quinta-feira, 10 de abril de 2008

Encontros com paradigmas em Barcelona



Apesar da sua usurpação pelos marketeers o fenómeno de inovação não está reservado aos produtos e processos inseridos numa economia de mercado, nem sempre tem por objectivo gerar lucro. E por sua vez a inovação chamada social não se limita a desenhar soluções para os problemas sociais politicamente correctos como as desigualdades, o desemprego, a exclusão ou o envelhecimento da população. Infiltra-se em áreas mais incómodas e pouco liberadas como a propriedade intelectual, a produção alimentar, a publicidade, a educação, a saúde e mesmo a ciência e os modelos de mercado.
Numa altura em que os alimentos frescos se tornam proibitivamente caros, que não sabemos o que flutua no ar ou brota na nossa comida, que os recursos naturais estão irremediavelmente debilitados e o consumo é confundido com cidadania, a reinvenção das nossas maneiras de comunicar, aprender, produzir, trabalhar e viver torna-se uma questão de sobrevivência. Esta reinvenção, este uso desregulamentado da nossa capacidade criativa, está a nascer, como qualquer revolução, nos grupos não alinhados dentro da nossa sociedade: ONG’s, universidades públicas, associações e movimentos cívicos e profissionais sem patrão.
Mas mais interessante ainda é que crescentemente podemos observar inovação social em iniciativas eminentemente grassroots, sem intelectualismos, em associações de moradores, grupos de minorias com problemas partilhados e acções espontâneas de defesa do bem comum. (Já referi aqui um exemplo de um modelo socio-económico inteligente Telemadre).



Nas jornadas do projecto NOW “encontros no presente contínuo”, no museu CCCB de Barcelona, encontrei pessoas e ideias suficientes para achar possível construir novos paradigmas científicos, económicos, políticos, educacionais, artísticos e espirituais. A quinta edição do NOW explorou 3 paradoxos do presente que deram lugar a novas formas de investigação e de activismo: “num momento em que os avanços científicos nos permitem um conhecimento inédito do universo, a poluição luminosa nos impede de ver as estrelas; pela primeira vez, o número de habitantes com excesso de peso no planeta supera o dos que passam fome e criaram-se sistemas irracionais de sobreprodução de comida; e num momento em que as novas tecnologias de informação começam a estar ao alcance de um número cada vez maior de cidadãos, o controlo dos seus sistemas operativos está nas mãos de uns poucos.” Temas como copyleft e creative commons, reabilitação urbana, culture jamming, eco-design, sementes livres das patentes da maior empresa do mundo, Monsanto, e o software livre atraíram um público ávido por modelos alternativos.



No espaço do NOW reservado ao Banco Comum de Conhecimentos realizaram-se workshops em regime de troca livre de conhecimentos. Reinventando os formatos de transmissão de saberes, durante 3 dias pessoas dispostas a partilhar o seu know-how e pessoas prontas a aprender reuniram-se para ouvir experiências pessoais e teorias, e para participar em debates, demonstrações e jogos. Três espaços contíguos muito intimistas eliminaram a habitual hierarquia entre professor e aluno. Auscultadores com 3 canais permitiam ouvir a sessão de interesse ou mesmo as 3 sessões em simultâneo para quem não quisesse perder uma palavra. Um autêntico laboratório de formas de produção e difusão de conhecimentos, cada sessão evoluia conforme a participação dos visitantes, apagando a fronteira entre ensinar e aprender. Para os amantes do PPT, informo que este não entrou nos workshops.. Havia quem colasse papéis A4 com chavões na parede, construindo um puzzle de frases que iam alterando à medida que trocava ou colava mais papéis. O jogo do Wiki envolveu um quadro de giz ligado a quadros mais pequenos por fio de algodão, simulando as páginas web, enquanto os participantes tinham um quadro pequeno pendurado ao pescoço, a sua página pessoal. Para simular o funcionamento da Net desde o seu arranque, os participantes enviavam post-its uns aos outros. E nos grupos temáticos não só era permitido, como estimulavam activamente, a interrupção pelos participantes.



Foi neste ambiente extremamente aberto e criativo que assisti, em catalão, castelhano e inglês a explicações de como montar uma biblioteca entre vizinhos e organizar uma rede de troca, a jogos para perceber o funcionamento de Wikis e redes Peer2Peer, e a debates sobre modelos de Open Business - onde o dilema do prisioneiro é resolvido colaborando em vez de competir - e sobre o Procomum (palavra inexistente em português que se refere aos bens que são de todos e de ninguém, sendo os mais óbvios o ar, o fundo dos oceanos e o sol, e os menos óbvios os conhecimentos, a natureza livre, os recursos naturais, o espaço público e, ainda mais radical, os meios de comunicação).



Apesar do overload total de conceitos novos e complexos, gostei muito. E regresso mais convicta de que é através da inovação social que vamos encontrar novos paradigmas para o funcionamento da nossa sociedade e que os principais meios de produção de inovação não são o dinheiro, a disciplina, as regras ou os segredos bem guardados, mas a diversidade – que assegura a abertura a novas ideias e práticas -, a tolerância – que permite o risco - e a participação – que promove o debate e o envolvimento de todos os actores.

1 comentário:

Elsa disse...

Excelente texto, uma vez mais. Bem escrito, inteligente e inspirador.
Elsa Childs