sábado, 24 de maio de 2008

Not my kind of saint – The world according to Monsanto

Gostava de dar a palavra a Marie-Monique Robin que num documentário recente desmonta corajosamente o embuste engenhoso e criminoso de uma das maiores empresas do mundo, a Monsanto. É muito provável que nunca mais venha a fazer um documentário subsidiado.. meteu-se com um gigante mais poderoso do que muitos estados.

A Monsanto é americana, tem mais de 100 anos, começou como fabricante de químicos e é actualmente líder em biotecnologia, controlando 70% das vendas mundiais de herbicidas e, incrivelmente, 90% dos principais organismos geneticamente modificados (o que deveria ser argumento suficiente para travar por completo a incursão dos OGM na Europa). Adicionalmente inventou o esquema brilhante e genocida de patentear sementes, estando assim muito bem posicionada para controlar toda a cadeia alimentar no mundo. Colecciona royalties de inúmeros países sobre toda a sua produção de cereais (mesmo que esta produção tenha resultado de uma contaminação transgénica e não de uma plantação propositada de transgénicos), obriga milhões de agricultores a contratos de compra anual de sementes a 4 vezes o preço de sementes tradicionais e quem tenha a ousadia de guardar uma semente que seja é impiedosamente perseguido pela ‘polícia de genes’.

Chocados? Há mais! Estamos a falar de quem inventou produtos tão letais e actualmente proibidos como Agent Orange (recordam-se do Vietname?), DDT’s e PCB’s (que continuam, 30 anos depois, a persistir em toda a nossa cadeia alimentar, aparecendo até no sangue dos ursos polares) e ainda a hormona de crescimento bovino (todavia usada fora da Europa e certamente presente em lacticínios e carne que compramos cá). Todos estes produtos provocam comprovadamente cancros fulminantes, doenças do foro imunológico, alterações hormonais e defeitos de nascimento. Só foram retirados do mercado quando o número de mortes começou a ser difícil de bagatelizar, deixando no entanto a Monsanto intacta e impune. A prova é que o seu produto bandeira, Round Up, continua a ser vendido, apesar dos seus contornos de serial killer: mata qualquer planta em minutos. Daí a brilhante ideia de desenvolver uma planta de soja geneticamente modificada para resistir aos efeitos do Round Up. A terra fica um mimo de limpeza, só mesmo soja encharcada de químicos a abanar ao vento. Nada de borboletas irritantes a voar pelo campo e mesmo os pássaros já perceberam que aquilo não é para comer. Ou é? Praticamente todo o gado no mundo inteiro come cereais geneticamente modificados..

O que o documentário nos ensina sobretudo, para além de dezenas de factos orwellianos, é que o modelo da Monsanto é incompatível com a própria vida, não obstante o seu lema eminentemente cínico ‘food, health, hope’. E que este modelo tem o apoio dos EUA e organismos aliados como o IMF, Worldbank, WTO e até a Agência Europeia para o Ambiente, que fecham os olhos a estudos claramente manipulados e sinais de crise nos países cuja agricultura já foi subjugada pela Monsanto, como a Índia (onde milhares de agricultores já se suicidaram, optando dramaticamente pela ingestão de um herbicida - o Round Up? -, incapazes de suportar o custo combinado das sementes transgénicas e químicos para controlo de pestes) e a maioria dos países da América do Sul. A estratégia é dantesca: a Monsanto sabe que é uma questão de tempo até todas as culturas estarem contaminadas com o pólen dos transgénicos, como já aconteceu nos EUA, o que constituiria um ‘fait accompli’, levando à resignação dos governos resistentes. Depois é só provar que as sementes e culturas contêm genes patenteados pela Monsanto e voilá, o mundo inteiro aos seus pés a pagar royalties. Que eles próprios e os seus descendentes correm riscos elevados de cancros fulminantes e outras mutações celulares num mundo transgénico, ainda não os parece preocupar tanto como a maximização do seu lucro.

Não é então por precisarem de um hobby que há cada vez mais grupos de cidadãos a criarem bancos de sementes ancestrais. É porque sabem que estão prestes a desaparecer para sempre apesar de ninguém se preocupar em colocá-las na Red List das espécies em vias de extinção.

Há outra via disponível. A agricultura biológica podia alimentar o mundo e ainda salvá-lo dos efeitos das alterações climáticas. É um tópico pouco estudado porque mexeria com os mercados poderosos de petróleo, químicos e da produção e distribuição alimentar, todos nas mãos de uns muito poucos muito bem colocados e muito amigos uns dos outros (reparem na estratégia do revolving door exposta no doc). Mas quando é estudado (Can Organic Farming Feed Us All?), tudo indica que só por esta via é que preservaríamos a biodiversidade do planeta, as nossas comunidades, o sustento da maioria em oposição a uma minoria obesa, a nossa saúde e que recuperávamos a nossa actualmente inexistente soberania alimentar. Não fiquem indiferentes.

The World According to Monsanto

mais sobre transgénicos:
Genetically Modified Foods - Panacea or Poison

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