quarta-feira, 28 de maio de 2008

this blogger went offline.


Um dia por Lisboa


Só posso apoiar qualquer iniciativa ou mesmo sinal da crescente tomada de consciência cívica colectiva, que até há bem pouco tempo era praticamente inexistente em Portugal, por isso em primeiro lugar quero louvar a organização do debate ontem no Teatro São Luiz, em torno da habitação em Lisboa.

Também, antes de chegar à parte da opinião da praxe própria de um blog unipessoal, faço o exercício de humildade, dando graças ao clima favorável à participação pública que nos permite hoje darmos a nossa intervenção como cidadãos em qualquer debate como direito adquirido e que aguça a nossa exigência quanto à qualidade das respostas que nos são dadas.

Dito isto ;-) e legitimando a minha exigência face à evidência da estagnação na revitalização da capital, considero que a plateia no debate, tanto do lado do painel, como do lado da audiência, foi perigosamente homogénea. É o problema da maioria das conferências e debates (e posso dizer por experiência própria que há muitos, quem tenha tempo pode assistir a um por dia): acabam por juntar pessoas que genericamente ou já estão de acordo ou sentem-se inibidas de falar por se conhecerem tão bem (o que é natural num país com uma elite pequena). Este pacto silencioso de não nos chatearmos demasiado uns aos outros mantém-nos num déjá-vu perpétuo das análises de causa e efeito e estrangula por completo a acção mas sobretudo a criatividade.

Mais uma vez, pode ser que eu tenha ficado blasé e por isso resistente à repetição dos conceitos loteamento, estudos, planeamento, reabilitação (esta palavra até já dá alergia), bairros históricos, estacionamento, transportes públicos, etc. Mas é que inevitavelmente o resto da frase que inclui uma destas palavras vai qualquer coisa assim: 'Deveríamos ter mais..' 'Podíamos ter menos..' O que eu gostava de ver em vez da regurgitação dos problemas são casos concretos, alguém ter pegado num bairro e começado a restabelecer o equilíbrio do organismo que é a nossa cidade (por acaso até há um exemplo bom da zona do Alto de Santo Amaro). De preferência alguém ou uma associação de 'alguéns' do terceiro sector, dado que o primeiro e segundo já provaram não ter juízo para gerir a cidade.

A elite de Lisboa está presa no paradigma neoliberal, numa profecia auto realizada, com, é verdade, uma crescente vontade e abertura para a acção, mas ao mesmo tempo uma paralisia de ideias que se vão repetindo com nuances meramente estéticas e contornos inevitavelmente economicistas. Numa semana é uma torre de 100 andares, noutra acaba-se com os eléctricos (imagina, empatam os carros), depois um dia alguém se lembra de um casino no Parque Mayer que vira casino na Expo porque ‘coitadinho do Stanley Ho, já lhe tínhamos prometido’, já tivemos a epifania da ponte da Baixa para o Castelo, recentemente ouvimos um ‘bora experimentar enterrar uma nova linha de comboio e matar Santa Apolónia, fala-se em tirar hospital, pôr hospital, arrasam-se hortas urbanas para acabar a CRIL antes que a Comissão Europeia a trave para poucas semanas depois anunciar um ‘parque’ de hortas urbanas e nasce uma terceira ponte que vai colar porque alguém teve a brilhante ideia de concentrar o debate numa quarta ponte, transformando a terceira em inevitabilidade. São tantas as diarrideias que uma ou outra vai escapando ao escrutínio público e cai sob o controlo do cartel imobiliário.

O que continua a faltar por completo é uma visão holística que insere o munícipe no seu bairro, o bairro na cidade, a cidade na região e no país e por fim no mundo. Uma visão que incorpora todos os membros e órgãos do organismo cidade. E não falo só dos habitantes nem tão só das suas casas e das estradas que as ligam. Falo da água que humedece e arrefece a cidade, das árvores que dão sombra, do solo não betonado que ajuda a trazer uma vida não-mecânica à metrópole. Falo de mercados, de percursos pedonais que ligam as sete colinas, de avenidas e praças animadas, de ruas sem carros onde as crianças podem brincar, de ter umas lojas ao pé de casa, de residências de estudantes polvilhadas pelo centro, de uma zona ribeirinha que não é um silo de automóveis ao ar livre com uma oferta de lazer escassa, cara e de má qualidade. Uma cidade que não se pode saborear nas ruas, a pé, cumprimentando o vizinho, não merece o nome (que deriva de ‘civitas’ ou cidadania).

Estamos há anos a planear e replanear Lisboa e a preparar propostas-lei, enquanto se continua a desbaratar impunemente o espaço público. Ainda não vejo fim à vista tão cedo.

