quarta-feira, 19 de março de 2008

Greenshit

O início do ano prometia uma tomada de consciência global e firme sobre os desafios ambientais que os humanos enfrentam. Uma enxurrada de carros "limpos" (quase todos os dias chega-me um modelo novo via Inhabitat), consumidores a praticarem "swapping", a Comissão Europeia a preparar um plano "ambicioso" de combate às alterações climáticas, Austrália e os Estados Unidos a bordo no protocolo de Kyoto, Obama, labels para avaliar a pegada de carbono, labels para avaliar a pegada de água, centros de cidades a limitarem a entrada de carros, cidades e países inteiros a proibirem sacos de plástico, carsharing (dica bananalogic) e ainda ontem fiquei contente com a notícia da iniciativa pedibus

Mas o que se passa é que não são os humanos que enfrentam desafios ambientais. É o ambiente que se depara com desafios humanos pelos vistos insuperáveis. Para quem estiver atento, como o Monbiot, no meio de um sem fim de boas notícias, há um rol de más notícias, só que estão disfarçadas de boazonas, pois em 2008, após 7 anos magros, não há pachorra nem para pessimismo, nem sequer para um realismo saudável. É preciso seguir em frente e acreditar que este mecanismo falível a que se chama mercado livre, vai endireitar todos os males do mundo.

E assim os países ricos tiveram um AVC colectivo e esqueceram-se por completo da equação causa-efeito... 
As emissões de carbono na UE já só precisam de baixar 20% até 2020 (apesar de nos garantir um aquecimento de cerca de 3º). 10% da energia deverá vir de biocombustíveis, por mais que o aumento dramático do preço dos alimentos e o simples cálculo das emissões que não se poupam nos ditem o contrário. As indústrias pesadas talvez recebam um moratório sobre as emissões que deveriam evitar, pois não queremos uma crise no aço. A indústria de aviação também afinal não gasta assim tanto combustível, vamos poupá-la mais uns anos. A Alemanha e o Reino Unido já estão alegremente a planear construir uma data de centrais a carvão - carvão limpo, claro (vejam Burnt out abaixo). Novos aeroportos por erguer, outros a expandir, 2 ou 3 pontes daquelas modernas, mais umas estradas aqui e alí, acolá falta uma barragem,.. para quem estiver atento, afinal nada mudou. Estamos perante os primeiros casos de greenwashing institucional.  Em tempos de vacas gordas, os governos podiam dar-se ao luxo de serem firmes em matéria de ambiente e mesmo assim raramente o foram. Enquanto as vacas estavam magrinhas mas houvesse esperança de dias melhores (leia-se crescimento do PIB), começaram a emitir umas directivas mais sérias. Agora que as vacas estão esqueléticas ao mesmo tempo que o pasto está irrecuperavelmente contaminado, voltam a recuar, entoando Adam Smith, Adam Smith...

Ficando na analogia das vacas, só me ocorre "this shit will hit the fan soon".

Monbiot: Burnt out


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