quinta-feira, 3 de abril de 2008

O jardim da D. Ondina – uma história de hortas com vida e vidas em hortas



No início dos anos 70 a proprietária da Quinta das Pedralvas, em Benfica, doou as suas terras à Câmara Municipal de Lisboa sob condição de serem utilizadas para habitação e fins sociais. Num pedaço de terra da boa que tapa a encosta entre o castelinho das Portas de Benfica e a estrada dos Salgados ergueram-se hortas em lotes arrendados pela Câmara. Até à segunda-feira passada entre 50 a 70 pessoas cultivavam aí legumes e árvores de fruta para o seu sustento suplementar ou total, para além de plantas mais decorativas para o sustento da alma... Ladeado de árvores, algumas de grande porte, freixos, oliveiras, amoreiras, choupos, alguns pinheiros mansos e até um ulmeiro, o terreno representava um dos últimos resquícios de ruralidade em Lisboa, numa zona que outrora era dominada por quintas e onde agora os prédios infelizes dos anos 70 enclausuram a população humana, animal e vegetal.



Segunda-feira passada chegaram as retroescavadoras e fizeram evaporar a esperança secreta dos hortelões de que esta obra “de utilidade pública” chamada CRIL, com a mesma idade de algumas árvores de médio porte na zona, não seria mais do que um fantasma e voltaria a atrasar por mais uns tantos anos. Apesar dos avisos, o choque foi grande.

Eu andei no terreno uma semana, mobilizada por uma “colega” do ambiente, e falei com pessoas confusas, incrédulas, revoltadas e algumas com claros sintomas de choque. Duas irmãs dos seus 60 anos pediram-me para conseguir adiar as máquinas até às favas estarem prontas para a colheita, pois só faltava um mês e deixaram-me assinalar a bela figueira no meio da sua horta com fita polícia (Foi a primeira árvore a ir abaixo, pois o recado não tinha sido passado ao encarregado de obra). Outra senhora, mais resignada, entregava-me enormes sacos de couve portuguesa para distribuir a quem precisasse. “ Mas vai usar mesmo, não vai? Pois deve, visto que a senhora é do ambiente..”
O Sr. Porfírio, já com um quarto do terreno arrasado, olhava preocupado para a sua mulher, a D.Helena, uma mulher miniatura com uma cara redondinha saudável que revelava a sua ascendência beirã. A D. Helena continuava a trabalhar no seu quinhão como se houvesse amanhã. “Eu aguento-me”, dizia o Sr. Porfírio, “Mas a minha mulher não tem outra ocupação. Trabalhar a terra é o que ela sabe. Vou plantá-la a frente da televisão agora?”
Alguns donos das hortas zangavam-se connosco por estarmos a tirar plantas e marcar árvores para um transplante que negociámos com o empreiteiro. Consideravam que estávamos a roubar, por mais que insistissemos que o terreno ia mesmo ser destruído. “A CRIL ainda está embargada”, diziam sabidos, “Isto é tudo ilegal.” Até as máquinas chegarem a meio das hortas tornando a destruição demasiado óbvia, as pessoas continuavam a ir aos seus bocados de terra, colhendo legumes, regando, conversando entre elas como sempre fizeram. Os moradores do bairro adjacente continuavam a atravessar o terreno, com crianças pela mão, cumprimentando os hortelões e as hortelonas. O fim social idealizado pela antiga proprietária esteve à vista até ao derrube do jardim da D.Ondina, às 13 horas de quarta-feira..