Propunha por isso uma solução mais radical: congelem tudo. Não vendam mais terrenos da câmara, não emitam mais licenças de construção, não autorizem mais um supermercado que seja. E entreguem a gestão aos munícipes. Criem comissões de moradores apoiados pelos excessivos técnicos que existem na câmara, universitários e investigadores (de preferência estudantes e doutorandos e não professores catedráticos) e representantes de todo o tipo de associações cívicas e organismos não governamentais. Pequenas e médias empresas que operem num bairro podem enviar representantes também. Grandes empresas estão excluídas e os partidos não entram, para garantir que o cartel imobiliário não puxe nenhuma corda. Liguem estas comissões umas às outras numa comissão regional onde estão representados também os agricultores e agrónomos. Dêem-lhes poder para agir. Tenho um palpite que as soluções vos surpreenderão, pela sua criatividade, pela rapidez e pelo seu baixo custo.

A única maneira de quebrar o empate intelectual e o círculo vicioso em que se encontram as pessoas que ‘pensam’ Lisboa, agravado pela promiscuidade entre poder político e poder económico, é de dar a palavra a quem usa realmente o transporte público, a quem precisa da loja da esquina, a quem gostava de andar de bicicleta no centro, a quem tem o prédio a ruir à sua volta, a quem mais do que viver na cidade, vive a cidade.

Resultado do apelo dos Ambientalistas da Amadora: 9.000 árvores por 9.000 carros

(mail chegado hoje para todos os que colaboraram no apelo)

date 27 May 2008 14:58
subject Re: 9.000 razões para não usar o transporte público

Olá,

Obrigado por teres dedicado algum do teu tempo a escreveres aos responsáveis do Dolce Vita Tejo.

Gostaríamos de te informar que após dezenas de e-mails e duas notícias publicadas na RTP e no SOL, conseguimos ter uma reunião com o Director de Recursos Humanos e Desenvolvimento da Chamartín Imobiliária e dois consultores ambientais do projecto.

A reunião foi muito construtiva e esclarecedora. Foi notório o empenho e determinação para que o projecto possa minimizar e compensar os danos ambientais causados. Quanto às 9000 árvores, foi-nos dito que está a ser feito um estudo sobre o assunto e existe abertura para plantar o dobro ou mais se o estudo assim indicar. Não pretendem ficar apenas pelo simbólico de 1 árvore por lugar de estacionamento. Insistimos numa solução local, isto é, a plantação das árvores o mais perto possível do centro comercial. E de preferência árvores de fruto. Os parqueamentos para bicicleta estão já assegurados. Outras sugestões que fizemos: criação de ciclovias que liguem o centro comercial às localidades próximas, percursos pedestres com o mesmo objectivo, acessibilidade por transportes públicos, uma horta pedagógica no interior ou exterior do centro para fins de educação ambiental. Foi-nos dito que o centro terá painéis solares e aproveitamento das águas da chuva para rega.

Mais uma vez agradecemos o teu empenho e dedicação. Daremos mais novidades assim que as mesmas surgirem.

Ambientalistas da Amadora

----
to geral@dolcevita.pt
cc ambientalistas_da_amadora@aeiou.pt
date 21 May 2008 17:51
subject 9.000 razões para não usar o transporte público


Exmos. Senhores,

Tomei conhecimento do vosso projecto imobiliário para a Amadora, onde estão prestes a implantar o maior centro comercial da Península Ibérica.

Entre todos os benefícios por vós assinalados, o facto de possuir 9.000 lugares de estacionamento, alimentados por enormes redes viárias, parece merecer particularmente o vosso orgulho.
Lamento esta ênfase no uso do veículo particular, cada vez mais dúbio face às evidências dos efeitos da poluição do ar, água e sonora, dos gases com efeito de estufa e do entupimento dramático da cidade.

Venho por isso sugerir que a Dolce Vita empreenda acções de mitigação, e em última instância de compensação, do impacto ambiental e social deste centro comercial (gasto de energia e água, poluição directa e indirecta, perda de zonas de convívio públicas, diminuição do tecido empresarial convencional e engarrafamento das redondezas), tal como já é prática comum em qualquer empresa de dimensão considerável:

