terça-feira, 29 de abril de 2008

Collapse 101

A história tem essa capacidade de nos apanhar desprevenidos, na curva da nossa tomada de consciência. Ainda antes de sentirmos os verdadeiros efeitos das alterações climáticas, é-nos lançado o desafio perverso de lidar com o colapso do modelo de mercado abraçado há mais de um século, o mesmo que nos levou ao buraco do ozono, à chuva ácida, ao abate progressivo dos pulmões da nossa terra e ao aquecimento global exponencial. Eis que o 'tipping point' que enfrentamos hoje ainda não vem nem da biosfera nem da atmosfera.

O IPCC no seu relatório de 2007 previa fome devido à degradação das condições do solo e climáticas, mas não deve ter sonhado que ainda antes de haver decréscimo na produção agrícola, já íamos entrar em crise. Afinal o ano passado tivemos um recorde de produção! 2,1 Bilhões de toneladas de cereais. Há cereais mais que suficientes para alimentar todos os humanos, só que não chegam a todas as mesas. Porquê?

Abaixo segue uma visão ligeiramente diferente daquela que tem sido repetidamente apresentada pelos analistas, cujo discurso gira predominantemente à volta do aumento da procura na China e Índia, a produção de bio-etanol e a seca na Austrália e África. Lendo nas entrelinhas, cheguei a conclusões diferentes, ao que ajudou e.o. este artigo do George Monbiot.

Não são os biocombustíveis. Ainda não. Esses vão ficar com 100 milhões de toneladas este ano, apesar de podermos contar com o seu crescimento em flecha nos próximos anos, com consequências dramáticas não só pelo desvio de comida para carros como pelo desmatamento acelerado nomeadamente na Indonésia, onde a linda ilha de Bornéu, onde já tive o privilégio de viver, poderá perder 98% da sua floresta em apenas 15 anos.

Por um lado devemos apontar o dedo à especulação financeira, que também está por detrás da subida do preço do petróleo ainda antes da sua produção estagnar. Há muitos anos que os cereais são papel trocado em bolsa. E com a crise recente do sub-prime transformaram-se no novo ouro. Desde o último semestre do ano passado que os investidores fogem das acções, refugiando-se nas bolsas de cereais, provocando uma acentuada subida dos preços. Ao mesmo tempo a procura de cereais subiu, vários países exportadores começaram a limitar a saída do produto enquanto os países importadores aumentaram significativamente as suas encomendas com vista a assegurar a procura a médio prazo. Os futuros de cereais, antes um mecanismo de defesa dos agricultores, estão agora sobretudo nas mãos de investidores que competem com governos e consumidores para um bem que se supõe escasso no futuro e cujo preço de venda imediata sobe com esta pressão, resultando em belíssimos lucros para os investidores e perdas para os agricultores. Nos EUA os investidores já detêm duas colheitas futuras inteiras para um tipo de cereal. Para ilustrar como os cereais se juntam à longa lista de bolhas da nossa economia de mercado, basta ler os anúncios nos sites financeiros ‘How to profit from the rice shortage in 2008’ e ‘How to profit from the wheat crisis’. Nas palavras de um analista com a consciência a pesar ‘O capitalismo está literalmente a consumir-se a si próprio’.

Por outro lado, e já o disse aqui, mais de um terço dos cereais, entre eles os geneticamente modificados (milho e soja), são utilizados para alimentar gado. Esta quantidade, segundo o Monbiot, podia cobrir o défice alimentar global 14 vezes. Adicionalmente, a produção de gado ocupa 70% das terras agrícolas, 30% da superfície terrestre e usa 50% da água, deixando pouca margem para aumentar a produção de alimentos vegetais. Com o bónus de que cada vaca emite a mesma quantidade de metano que um carro médio em carbono, sendo o metano 23 vezes mais potente .. Com os Chineses e Indianos a mudar para uma dieta carnívora, estamos perante a escolha de alimentar a classe média com uma dieta extremamente ineficiente (cada kg de carne de vaca requer 8 kg de cereais, a acrescer aos cereais desviados para fazer fastfood pouco nutritivo e para poucos) ou alimentar ¾ da população humana com o que damos aos animais.

Por fim, o elo que completa o círculo vicioso: a especulação que provocou a subida acentuada do petróleo está a alimentar a especulação em torno dos cereais, por um lado porque a agricultura convencional é extremamente ineficiente energeticamente, por outro porque quanto mais alto o preço do petróleo, mais atraente a produção de biocombustíveis. O efeito do aumento do custo dos derivados de petróleo, como os pesticidas e fertilizantes, para além do custo do transporte, já se está a fazer sentir.

Só podemos imaginar onde é que esta incidência simultânea de factores complexos nos vai levar. Quanto mais quando ainda são muito poucos os políticos ou mesmo representantes de ONGs e da sociedade civil que assumem frontalmente as causas mais profundas que acima assinalo.
O principal apelo, obviamente legítimo mas mesmo assim só de recurso, é para arranjar meio bilhão de dólares para alimentar os 100 milhões que arriscam morrer à fome. Houve uns apelos tímidos para travar a especulação. Há muita cobertura dos biocombustíveis, levando-me a crer que esta via, não tarda, vai ser abandonada. A crise corrente está a ser acoplada às alterações climáticas, um conceito ainda vago para muitos. Mas ninguém fala na carne, ninguém menciona o monopólio de cereais, ninguém se arrisca a tocar no fastfood, ninguém se levanta contra o nosso sistema falido de produção e consumo. E absolutamente ninguém apresenta uma abordagem holística.

Estamos a enfrentar um ponto de colapso que ainda há poucos anos estava sob nosso controlo, o mecanismo circense que montámos em torno da comida. Não seria tão grave caso se tratasse de uma bolha nos electrónicos, que ainda por cima afectaria só os países desenvolvidos. Mas trata-se do nosso pão do dia-a-dia. Precisamente o que não nos pode faltar. ‘How ironic’, diriam os British, ainda não houve nenhuma discussão séria sobre as verdadeiras causas do desenvolvimento insustentável e zufa, em vez de termos de prescindir de mais um i-pod, vamos ter que reduzir a nossa dieta. Menos grave para nós, os ricos, pois consumimos cerca do dobro das calorias que efectivamente precisamos. Muito grave para quem gasta 80% do seu rendimento na alimentação mais básica e só está a pedir para ter pelo menos uma chávena de arroz por dia.

BBC - UN Report - Global food system must change
Chatham House - Rising Food Prices
Washington Post - The New Economics of Hunger

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