Aaah, a D. Ondina merece menção especial. Até marcámos o seu lote com fita polícia toda a volta para garantir que houvesse tempo para tirar os seus tesouros. No meio do stress de tentar parar as obras para que os ninhos fossem poupados e de bombardear a Câmara com pedidos de viabilizar o transplante de árvores, o jardim da D.Ondina conseguiu um lugar central na acção. Hoje com setenta e qualquer coisa anos, optou em tempos por criar o seu próprio jardim secreto em vez de uma horta lavradinha com filas de couves e batatas. Tal como o paraíso, não parecia ter entrada nem saída. Espreitando através das sebes e as yucas que rodeavam o lote e por cima da vedação tosca avistávamos uma autêntica estufa de flores, plantas aromáticas e uma variedade de cactos. A D. Ondina, com os olhos intensos lavados em lágrimas, explicava-nos os benefícios de cada uma das suas plantas. “Os cactos absorvem a radiação, é bom para quem trabalha no computador e para toda a electricidade em casa. Assim nós não ficamos ‘radiados’.” “Esta cardeira até soube que a procuram noutros países, que já é rara, é para fazer um queijo especial.” “Com isto faz um chá e limpa os rins.” A vizinha, D. Deolinda, ia dizendo que sim e repetia orgulhosa os conhecimentos da sua amiga curandeira de olhos azuis e lenço preto na cabeça para quem quisesse ouvir. A D.Ondina foi resistindo às ofertas de apoio para transplantar o seu jardim. Todos os dias levava calmamente umas cestas cheias para um novo terreno que escolheu, pouco além do perímetro marcado pelo empreiteiro. Mas o fim não teve o mesmo ritmo da vida das hortas. Em poucas horas os voluntários tiveram que desenterrar o que conseguiam e com a ajuda dos trabalhadores da obra, entretanto já bastante sensibilizados e cheios de conselhos, levaram as plantas e sebes para os novos anfitriões, a eco-escola Verdes Anos e a Horta popular da Graça. À sombra de um choupo à espera do abate, dezenas de plantinhas em vasos ainda aguardam que a D.Ondina os leve.

Foi uma semana dura. Dura para os voluntários que lutaram pelos ninhos com crias e pelas árvores e plantas que nunca foram contempladas para a recuperação paisagística obrigatória, pois este terreno rural foi considerado baldio e não entrou na declaração de impacto ambiental. Dura para os pássaros que escolheram passar a Primavera num espaço condenado. Dura para as árvores que não vamos conseguir salvar. Mas sobretudo, acima de tudo, dura para os hortelões e hortelonas de Benfica, a quem ninguém ofereceu uma alternativa para o seu passatempo, sustento e paz de alma. Lisboa virou mais um pouco as costas à natureza livre e perdeu mais um pedaçinho de história e mais um pedaçinho de humanidade em prol de betão, ruído e ar irrespirável.

4 comentários:

João Taborda disse...

É a "democracia" do alcatrão....triste final de um, que me parece ser, dos ultimos locais realmente vivos da cidade...

tenho pena de não termos tido conhecimento a tempo... e força para impedir mais uma besta de asfalto...

Tiago R. disse...

A pessoas que mantinham as hortas foram incapazes de se organizar e lutare por um objectivo comum.

Também o espírito de pequenos proprietários ("a minha horta") não ajudou, com toda a certeza.

Assim, estavam derrotados à partida. Quem sabe tenham aprendido alguma coisa com isto...

Mas ainda bem que se salvaram algumas árvores.

Obrigado!

Alexa disse...

Lindissímo texto sobre uma situação tão triste!...
Gostei muito da forma como "deu vida" neste texto a estes hortelãos e em particular à Dª. Ondina.

Moro em Benfica há mais de 30 anos, muito perto do local onde esta tragédia tem estado a acontecer...
Diga-se o que se disser agora, desde o início, que grande parte dos moradores têm lutado contra o avanço da CRIL desta forma desumana (apenas olhando a lucros)... o problema é que, façam o que fizerem, o poder instituído deixou de ouvir os cidadãos e os seus problemas.
A questão resume-se às "quintinhas" sim, mas às quintas dos grandes senhores que vão lucrar com a passagem da CRIL da forma como agora foi projectada.

Queria aqui deixar as minhas palavras de apreço e de agradecimento a todos os que como a Lanka e uma série de outras pessoas têm estado a ajudar no terreno.
E manifestar a minha total disponibilidade para ajudar no que for necessário (não sei fazer transplantes de árvores, mas no que puder...).

Um grande abraço

@ndre disse...

Felicito todos os envolvidos em salvar bens tao preciosos especialmente a Lanka pela fabulosa contribuiçao.
Trata-se de + destruiçao por causa do uso abusivo do automovel.
Viva o aumento do preço da gasolina!
Ainda vai chegar a dia em que aqueles que usam o carro diariamente nao vao ter dinheiro para se alimentarem.
Ninguem que usa o carro tendo alternativas + economicas i menos destructivas pode-se queixar de falta de dinheiro.
Esta na hora de as maiores cidades portugueses cobrarem uma taxa de congestao a veiculos poluentes como acontece em varias cidades da Europa com bons resultados i verbas para os tranportes publicos i ciclistas.
So com populaçao i associaçoes organizadas conseguiremos combater esta mafia que tomou conta do poder i corrompe a noçao que temos do valor das coisas.