- Garantia de facilidade e promoção do uso dos transportes públicos para o CC.
- Limitação do número de lugares de estacionamento em prol de espaços públicos mais solidários.
- Reserva de espaços de estacionamento para bicicletas.
- Criação de um percurso pendular de e para o CC, um 'Bus Dolce Vita'.
- Criação de espaços verdes com razoável biodiversidade dentro e em redor do CC. Relembro que é perfeitamente possível criar ambientes vivos 'indoors'.
- Compensação dos efeitos indirectos dos lugares de estacionamento com a plantação de árvores na Amadora.
- Promoção de iniciativas para o bem comum na Amadora: criação de emprego, apoio ao empreendorismo, promoção de comida saudável nos restaurantes do CC, incentivos à reciclagem, divulgação da arte e cultura locais, etc

Certa de que o pensamento 'sustentável' já chegou à Amorim, subscrevo-me,

atentamente

Lanka Horstink
Alfama, Lisboa

segunda-feira, 26 de maio de 2008

27 de Maio: Um dia por Lisboa no teatro São Luiz


Cada vez mais casas, Cada vez menos gente
Teatro São Luiz, 27 de Maio de 2008

(mais) uma sessão cívica
"UM DIA POR LISBOA – Fazer e Não Fazer"

A sessão de dia 27 de Maio será dividida em 3 painéis, entre as 18h e as 23h. em que vão participar diversas personalidades:

18h – 19.30h - O despovoamento da cidade de Lisboa e a dispersão metropolitana
19.30h – 20.30h - Construção vs. reabilitação
21h – 22h - Imobiliário e direitos adquiridos vs. interesse público
22h – 23h - Debate institucional

Vão estar presentes entre outros:
Augusto Mateus, Manuel Graça Dias, João Cleto (Movimento Porta 65 Fechada), Luís Campos e Cunha, Leonor Coutinho, Carlos Pimenta, Isabel Guerra

Debate final

João Ferrão, Secretaria de Estado do Ordenamento do Território e das Cidades
Manuel Salgado, Câmara Municipal de Lisboa
Fonseca Ferreira, CCDRLVT
Carlos Humberto, Junta Metropolitana de Lisboa (e presidente da Câmara Municipal do Barreiro)

Moderação: Luísa Schmidt e Nuno Artur Silva

Mais informações através do contacto telefónico: 213 864 554

domingo, 25 de maio de 2008

Agronegócio: para onde vão as calorias?


Apenas cinco empresas controlam o mercado mundial de sementes, Monsanto incluída.
Quatro empresas dominam o mercado global de fertilizantes.
Quatro empresas processam toda a soja no mundo.
Três produzem toda a farinha.
E os três maiores comerciantes de cereais controlam efectivamente o milho mundial.
Nenhuma destas empresas é conhecida do público. São muito discretas (o termo menos eufemista seria secretas). Os interesses que as movem opõem-nas numa batalha desigual aos 1,3 bilhões de pequenos agricultores. 

Enquanto neste momento perto de um bilhão de pessoas (o que inclui muitos destes pequenos agricultores) passa fome, os lucros dos gigantes do agronegócio dispararam com a actual crise alimentar. Monsanto, BASF, Bayer, Syngenta, Dupont, Potash e Mosaic no sector químico e agroquímico (com aumentos de em média 90% nos lucros, segundo algumas fontes há empresas com 200 a 1200% de aumento!). Cargill, Archer Daniels Midland e Bunge no comércio de cereais (idem). E inevitavelmente conhecidos do público, Tesco, Carrefour e Walmart (o gigante absoluto) no retalho alimentar. Nestlé e Unilever, praticamente monopolistas para uma série de produtos alimentares processados, também apostam com sucesso na bolsa de cereais.

À boleia do IMF e do World Bank, os monstros agroquímicos e comerciantes de cereais (que normalmente controlam toda a cadeia: tanto compram como vendem cereais, dominando as bolsas de 'commodities', e adicionalmente fornecem os químicos e sementes necessários para a produção agrícola agressiva), instalaram-se nos países em desenvolvimento. 

Funciona assim: a troco de empréstimos, o IMF e o World Bank forçam estes países a abrir as suas fronteiras para produtos em regra americanos e em regra subsidiados, transformando 70% dos países em desenvolvimento em importadores de comida (quando muitos eram auto-suficientes). Esta imposta liberalização do comércio facilita o controlo por investidores dos recursos destes países, plantando monoculturas que são exportadas. O 'coup de grace' são as sementes geneticamente modificadas cujas patentes eliminam não só os pequenos agricultores como as variedades locais em dois tempos. 
Ah, ia esquecer-me das Fundações pretensamente samaritanas como Gates e Rockefeller, que 'investem' no que elas chamam a Revolução Verde para África exclusivamente com produtos biotecnológicos americanos que favorecem as tais monoculturas nas mãos de uns 'happy few'. Assim se completa o círculo: os três sectores (instituições de governo, empresas e os not-for-profit), de mãos dadas para controlar a cadeia alimentar global. Disse o Kissinger: 'Who controls food, controls the people'. É um esquema engenhoso, maquiavélico e com décadas que até à data não foi possível desmontar na opinião pública.

