quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Retomar o território do conhecimento: O Banco do Conhecimento Comum


Proclamámos esta nossa era com pompa e orgulho a sociedade da informação. No entanto estamos a fechar os nossos conhecimentos em copyrights e patentes, sujeitos ao reconhecimento científico convencional, exigências de diplomas prévios ou de software proprietário e afixamos-lhes etiquetas de preço. Estamos a assistir à formatação da informação segundo as regras de uns “happy few” com alvará e ao condicionamento não só do seu acesso como da sua divulgação. Mesmo a Net, o suposto instrumento livre para produzir e obter conteúdos, está a ser retalhada aos poucos, os seus espaços controlados e a sua utilização dependente de condições económicas e tecnológicas vedadas ainda a 90% da população mundial.

Esta crescente privatização da informação leva-nos a perder a nossa autonomia e torna-nos dependentes de especialistas para praticamente todos os serviços. Quem ainda sabe cortar cabelo, fazer pão (sem Bimbi), plantar um jardim, arranjar a sua roupa ou revestir o seu sofá? Quem, tirando uns cromos dedicados, sabe tirar partido do seu computador sem ter de comprar programas patenteados e captivos? Quem hoje está a par dos seus direitos fundamentais sem ter de contratar um advogado? Quem ainda consegue evitar uma ida ao médico, recorrendo a remédios tradicionais ou os preceitos de uma alimentação saudável? E quem se lembra de como fazer exercício sem ter de se inscrever num ginásio franchisado? A maioria dos conhecimentos que no tempo dos nossos avós eram passados de mãe para filha, pai para filho, foram profissionalizados, especializados e regulamentados. Já é praticamente ilegal produzir e distribuir produtos e remédios caseiros pois não obedecem às regras rígidas estabelecidas. O fastfood, este sim, tem alvará, mas o doce caseiro da Mãe Terra só pode ser vendido a amigos num raio de 20 km. E em breve as queijarias tradicionais terão de fechar ou aceitar aplicar métodos industriais e normas de higiene histéricas. Adeus, queijo da serra.

Mas se voltassemos a “aprender a aprender” podíamos reconquistar este espaço público virtual que são os conhecimentos. Foi com este espírito que o Banco do Conhecimento Comum, uma iniciativa catalã, se instalou 5 dias em Lisboa no âmbito do evento “Inspired Lisbon” para ensinar o modelo desenvolvido pela Platoniq para recuperar e partilhar conhecimentos com o objectivo de voltar a autonomizar os cidadãos.

O BCC pretende devolver o conhecimento aos cidadãos, seguindo a lógica do “open source” no software e com licenças “copyleft” (all wrongs reversed..).
Mais do que compilar um repositório gigante de sabedorias, o objectivo da iniciativa BCC é sobretudo investigar os mecanismos sociais para a produção colectiva de conteúdos, a educação mútua e a participação dos cidadãos: criando as redes e plataformas de partilha de conhecimentos, dinamizando os cidadãos para que se juntem para reclamar o conhecimento como um bem comum. Em vez de um banco, a ideia é ter muitos, localmente adaptados, e experimentar uma variedade de formas de produção e distribuição de conteúdos, reinventando os papéis de quem produz e de quem consome, dos experts e amadores, dos professores e estudantes, criando também novas relações entre a produção de imagem, texto e audio e a sua difusão no espaço público.

A experiência em Lisboa resultou no primeiro Mercado do Conhecimento Comum no Domingo passado, onde 21 participantes e uma centena de visitantes reinventaram a troca, partilha e passagem de conhecimentos, alguns perdidos, outros desvalorizados, outros ainda em construção, eliminando as hierarquias e as convenções, e de preferência também a dependência de ferramentas tecnológicas. Foram partilhadas tácticas de activismo social e experiências de vida, apresentados projectos criativos e socio-culturais, lançadas ideias provocantes para além de dicas práticas e dinamizou-se um grupo de trabalho para falar de como desenvolver um projecto cultural.

O que distingue este Mercado das habituais conferências ou workshops foi o facto de estar inteiramente sustentado na criação e exploração de redes de contactos e na acção voluntária de todos os envolvidos, para além de ter sido organizado em apenas 3 dias. Foi um exemplo bonito da capacidade dos cidadãos de se mobilizarem e aderirem a novos formatos sociais.

Fica aqui o convite a todos os interessados para se ligarem uns aos outros e a nós, os primeiros voluntários cobaias, para continuarmos a promover o conhecimento comum. Se informação é poder, o Banco do Conhecimento Comum é uma forma de resgatar este poder e empoderar a todos sem excepção.

1 comentário:

Ana disse...

É um conceito muito muito interessante.
Não tive oportunidade de lá ir mas parece-me muito fixe.
Obrigado mais uma vez por partilhares estas ideias magnificas.

Kiss
Ana T