colapso dos mercados, e com mão-cheia de argumentos cuidadosamente preparados e disseminados há meses, os representantes destes países e os seus aliados intergovernamentais, o Banco Mundial, o Instituto Financeiro Mundial e a Organização Mundial do Comércio, para além do lobby das grandes empresas transnacionais, vão insistir em replicar a receita que envenenou o planeta: mais liberalização do comércio, a eliminação de qualquer réstia de política de protecção do mercado interno por parte dos países em desenvolvimento, a promoção intensificada de fertilizantes e sementes industriais, a aceleração da incursão de organismos geneticamente modificados, a industrialização da agricultura africana e um pouco mais de ajuda alimentar como paliativo para a exclusão crónica dos mais pobres do sistema alimentar.

Os espantosos aumentos dos preços de cereais estão no entanto completamente dissociados dos problemas apontados pelos governantes e analistas: uma agricultura insuficientemente industrializada, o aumento da procura de comida em países em crescimento, as alterações climáticas, o aumento da população e mesmo a produção do etanol. A produção de cereais conheceu um recorde absoluto o ano passado (2), o suficiente para alimentar o mundo mais de duas vezes se distribuído equitativamente (3), os biocombustíveis, certamente uma ameaça a breve prazo, ainda só representaram 5% da produção de cereais em 2007 (4); a produção de carne consome de facto um terço dos cereais e monopoliza as terras agrícolas e a água, mas só tinha aumentado 3% (5) e a procura de cereais para consumo aumentou exactamente um porcento desde 2006 (6).

Os cereais estão mais caros não porque há mais bocas para alimentar, mas porque há mais dinheiro a competir por eles, em mercados de futuros onde se aposta numa escassez vaticinada. A crise alimentar é o resultado de políticas nefastas implementadas desde os anos setenta pelos países ricos e não de uma falta de produtividade: as pessoas morrem à fome não porque não há comida, mas porque não a podem pagar.

Os G8 e seus aliados instalaram um sistema de produção e distribuição alimentar de alcance global que deu primazia ao lucro sobre as necessidades humanas e correu milhões de produtores das suas terras, minou irremediavelmente a produtividade do solo enquanto envenenou o ar e a água e condenou perto de mil milhões de pessoas à fome crónica e malnutrição. Fez depender 70% (7) dos países em desenvolvimento das importações de produtos subsidiados do Norte, enquanto retirou o apoio às agriculturas locais, arrasando assim os mercados dos pequenos agricultores, favorecendo as monoculturas para exportação e eliminando eficazmente a auto-suficiência de dezenas de países na produção de comida. Ao abrigo dos acordos bilaterais e das políticas impostas em troca do saneamento da sua dívida, os países em desenvolvimento ficaram à mercê das empresas transnacionais, sendo as suas políticas agrícolas e tarifas aduaneiras completamente desmanteladas. A auto-suficiência foi substituída por um sistema verticalmente integrado de produção, distribuição e especulação de comida, inteiramente privatizado e patenteado e nas mãos de poucas dúzias de empresas gigantes.

A comida é demasiado crucial para ser uma comodidade sujeita à volatilidade do mercado liberalizado, tal como a agricultura é demasiado essencial à governância do nosso planeta para ser gerida como uma fábrica de produção em série.

Em solidariedade com La Via Campesina, com aquela metade do nosso mundo que vive na ruralidade, e em nome da humanidade, subscrevemos as seguintes medidas de inversão do rumo traçado pelos G8:

- Um regresso à independência e auto-suficiência dos povos em matéria de produção alimentar com o direito de determinarem as suas próprias politicas agrícolas.
- Uma nova governância das terras que inclui sobretudo os que as trabalham.
- O fim da dependência dos químicos, monoculturas e de sistemas de produção intensivos.
- A desprivatização dos recursos naturais como o solo, a água e as sementes, proibindo os assaltos ao solo fértil e à biodiversidade, a bio-pirataria e as patentes sobre as formas de vida.
- O fim das politicas intergovernamentais que entreguem o controlo sobre a agricultura a empresas transnacionais.
- O cancelamento imediato da obrigação de importar 5% do consumo interno e das cláusulas de acesso desprotegido aos mercados dos países em desenvolvimento.
- Retirar a negociação sobre a produção e distribuição alimentar do foro da Organização Mundial do Comércio, do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional, regulamentando o comércio alimentar dentro de mecanismos internacionais genuinamente democráticos, respeitando a soberania alimentar de cada país.
- O fim da especulação em torno da comida.

O mundo seria capaz de se alimentar a si próprio desde que as políticas alimentares e agrícolas se baseassem em factos e não em mitos. Chegou o momento dos países mais ricos assumirem a responsabilidade pela crise que geraram. Chegou o momento da soberania alimentar.


(1) Naomi Klein, “The Shock Doctrine”, 2007
(2) FAO,
Abril 2008
(3) "
How we could feed the world"– World Socialist Movement, 2006
(4) FAO,
Abril 2008
(5)
World Watch Institute
(6) FAO,
Abril 2008
(7) Katarina Wahlberg, “
Are we approaching a global food crisis?”, World Economy & Development in Brief, Global Policy Forum, 3 March 2008

outras fontes:
FAO,
World Food Situation
Getting out of the food crisis'’- Revista GRAIN, Maio 2008
Making a killing from hunger” – Revista Grain, Abril 2008
Unnatural roots of the food crisis” - Gonçalo Oviedo in BBC news, Junho 2008
A response to the Global Food Prices Crisis: Sustainable family farming can feed the world.”- La Vía Campesina, Fevereiro 2008
FOOD CRISIS (Part Two): Capitalism, Agribusiness, and the Food Sovereignty Alternative” - Ian Angus in Socialist Voice, Maio 2008
Food Aid or Food Sovereignty? Ending World Hunger in Our Time” - Frederic Mousseau, Oakland Institute, 2005
Mere sticking plasters” - Kevin Watkins, The Guardian, 2 Junho 2008