Estes esquemas maquiavélicos vivem do controlo do povo, dependendo sobretudo do contentamento da classe média. Porém agora a classe média começa a estar seriamente afectada pelos efeitos de décadas de políticas perversas de produção e distribuição alimentares. As consequências do seu desalento são por enquanto imprevisíveis.

Podíamos antecipar o futuro de modo a que ele seja menos dramático, agindo agora. Reconquistando a nossa soberania alimentar. Todos. Por todo o mundo. Por via de cooperativas, de hortas urbanas, de escolha selectiva na compra de produtos e pela pressão nos governos locais, nacionais e internacionais para acabar com os oligopólios no agronegócio e com a flagrante especulação financeira em torno de um bem essencial à vida, a comida.

Abaixo segue o que provavelmente é o único artigo entre centenas que lista os verdadeiros mecanismos por detrás da crise corrente. A maioria dos analistas, mesmo quando são críticos do agronegócio, assinala uns factores, esquecendo outros, e ninguém atribui o peso certo a cada factor, o que só ilustra quanta areia nos é atirada aos olhos.


Nota: 26 de Maio - há mais: vai aki o artigo de Ian Angus no Socialist Voice, traduzido para português. Extremamente completo e com todas as referências :-). in Investigando o Novo Imperialismo
Nota2: Há quem aproveite a crise para promover, sem dó e sem notas de rodapé, os OGM. Faz lembrar a tentativa do Patrick Monteiro de Barros. Aki in Diário de Notícias.
Nota3: 27 de Maio - um debate da BBC World muito interessante sobre a crise alimentar que junta à mesa um agrogigante, políticos, cientistas, o World Bank e o representante de 1,8 milhões de pequenos agricultores.

sábado, 24 de maio de 2008

Not my kind of saint – The world according to Monsanto

Gostava de dar a palavra a Marie-Monique Robin que num documentário recente desmonta corajosamente o embuste engenhoso e criminoso de uma das maiores empresas do mundo, a Monsanto. É muito provável que nunca mais venha a fazer um documentário subsidiado.. meteu-se com um gigante mais poderoso do que muitos estados.

A Monsanto é americana, tem mais de 100 anos, começou como fabricante de químicos e é actualmente líder em biotecnologia, controlando 70% das vendas mundiais de herbicidas e, incrivelmente, 90% dos principais organismos geneticamente modificados (o que deveria ser argumento suficiente para travar por completo a incursão dos OGM na Europa). Adicionalmente inventou o esquema brilhante e genocida de patentear sementes, estando assim muito bem posicionada para controlar toda a cadeia alimentar no mundo. Colecciona royalties de inúmeros países sobre toda a sua produção de cereais (mesmo que esta produção tenha resultado de uma contaminação transgénica e não de uma plantação propositada de transgénicos), obriga milhões de agricultores a contratos de compra anual de sementes a 4 vezes o preço de sementes tradicionais e quem tenha a ousadia de guardar uma semente que seja é impiedosamente perseguido pela ‘polícia de genes’.

Chocados? Há mais! Estamos a falar de quem inventou produtos tão letais e actualmente proibidos como Agent Orange (recordam-se do Vietname?), DDT’s e PCB’s (que continuam, 30 anos depois, a persistir em toda a nossa cadeia alimentar, aparecendo até no sangue dos ursos polares) e ainda a hormona de crescimento bovino (todavia usada fora da Europa e certamente presente em lacticínios e carne que compramos cá). Todos estes produtos provocam comprovadamente cancros fulminantes, doenças do foro imunológico, alterações hormonais e defeitos de nascimento. Só foram retirados do mercado quando o número de mortes começou a ser difícil de bagatelizar, deixando no entanto a Monsanto intacta e impune. A prova é que o seu produto bandeira, Round Up, continua a ser vendido, apesar dos seus contornos de serial killer: mata qualquer planta em minutos. Daí a brilhante ideia de desenvolver uma planta de soja geneticamente modificada para resistir aos efeitos do Round Up. A terra fica um mimo de limpeza, só mesmo soja encharcada de químicos a abanar ao vento. Nada de borboletas irritantes a voar pelo campo e mesmo os pássaros já perceberam que aquilo não é para comer. Ou é? Praticamente todo o gado no mundo inteiro come cereais geneticamente modificados..

