quarta-feira, 28 de maio de 2008

Um dia por Lisboa


Só posso apoiar qualquer iniciativa ou mesmo sinal da crescente tomada de consciência cívica colectiva, que até há bem pouco tempo era praticamente inexistente em Portugal, por isso em primeiro lugar quero louvar a organização do debate ontem no Teatro São Luiz, em torno da habitação em Lisboa.

Também, antes de chegar à parte da opinião da praxe própria de um blog unipessoal, faço o exercício de humildade, dando graças ao clima favorável à participação pública que nos permite hoje darmos a nossa intervenção como cidadãos em qualquer debate como direito adquirido e que aguça a nossa exigência quanto à qualidade das respostas que nos são dadas.

Dito isto ;-) e legitimando a minha exigência face à evidência da estagnação na revitalização da capital, considero que a plateia no debate, tanto do lado do painel, como do lado da audiência, foi perigosamente homogénea. É o problema da maioria das conferências e debates (e posso dizer por experiência própria que há muitos, quem tenha tempo pode assistir a um por dia): acabam por juntar pessoas que genericamente ou já estão de acordo ou sentem-se inibidas de falar por se conhecerem tão bem (o que é natural num país com uma elite pequena). Este pacto silencioso de não nos chatearmos demasiado uns aos outros mantém-nos num déjá-vu perpétuo das análises de causa e efeito e estrangula por completo a acção mas sobretudo a criatividade.

Mais uma vez, pode ser que eu tenha ficado blasé e por isso resistente à repetição dos conceitos loteamento, estudos, planeamento, reabilitação (esta palavra até já dá alergia), bairros históricos, estacionamento, transportes públicos, etc. Mas é que inevitavelmente o resto da frase que inclui uma destas palavras vai qualquer coisa assim: 'Deveríamos ter mais..' 'Podíamos ter menos..' O que eu gostava de ver em vez da regurgitação dos problemas são casos concretos, alguém ter pegado num bairro e começado a restabelecer o equilíbrio do organismo que é a nossa cidade (por acaso até há um exemplo bom da zona do Alto de Santo Amaro). De preferência alguém ou uma associação de 'alguéns' do terceiro sector, dado que o primeiro e segundo já provaram não ter juízo para gerir a cidade.

A elite de Lisboa está presa no paradigma neoliberal, numa profecia auto realizada, com, é verdade, uma crescente vontade e abertura para a acção, mas ao mesmo tempo uma paralisia de ideias que se vão repetindo com nuances meramente estéticas e contornos inevitavelmente economicistas. Numa semana é uma torre de 100 andares, noutra acaba-se com os eléctricos (imagina, empatam os carros), depois um dia alguém se lembra de um casino no Parque Mayer que vira casino na Expo porque ‘coitadinho do Stanley Ho, já lhe tínhamos prometido’, já tivemos a epifania da ponte da Baixa para o Castelo, recentemente ouvimos um ‘bora experimentar enterrar uma nova linha de comboio e matar Santa Apolónia, fala-se em tirar hospital, pôr hospital, arrasam-se hortas urbanas para acabar a CRIL antes que a Comissão Europeia a trave para poucas semanas depois anunciar um ‘parque’ de hortas urbanas e nasce uma terceira ponte que vai colar porque alguém teve a brilhante ideia de concentrar o debate numa quarta ponte, transformando a terceira em inevitabilidade. São tantas as diarrideias que uma ou outra vai escapando ao escrutínio público e cai sob o controlo do cartel imobiliário.

O que continua a faltar por completo é uma visão holística que insere o munícipe no seu bairro, o bairro na cidade, a cidade na região e no país e por fim no mundo. Uma visão que incorpora todos os membros e órgãos do organismo cidade. E não falo só dos habitantes nem tão só das suas casas e das estradas que as ligam. Falo da água que humedece e arrefece a cidade, das árvores que dão sombra, do solo não betonado que ajuda a trazer uma vida não-mecânica à metrópole. Falo de mercados, de percursos pedonais que ligam as sete colinas, de avenidas e praças animadas, de ruas sem carros onde as crianças podem brincar, de ter umas lojas ao pé de casa, de residências de estudantes polvilhadas pelo centro, de uma zona ribeirinha que não é um silo de automóveis ao ar livre com uma oferta de lazer escassa, cara e de má qualidade. Uma cidade que não se pode saborear nas ruas, a pé, cumprimentando o vizinho, não merece o nome (que deriva de ‘civitas’ ou cidadania).

Estamos há anos a planear e replanear Lisboa e a preparar propostas-lei, enquanto se continua a desbaratar impunemente o espaço público. Ainda não vejo fim à vista tão cedo.

