terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

O (último) momento de glória dos néo-cépticos das alterações climáticas

From: lanka horstink Mailed-By: gmail.com
To: cartas@expresso.pt, hmonteiro@expresso.pt
Resposta aos artigos "debate a quente" e "Não estamos à beira de qualquer catástrofe", sábado 9 de Fevereiro 2007

Diz-se que 2004 foi o ano em que o aquecimento global (propositadamente e com sucesso rebaptizado de alterações climáticas pelos americanos, de forma a intimidar menos) ganhou respeito. Para o público em geral talvez tenha sido 2006 com o filme do Al Gore. No entanto, enquanto algum trabalho sério está a ser empreendido por alguns países ou grupos de países, e enquanto as indústrias se preparam para lidar com um carbono mais caro, e ainda na face de transformações óbvias do nosso planeta, ainda aparecem nos jornais personagens isoladas a clamar que o debate científico não está fechado. E apesar de se tratar de uma minoria com motivações obscuras, estão a receber um peso igual nos media, confundindo seriamente a opinião pública.
Estaremos cansados de ouvir falar nos impactos dramáticos do aquecimento global? Custa-nos a engolir que a base da nossa economia desde a última revolução industrial, o petróleo abundante e barato, seja também a causa de profundas modificações no clima e condições de vida do planeta? Será que o Gore ao simplificar um problema complexo e intangível para a maioria de nós, fez um disserviço à causa?

Invertendo completamente a realidade, os néo-cépticos, figuras vagamente ligadas à comunidade científica e que no passado por vezes advogaram o contrário, falam numa conspiração para iludir o público de que as nossas acções causam impacto no clima e que isso terá consequências nefastas. Os media pegaram na deixa com voracidade, ao que atesta o artigo “debate a quente” que apareceu no Expresso sábado passado (com o seguinte bonus).
Por que será que professores catedráticos, sem investigação própria, que não participam em nenhum dos relatórios de relevo sobre o tema, estão a ser ouvidos? Provavelmente porque conscientemente escolhem os media para lançar um debate que é político, não científico. Se fosse científico publicavam estudos para serem revistos pelos seus colegas cientistas. E os media, iludíveis como o público, vão na conversa.

Ora, deixo-vos com esta palestra da Naomi Oreskes da USCD, pois a maneira como ela nos relembra do percurso da ciência na questão do aquecimento global é extremamente elucidativa e deixa poucas dúvidas: a ciência falou, e até já esperamos e vimos demais. O tempo de acção escasseia.

Resumindo aqui o argumento: o efeito dos gases de estufa foi descoberto em 1850. Ainda no século XIX Arrhenius prevê que a temperatura aumenta até 4.5º se a concentração de CO2 duplicar. Em 1957 Suess & Revelle afirmam que os humanos estão a conduzir uma experiência geofísica sem precedentes, pois estaríamos a libertar carbono armazenado durante centenas de milhões de anos. Ao aquecer a terra, mais carbono é libertado, dos oceanos, dos solos e futuramente dos subsolos permanentemente congelados (permafrost) que contêm centenas de gigatoneladas de carbono, o suficiente para duplicar a concentração de carbono actual. Nos anos ’60 conseguiram calcular a percentagem de carbono libertado que não era reabsorvido pelos oceanos: cerca de metade. O governo americano reconheceu o problema ainda nesta década. Nos anos ’70 saem mais previsões sobre o aumento e os efeitos da libertação de carbono: a comissão JASON calcula que a concentração de CO2 duplicará até 2035, que a terra aquecerá em média 2.4º e os pólos 4 a 5 vezes mais. Recentemente foi possível confirmar esta amplificação polar para o período de 2000-2005 (a média do aumento está em 0,6º, os pólos aqueceram 2,4º). Em 1979 um meta-estudo (Charney report) conclui que existe consenso sobre a causa antropogénica das alterações climáticas. Consenso em 1979! Foi o que levou à criação do IPCC em 1988.. E a um compromisso dos EUA para controlarem as emissões de GEE. Compromisso esse que ajudou a assinar a Convenção-quadro sobre alterações climáticas ainda em 1992.
Eis que paralelamente surge um movimento, minoritário mas com meios poderosos, para desacreditar a ciência, no princípio muito ligado ao programa espacial dos EUA e a guerra fria e subsequente necessidade sentida de manter o país focado na sua defesa e crescimento económico. Pode ter sido o que levou ao recuo dos EUA na ratificação do protocolo de Kyoto. A Naomi Oreskes identifica pelo menos uma fonte da controvérsia: o Marshall Institute, que apesar de ter cientistas de renome, não fazia nenhuma investigação. Limitava-se a debater nos media, e recorria a qualquer táctica para conseguir desestabilizar o consenso (incluindo ataques pessoais a cientistas), com os argumentos que já conhecemos: o vapor de água é o maior gas com efeito de estufa (sim, mas fica 1 a 6 dias na atmosfera.. o carbono entre 100 a 1000 anos..), não haverá prova de que os humanos provocaram o aquecimento, é variabilidade climática natural (com aumentos de 50% na concentração de carbono desde 1850?), não é catastrófico, basta adaptarmo-nos.. (a 12º de aquecimento nos pólos?).

A Naomi Oreskes conclui que há forte interesse em abafar a ciência pelos fundamentalistas do mercado livre, do laissez-faire. Afinal a energia está na base da actividade económica. Mas não nos podemos deixar enganar: este debate é político, e não científico, está no entanto a ser mascarado como científico, uma táctica antiquíssima de marketing proíbida por boas razões no actual código publicitário. O consenso científico existe: as previsões dos anos ’70 e ’80 e mesmo dos anos ’50 verificaram-se! Rogo-vos por isso, membros dos Media, para fazer como eu, mera leiga. Estudem o assunto, vejam múltiplas fontes, olhem para a história. É inaceitável ao fim de tantas décadas e de termos ouvido milhares de cientistas e perante um tema desta complexidade, ainda dar uma cobertura desmedida a pseudo-científicos.

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