O que o documentário nos ensina sobretudo, para além de dezenas de factos orwellianos, é que o modelo da Monsanto é incompatível com a própria vida, não obstante o seu lema eminentemente cínico ‘food, health, hope’. E que este modelo tem o apoio dos EUA e organismos aliados como o IMF, Worldbank, WTO e até a Agência Europeia para o Ambiente, que fecham os olhos a estudos claramente manipulados e sinais de crise nos países cuja agricultura já foi subjugada pela Monsanto, como a Índia (onde milhares de agricultores já se suicidaram, optando dramaticamente pela ingestão de um herbicida - o Round Up? -, incapazes de suportar o custo combinado das sementes transgénicas e químicos para controlo de pestes) e a maioria dos países da América do Sul. A estratégia é dantesca: a Monsanto sabe que é uma questão de tempo até todas as culturas estarem contaminadas com o pólen dos transgénicos, como já aconteceu nos EUA, o que constituiria um ‘fait accompli’, levando à resignação dos governos resistentes. Depois é só provar que as sementes e culturas contêm genes patenteados pela Monsanto e voilá, o mundo inteiro aos seus pés a pagar royalties. Que eles próprios e os seus descendentes correm riscos elevados de cancros fulminantes e outras mutações celulares num mundo transgénico, ainda não os parece preocupar tanto como a maximização do seu lucro.

Não é então por precisarem de um hobby que há cada vez mais grupos de cidadãos a criarem bancos de sementes ancestrais. É porque sabem que estão prestes a desaparecer para sempre apesar de ninguém se preocupar em colocá-las na Red List das espécies em vias de extinção.

Há outra via disponível. A agricultura biológica podia alimentar o mundo e ainda salvá-lo dos efeitos das alterações climáticas. É um tópico pouco estudado porque mexeria com os mercados poderosos de petróleo, químicos e da produção e distribuição alimentar, todos nas mãos de uns muito poucos muito bem colocados e muito amigos uns dos outros (reparem na estratégia do revolving door exposta no doc). Mas quando é estudado (Can Organic Farming Feed Us All?), tudo indica que só por esta via é que preservaríamos a biodiversidade do planeta, as nossas comunidades, o sustento da maioria em oposição a uma minoria obesa, a nossa saúde e que recuperávamos a nossa actualmente inexistente soberania alimentar. Não fiquem indiferentes.

The World According to Monsanto

mais sobre transgénicos:
Genetically Modified Foods - Panacea or Poison

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Apelo: 9.000 árvores por 9.000 carros

(Apelo que me chegou por email)

(Eu consegui durante 5 meses não pôr os pés numa catedral de consumo. É bastante fácil evitar fazer a vida lá, apesar de tudo :-) Fui lá ontem, mas por uma boa causa, colocar equipamento electrónico estragado no ponto Electrão. Enquanto não implodimos estes monstros de construção que distorcem a cidade e aglomeram precariedade e poluição, ao menos que se ponha os seus visitantes a reciclar, né?)

De: Hugo Jorge
Enviada: terça-feira, 29 de Abril de 2008 13:45
Assunto: Peça ao Dolce Vita para plantar 9 mil árvores no novo centro comercial na Amadora
Importância: Alta

O novo centro comercial Dolce Vita Tejo situado na Amadora terá nove mil lugares de estacionamento subterrâneo distribuídos por quatro pisos. Este será o maior centro comercial da Península Ibérica.

Nove mil lugares de estacionamento são mais um convite a uma utilização excessiva do automóvel nesta zona da Amadora e na Grande Lisboa. Teremos mais poluição atmosférica e mais problemas de saúde. Tudo menos uma Dolce Vita (vida doce).

A poluição atmosférica, gerada pelos veículos motorizados, é uma séria ameaça à saúde dos habitantes de um dado lugar, sendo responsável pela deflagração de inúmeros problemas como alergias, doenças respiratórias, cardiopatias, stress, cancros, entre outros.

Peça ao Dolce Vita para plantar 9 mil árvores (uma por cada lugar de estacionamento automóvel) e instalar parques de estacionamento para bicicletas (no formato U invertido).

e-mail: geral@dolcevita.pt

Por favor envie o seu e-mail com conhecimento (Cc) para ambientalistas_da_amadora@aeiou.pt

Ambientalistas da Amadora

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Um sentimento de pertença – cidade encontra campo

No Domingo passado, a meio da Primavera, provou-se de que não é só de couves portuguesas que é feita uma horta urbana em Lisboa.

O dia comunitário na horta popular da Graça começou já na semana antes, com um percurso a pé pelos bairros da Graça, Mouraria e Alfama, para afixar cartazes alegres nos cafés e lojas, e sempre que possível divulgar pessoalmente a iniciativa a moradores curiosos. Outros tantos voluntários recolheram madeiras usadas de todo o tipo, tintas, pregos, ferramentas, cercas e ainda corda para baloiços.

