quarta-feira, 14 de maio de 2008

Um sentimento de pertença – cidade encontra campo

No Domingo passado, a meio da Primavera, provou-se de que não é só de couves portuguesas que é feita uma horta urbana em Lisboa.

O dia comunitário na horta popular da Graça começou já na semana antes, com um percurso a pé pelos bairros da Graça, Mouraria e Alfama, para afixar cartazes alegres nos cafés e lojas, e sempre que possível divulgar pessoalmente a iniciativa a moradores curiosos. Outros tantos voluntários recolheram madeiras usadas de todo o tipo, tintas, pregos, ferramentas, cercas e ainda corda para baloiços.

Sábado abriu-se oficialmente a oficina de construção de mobiliário urbano reciclado, uma iniciativa que se pretende prolongar no tempo. Paralelamente arrancaram os trabalhos de criar caminhos pela horta, delinear as zonas de cultivo, identificar as cerca de 35 variedades de plantas com plaquinhas de madeira, desimpedir as entradas e limpar (mais uma vez) estes 1000 m2 de terreno que sofreram anos de maus-tratos. No próprio dia da festa a azáfama começou logo pela manhã, com uma excelente adesão para concluir os trabalhos de embelezamento do terreno e de preparação da festa a tempo de receber os participantes para as tertúlias da tarde. Às 15 horas duas mesas, vários bancos, dois baloiços e uma escadaria fantástica escavada na terra e reforçada com madeira a descer pela horta tinham metamorfoseado o local num pedaço de campo autêntico onde só faltava correr uma ribeira. Junto dos caminhos novos, entusiastas plantaram rebentos de oliveiras, amendoeiras e pessegueiros.



Apesar do tempo instável criou-se um espaço agradável por baixo dos pinheiros onde o Arq. Gonçalo Ribeiro Telles, a Raquel Sousa (Eng. Agrónoma, Ambiência), o Fernando Pires (horticultor e sócio-produtor da Biocoop) e a Raquel Leitão (Gaia, Grupo da horta da Graça) partilharam os seus conhecimentos e experiência sobre hortas urbanas com moradores e interessados. Conversou-se sobre as raízes rurais de Lisboa, os corredores verdes - que estão numa fase crucial de formalização e incluirão hortas -, a componente biológica das hortas urbanas, exemplos de cidades lá fora que já tiram 30% do seu consumo de frescos das suas hortas, a vertente social, comunitária e pedagógica, a necessidade de criar massa crítica envolvendo os moradores e os aspectos técnicos a ter em conta na manutenção de uma horta. Os momentos expositivos intercalados com momentos de perguntas e debate, deram espaço a vários moradores para exporem as suas sugestões de melhoria da horta popular da Graça. Estes assinalaram a importância da estética (uma horta bonita atrai um leque mais variado de moradores), a ênfase compulsória no contacto pessoal com todos os potenciais interessados (indivíduos, colectivos, escolas, junta,..) e a necessidade de prever questões logísticas e políticas que inevitavelmente surgem quando a horta cresce (a mais premente sendo o destino do terreno, pois mantém-se a ameaça do silo de automóveis).

Ainda houve tempo para ensaiar a adesão ao projecto Banco Comum de Conhecimentos, que pretende em breve montar um mercado de troca de conhecimentos no Centro Social da Mouraria. O espírito solidário devia ser contagiante pois houve uma chuvada de ofertas de conhecimentos desde como fazer seitan e tricô, passando por dicas de informática e como cuidar de hortas e jardins até como construir projectos de intervenção social e praticar arquitectura bioclimática. Para quem pretende aprender o body-piercing, este ofício também não faltou ☺.

O sol resolveu brindar os hortelões e seus convidados com a sua presença na conclusão das tertúlias, dando o mote para os pontos de programa mais lúdicos: a instalação ‘mundo perfeito’ pintada pelo público (o público menor de idade ficou mais pintado do que pintou..), a música ao relento, a limonada e a sangria.

Sentados na relva no ponto alto do terreno inclinado, de costas para os três pinheiros plantados pouco depois do 25 de Abril pelo então presidente da Junta (informação recolhida nas tertúlias), os resistentes dos cerca de 100 visitantes viram o sol desaparecer por trás dos prédios da cidade, enquanto de um cantinho remoto do terreno subia o som da orquestra de caixas, pedras e paus improvisada pelas crianças. E depois destes dias longos de trabalhar com as mãos e o coração, de subir e descer os caminhos de terra vezes sem fim, de pisar relva em vez de pavimento e de nos abrigarmos por baixo de árvores em lugar de tectos, ter uma horta a 10 passos do passeio e a 200 passos de casa, parece perfeitamente natural. Parece um direito.

Notícia no Diário de Notícias
Notícia no Jornal da Região de Lisboa
Blog da Horta popular

Sem comentários: