domingo, 25 de maio de 2008

Agronegócio: para onde vão as calorias?


Apenas cinco empresas controlam o mercado mundial de sementes, Monsanto incluída.
Quatro empresas dominam o mercado global de fertilizantes.
Quatro empresas processam toda a soja no mundo.
Três produzem toda a farinha.
E os três maiores comerciantes de cereais controlam efectivamente o milho mundial.
Nenhuma destas empresas é conhecida do público. São muito discretas (o termo menos eufemista seria secretas). Os interesses que as movem opõem-nas numa batalha desigual aos 1,3 bilhões de pequenos agricultores. 

Enquanto neste momento perto de um bilhão de pessoas (o que inclui muitos destes pequenos agricultores) passa fome, os lucros dos gigantes do agronegócio dispararam com a actual crise alimentar. Monsanto, BASF, Bayer, Syngenta, Dupont, Potash e Mosaic no sector químico e agroquímico (com aumentos de em média 90% nos lucros, segundo algumas fontes há empresas com 200 a 1200% de aumento!). Cargill, Archer Daniels Midland e Bunge no comércio de cereais (idem). E inevitavelmente conhecidos do público, Tesco, Carrefour e Walmart (o gigante absoluto) no retalho alimentar. Nestlé e Unilever, praticamente monopolistas para uma série de produtos alimentares processados, também apostam com sucesso na bolsa de cereais.

À boleia do IMF e do World Bank, os monstros agroquímicos e comerciantes de cereais (que normalmente controlam toda a cadeia: tanto compram como vendem cereais, dominando as bolsas de 'commodities', e adicionalmente fornecem os químicos e sementes necessários para a produção agrícola agressiva), instalaram-se nos países em desenvolvimento. 

Funciona assim: a troco de empréstimos, o IMF e o World Bank forçam estes países a abrir as suas fronteiras para produtos em regra americanos e em regra subsidiados, transformando 70% dos países em desenvolvimento em importadores de comida (quando muitos eram auto-suficientes). Esta imposta liberalização do comércio facilita o controlo por investidores dos recursos destes países, plantando monoculturas que são exportadas. O 'coup de grace' são as sementes geneticamente modificadas cujas patentes eliminam não só os pequenos agricultores como as variedades locais em dois tempos. 
Ah, ia esquecer-me das Fundações pretensamente samaritanas como Gates e Rockefeller, que 'investem' no que elas chamam a Revolução Verde para África exclusivamente com produtos biotecnológicos americanos que favorecem as tais monoculturas nas mãos de uns 'happy few'. Assim se completa o círculo: os três sectores (instituições de governo, empresas e os not-for-profit), de mãos dadas para controlar a cadeia alimentar global. Disse o Kissinger: 'Who controls food, controls the people'. É um esquema engenhoso, maquiavélico e com décadas que até à data não foi possível desmontar na opinião pública.

Estes esquemas maquiavélicos vivem do controlo do povo, dependendo sobretudo do contentamento da classe média. Porém agora a classe média começa a estar seriamente afectada pelos efeitos de décadas de políticas perversas de produção e distribuição alimentares. As consequências do seu desalento são por enquanto imprevisíveis.

Podíamos antecipar o futuro de modo a que ele seja menos dramático, agindo agora. Reconquistando a nossa soberania alimentar. Todos. Por todo o mundo. Por via de cooperativas, de hortas urbanas, de escolha selectiva na compra de produtos e pela pressão nos governos locais, nacionais e internacionais para acabar com os oligopólios no agronegócio e com a flagrante especulação financeira em torno de um bem essencial à vida, a comida.

Abaixo segue o que provavelmente é o único artigo entre centenas que lista os verdadeiros mecanismos por detrás da crise corrente. A maioria dos analistas, mesmo quando são críticos do agronegócio, assinala uns factores, esquecendo outros, e ninguém atribui o peso certo a cada factor, o que só ilustra quanta areia nos é atirada aos olhos.


Nota: 26 de Maio - há mais: vai aki o artigo de Ian Angus no Socialist Voice, traduzido para português. Extremamente completo e com todas as referências :-). in Investigando o Novo Imperialismo
Nota2: Há quem aproveite a crise para promover, sem dó e sem notas de rodapé, os OGM. Faz lembrar a tentativa do Patrick Monteiro de Barros. Aki in Diário de Notícias.
Nota3: 27 de Maio - um debate da BBC World muito interessante sobre a crise alimentar que junta à mesa um agrogigante, políticos, cientistas, o World Bank e o representante de 1,8 milhões de pequenos agricultores.

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