Sábado abriu-se oficialmente a oficina de construção de mobiliário urbano reciclado, uma iniciativa que se pretende prolongar no tempo. Paralelamente arrancaram os trabalhos de criar caminhos pela horta, delinear as zonas de cultivo, identificar as cerca de 35 variedades de plantas com plaquinhas de madeira, desimpedir as entradas e limpar (mais uma vez) estes 1000 m2 de terreno que sofreram anos de maus-tratos. No próprio dia da festa a azáfama começou logo pela manhã, com uma excelente adesão para concluir os trabalhos de embelezamento do terreno e de preparação da festa a tempo de receber os participantes para as tertúlias da tarde. Às 15 horas duas mesas, vários bancos, dois baloiços e uma escadaria fantástica escavada na terra e reforçada com madeira a descer pela horta tinham metamorfoseado o local num pedaço de campo autêntico onde só faltava correr uma ribeira. Junto dos caminhos novos, entusiastas plantaram rebentos de oliveiras, amendoeiras e pessegueiros.



Apesar do tempo instável criou-se um espaço agradável por baixo dos pinheiros onde o Arq. Gonçalo Ribeiro Telles, a Raquel Sousa (Eng. Agrónoma, Ambiência), o Fernando Pires (horticultor e sócio-produtor da Biocoop) e a Raquel Leitão (Gaia, Grupo da horta da Graça) partilharam os seus conhecimentos e experiência sobre hortas urbanas com moradores e interessados. Conversou-se sobre as raízes rurais de Lisboa, os corredores verdes - que estão numa fase crucial de formalização e incluirão hortas -, a componente biológica das hortas urbanas, exemplos de cidades lá fora que já tiram 30% do seu consumo de frescos das suas hortas, a vertente social, comunitária e pedagógica, a necessidade de criar massa crítica envolvendo os moradores e os aspectos técnicos a ter em conta na manutenção de uma horta. Os momentos expositivos intercalados com momentos de perguntas e debate, deram espaço a vários moradores para exporem as suas sugestões de melhoria da horta popular da Graça. Estes assinalaram a importância da estética (uma horta bonita atrai um leque mais variado de moradores), a ênfase compulsória no contacto pessoal com todos os potenciais interessados (indivíduos, colectivos, escolas, junta,..) e a necessidade de prever questões logísticas e políticas que inevitavelmente surgem quando a horta cresce (a mais premente sendo o destino do terreno, pois mantém-se a ameaça do silo de automóveis).

Ainda houve tempo para ensaiar a adesão ao projecto Banco Comum de Conhecimentos, que pretende em breve montar um mercado de troca de conhecimentos no Centro Social da Mouraria. O espírito solidário devia ser contagiante pois houve uma chuvada de ofertas de conhecimentos desde como fazer seitan e tricô, passando por dicas de informática e como cuidar de hortas e jardins até como construir projectos de intervenção social e praticar arquitectura bioclimática. Para quem pretende aprender o body-piercing, este ofício também não faltou ☺.

O sol resolveu brindar os hortelões e seus convidados com a sua presença na conclusão das tertúlias, dando o mote para os pontos de programa mais lúdicos: a instalação ‘mundo perfeito’ pintada pelo público (o público menor de idade ficou mais pintado do que pintou..), a música ao relento, a limonada e a sangria.

Sentados na relva no ponto alto do terreno inclinado, de costas para os três pinheiros plantados pouco depois do 25 de Abril pelo então presidente da Junta (informação recolhida nas tertúlias), os resistentes dos cerca de 100 visitantes viram o sol desaparecer por trás dos prédios da cidade, enquanto de um cantinho remoto do terreno subia o som da orquestra de caixas, pedras e paus improvisada pelas crianças. E depois destes dias longos de trabalhar com as mãos e o coração, de subir e descer os caminhos de terra vezes sem fim, de pisar relva em vez de pavimento e de nos abrigarmos por baixo de árvores em lugar de tectos, ter uma horta a 10 passos do passeio e a 200 passos de casa, parece perfeitamente natural. Parece um direito.

Notícia no Diário de Notícias
Notícia no Jornal da Região de Lisboa
Blog da Horta popular

terça-feira, 6 de maio de 2008

“Há Festa na Horta!” – Dia comunitário na Horta popular da Graça, Domingo 11 de Maio



No próximo Domingo, dia 11 de Maio, no auge da Primavera, vamos convidar os vizinhos dos bairros da Graça, Mouraria e Alfama, os amigos e todos os simpatizantes de hortas urbanas e da ruralidade citadina para participar num dia comunitário na Horta popular da Graça.