Propunha por isso uma solução mais radical: congelem tudo. Não vendam mais terrenos da câmara, não emitam mais licenças de construção, não autorizem mais um supermercado que seja. E entreguem a gestão aos munícipes. Criem comissões de moradores apoiados pelos excessivos técnicos que existem na câmara, universitários e investigadores (de preferência estudantes e doutorandos e não professores catedráticos) e representantes de todo o tipo de associações cívicas e organismos não governamentais. Pequenas e médias empresas que operem num bairro podem enviar representantes também. Grandes empresas estão excluídas e os partidos não entram, para garantir que o cartel imobiliário não puxe nenhuma corda. Liguem estas comissões umas às outras numa comissão regional onde estão representados também os agricultores e agrónomos. Dêem-lhes poder para agir. Tenho um palpite que as soluções vos surpreenderão, pela sua criatividade, pela rapidez e pelo seu baixo custo.

A única maneira de quebrar o empate intelectual e o círculo vicioso em que se encontram as pessoas que ‘pensam’ Lisboa, agravado pela promiscuidade entre poder político e poder económico, é de dar a palavra a quem usa realmente o transporte público, a quem precisa da loja da esquina, a quem gostava de andar de bicicleta no centro, a quem tem o prédio a ruir à sua volta, a quem mais do que viver na cidade, vive a cidade.

1 comentário:

lanka4earth disse...

(comentário chegado via email)

La Baixa » une leçon à prendre

Je suis bien contente que tu ais parlé de la nécessité de décentraliser le pouvoir, et même de le rendre aux usagers à ceux qui vivent la ville et dans la ville. J’ajouterai que la vie de quartier est basée sur le déplacement piétonnier. Seulement à cette échelle, celle du piéton, la ville reprend son sens de Civitas... La rue doit avoir des yeux, disait Jane Jacob, des yeux pour voir pour surveiller et pour vivre toutes sensations et textures que cette figure urbaine et bien urbaine, nous offre. Loin d'être un seul tracé d'ingénieur supportant les infrastructures nécessaires à l'hygiène et au confort de l'habitant, la rue est l'expression culturelle urbaine par excellence; l'espace de tous, entre frontières d'espaces privés.

La question de la responsabilité de la limite, qui en occurrence est formée par la façade, doit se discuter. Lieu de rencontre entre deux mondes, le civique et le privé, mais aussi lieu d'extension de la vie privée, familiale. La rue ne peut être que du ressort exclusif des planificateurs, elle doit garder une certaine organicité social et culturelle.

MIXCITÉ, j'ai inventé ce mot qui me semble illustrer de manière concise l'idée principale d'une organisation équilibrée de la ville. La rue urbaine, et c’est un pléonasme, doit être multiple, dans ses activités, dans son voisinage, ce que Lisbonne offrait jusqu'aujourd'hui et ce que les courants du New urbanism et du Traditional Urbanism se battent à créer au milieu d'un tissus sub-urbain désincarné des grandes extensions urbaines et péri-urbaines américaines! Lisbonne est à la recherche de sa modernité! D’une modernité à laquelle elle n’aurait pas eu droit? Des accès en forme de spaghetti qui sont supposés vous propulser en un rien de temps hors de la ville, qui dans la tête de nos amis les ingénieurs des routes, est étouffante, ( le tunnel du Marques en est le dernier exemple ); la Lisbonne des quartiers spécialisés, le quartiers des affaires, le quartiers des bars, le quartiers des ambassades, le quartiers des restaurants typiques avec du fado pour les nostalgiques et les touristes, le quartier malfamé et non pas l'Alfama...et pourquoi pas le quartier de la grande modernité, l’histoire de montrer qu’on est capable de faire aussi bien que Barcelonne…Heureusement qu’il y a ceux qui y habitent…pour donner un peu d’humanité!

Je demande quand les décideurs de Lisbonne comprendront qu'ils font de l'urbanisme par zone, de la même manière que dans les années 60!

Ah! On critique la Baixa, on dit qu’elle a toujours été détestée, et son plan géométrique qui s'est imposé sur le tracé organique original…et l’impétuosité d’une vision arrogante, d'un pouvoir...

Je propose que les urbanistes révisent avec un nouvel oeil cette Baixa. Et l'analyser sous l'angle d'aujourd'hui, de ce qu'elle est devenue 250 ans plus tard; de sa trame rigide, de ses typologies extrêmement bien construites et flexibles, la regarder même sous son couvert dépressif... Savoir lire les interstices entre les institutions, surtout, ne pas la muséifier... (loin de là, l'UNESCO svp.). Une structure urbaine intelligente qui a le potentiel de répondre aux besoins d’aujourd’hui, qui s'est laissée appropriée au long du temps, qui est presque devenue un lieu de MIXCITÉ. Il y aurait, dans la Baixa quelques leçons à prendre pour une attitude urbaine à repenser...

Béatrice Hajjar Lemaitre

Une citoyenne de Lisbonne et designer urbain.