Enquadramento:
Mais que nunca as cidades têm que reencontrar o seu equilíbrio e voltar a abraçar a natureza da qual se afastaram nos últimos 50 anos. Os habitantes das cidades nunca foram tão dependentes dos serviços de terceiros para satisfazer as suas necessidades básicas, serviços esses que se estão a tornar cada vez mais proibitivos. 2008 é o ano em que o aumento gradual dos preços das comodidades se vai sentir de maneira dramática, com os cereais a aumentar mais de 50% enquanto o acesso a legumes frescos de qualidade se limita a uma faixa cada vez mais pequena da população.

À falta de autonomia dos munícipes e o seu afastamento da produção da terra, se juntam a perda de espaços comuns e sobretudo de espaços verdes para conviver, para gozar os tempos livres e para fomentar um sentimento de segurança e de pertença.

O conceito da horta urbana insere-se firmemente numa estratégia de recuperação da sustentabilidade urbana, ligando factores sociais, culturais e ambientais. Contribui para a conservação de espaços verdes naturais, um planeamento urbano mais humano, a segurança alimentar, a estabilidade socioeconómica, e ainda para proporcionar lazer ou mesmo terapia.

Horta popular da Graça-Mouraria:
A Horta popular, na intersecção da Rua Damasceno Monteiro com a Calçada do Monte, nasceu como projecto do GAIA – Grupo de Acção e Intervenção ambiental, no âmbito da campanha “Por uma Agricultura mais sustentável” iniciada em 2007, no momento em que o GAIA começou o projecto “Centro Social”, albergando a sua sede nas instalações cedidas pelo Grupo Desportivo da Mouraria. Os objectivos do projecto da Horta são: Promoção da Agricultura Sustentável, Consciencialização para os Benefícios da Agricultura Sustentável, Atrair os Jovens para a dinâmica entre cidade e campo, Convidar os Mais Jovens para o desenvolvimento de actividades comuns ligadas ao Desenvolvimento Sustentável e Preservação da Natureza, Envolver a Comunidade local na manutenção de uma horta urbana, promovendo a sua autonomia.

Todas as segundas-feiras o Grupo da Horta reúne no local para juntos trabalharem a encosta solarenga, cuja terra sofreu sucessivos despejos de entulho e lixo e está ainda pouco fértil, plantando variedades que vão arranjando e partilhando, semeando novos mini-lotes, soltando a terra e regando-a, com o objectivo de ali recriar um ecossistema equilibrado, aplicando as técnicas ancestrais da agricultura biológica. Sempre que passe um morador curioso, é convidado para espreitar os afazeres e receber uma explicação do projecto, impulsionando a participação activa dos residentes dos bairros adjacentes.

A iniciativa está a começar a ganhar alento e os resultados estão à vista, com uma variedade de talhões semeados ou plantados – couves, alfaces, tomate, milho, favas, cebola, acelga, alho francês, abóbora,.. -, umas jovens árvores e algumas plantas resgatadas das Hortas de Benfica, um talhão preparado para flores, todos rodeados por plantas e ervas espontâneas essenciais para o controlo natural das pragas.

Neste Domingo queremos celebrar a promessa desta iniciativa, incentivar o arranque de muitas mais e partilhar conhecimentos sobre horticultura social e jardinagem com vizinhos, interessados e outros horticultores. Durante todo o dia operará uma oficina de construção de mobiliário urbano reciclado, aberta a todos. À tarde juntar-nos-emos para umas tertúlias sobre hortas urbanas e ruralidade e teremos a oportunidade de uma visita guiada à Horta, enquanto as crianças são entretidas por dois animadores e um artista plástico, tudo isto ao som de música acústica e ao sabor de petiscos com ingredientes da própria Horta. Ao fim do dia a festa continua no Centro Social na Travessa de Nazaré.

Propósitos do dia comunitário:
- Promover o conceito das hortas urbanas.
- Promover em particular a horta urbana da Graça para que ela ganhe massa crítica.
- Fomentar a troca de conhecimentos com vizinhos, interessados e outros horticultores.
- Ajudar a garantir o continuado uso público para fins verdes do terreno em questão.
- Proporcionar um verdadeiro convívio comunitário.
- Servir de exemplo para outras iniciativas semelhantes.

Programa do dia – Concertos e consertos, conversas e passeios na Horta:
9.00 – 19.30:
Oficina de construção de mobiliário urbano reciclado
14.30 – 19.30:
Tertúlias com Arq. Gonçalo Ribeiro Telles, Ângelo Rocha (Miosótis), Raquel Sousa (Agrobio), Fernando Pires (Biocoop) e o GAIA
Visitas guiadas à Horta
Bancas informativas do Banco Comum de Conhecimentos e do GAIA-CSM
Espaço para crianças, Pintura livre, Música acústica ao vivo, Petiscos vegetarianos
A partir das 20.00:
Jantar popular e festa no Centro Social da Mouraria

Programa completo

A ecopolis e o lugar ao sol das hortas urbanas

(in Retomar a Rua)
Nas primeiras civilizações o principal objectivo da agricultura era a fixação das pessoas ao proporcionar-lhes qualidade de vida. A relação entre as cidades emergentes e a ruralidade era simbiótica. Nas megacidades de hoje, que estendem betão por áreas insustentavelmente grandes, fazendo retroceder e desaparecer as zonas rurais debaixo de autovias e dormitórios , convidando ao uso do carro mesmo que seja a passo de caracol, parece reger a convicção de que qualidade de vida é confinar a natureza, concentrar os serviços e afastar a produção dos nossos alimentos. Zonas verdes só mesmo no espaço que sobra do frenesim da construção e só se forem inteiramente domadas: um banquinho desconfortável, canteirozinhos, um escorrega com chão de borracha, um caminho iluminado com holofotes e uma placa ‘não pisar a relva’.

Lisboa já foi uma cidade de tradição hortícola. E entre as ruínas das quintas de outrora e à beira das estradas de 6 e 8 vias, os resistentes, na sua maioria de 3ª e 4ª idade com origens rurais ou imigrantes horticultores, mantêm o bom costume do cultivo próprio.

No entanto mundialmente 800 milhões de pessoas dedicam-se à agricultura urbana (FAO 1998), assumindo 15% da produção mundial de alimentos. Há cidades auto-suficientes em produtos vegetais, outras, como Londres e várias cidades na Holanda, produzem cerca de um terço dos seus alimentos verdes.

As hortas urbanas não são só um suplemento ou uma ajuda no rendimento familiar, nem só uma reafirmação identitária das origens e do património cultural herdado, nem tão só uma ocupação de tempo alternativa e terapêutica. Mais que isso, inserem-se numa perspectiva holística dos habitats humanos, onde natureza e edificado vivem em harmonia, onde a civilização encontra a eco-técnica e a biosfera. Numa ecopolis a vegetação desempenha funções de termorregulação, de controlo da humidade e protecção do sol e vento, de limpeza do ar, de diminuição do ruído e ainda como elemento integrador da paisagem. Aqui, a agricultura não tem exclusivamente uma função produtiva mas contribui activamente para a criação de um ecossistema regenerativo e lança as bases para o estabelecimento de comunidades no sentido original da palavra.

São inúmeros os benefícios das hortas urbanas, sejam elas sociais, de recreio ou pedagógicas. A nível ambiental, desempenham uma função importante na potenciação da biodiversidade local, a infiltração das águas pluviais e a diminuição do ruído e da poluição. De salientar que por norma as hortas urbanas respeitam os princípios da agricultura biológica e podem servir para reciclar os resíduos orgânicos da cidade para além de aproveitar as águas residuais. Ao nível do planeamento urbano, têm um papel na preservação de espaços verdes, de reabilitação de espaços públicos abandonados ou degradados e de ligação dos corredores verdes. No campo social, proporcionam uma actividade lúdica, são uma oportunidade de convívio e estimulam a participação dos cidadãos. Por fim, no plano económico, representam um contributo para a menor dependência dos produtos exteriores, a poupança de energia e ainda para a afirmação do direito à soberania alimentar.

Hoje, 50% da população humana vive em cidades, criando uma pressão insustentável sobre os recursos naturais. É impossível não nos realizarmos que crescer não é sinonimo de desenvolver. Os agrossistemas podem e devem dar uma contribuição preciosa na interligação entre o edificado e a sustentabilidade, para que abracemos de novo a ruralidade banida e desprezada durante os últimos 30 anos.

‘O homem do futuro terá tanto de rural como de urbano sem que nele se confundam ou diluam as duas ancestrais culturas’ (1).

Fontes: Globonews, BSCD Portugal, Mó de Vida, Jacinto Rodrigues - Fac. de Arquitectura da Univ. do Porto, José Mariano Fonseca , Rita Calvário in Blocomotiva, Arq. Gonçalo Ribeiro Telles in Jornal de Leiria

(1) José Mariano Fonseca in Hortas urbanas – o seu florescimento e a sua componente didáctica