terça-feira, 15 de janeiro de 2008

slow-down-week

A Adbusters e o seu fundador apaixonado e inconformado, Kalle Lasn (criador do “Buy-nothing-day”, “Buy-nothing-christmas” e “TV-Turnoff-week”) escolheram uma semana mortiça de Janeiro, para apelar a uma “slow-down-week”. E não sem razão. No dia 2 de Janeiro os portugueses (e por isso com certeza também os norte-americanos, o nosso grande exemplo desde a 2ª guerra mundial) retomaram as lojas como se não tivessem acabado de emergir, pálidos e com uns quilos a mais, de um mês passado à luz fluorescente das catedrais de consumo.

O que está por trás de um dia sem compras, um natal sem compras ou uma semana a abrandar? Cada vez mais pessoas começam a realizar-se que não são conceitos fanáticos de eco-terroristas caídos do radar nos anos 80. São apelos verdadeiros e urgentes. A preocupação com a dimensão do consumo e o lugar que conquistou no topo dos valores perseguidos pelos humanos, por não falar de como substituiu a auto-estima antigamente conseguida com ajuda de família e amigos (Treehugger tem um artigo interessante sobre esta matéria: happy kids want less stuff), está a tomar proporções inéditas. Apenas um ano e meio depois do lançamento do filme do Al Gore, enquanto o cidadão comum finalmente se junta à conversa das alterações climáticas, já os académicos, ONG e alguns governos deram um pequeno salto quântico mais para a frente.

O que é que eles sabem que nós ainda não descobrimos? Pois quando pessoas que geriram países ou organizações mundiais começam a lançar apelos ditos radicais, e uma vez que certamente tiveram acesso a infinitamente mais informação do que nós, devemos sempre estar atentos, significa que a realidade é ainda pior.

A realidade é que todo o esforço iniciado nos anos 90 para travar uma espiral desastrosa anunciada muito antes (por pessoas consideradas maluquinhas na altura) e que culmina na consciencialização de todos os países do mundo para que se comprometam a reduzir (mesmo) as emissões GEE (mas lá para 2012..), NÃO CHEGA. 20 a 40% de redução de emissões não chega. Esverdear, mesmo que todos os produtos do mundo, não chega. Comprar um carro híbrido não chega. Comer biológico não chega. Substituir todas as lâmpadas da casa por económicas não chega. Mas porquê?, pergunta, exasperado, o recém eco-convertido.

A resposta está na dimensão do consumo e no mecanismo do mercado “livre”. Enquanto o consumo continuar a crescer (e os nossos governos rezam que sim, para poder dizer que a economia cresceu 2%), o impacto líquido do “esverdeamento” é muito modesto. Enquanto a economia se mantiver linear e opaca, não estamos a prestar nenhum serviço significativo nem aos nossos descendentes, nem aos nossos 4 biliões de conterrâneos pobres.

O que o mundo precisa é de abrandar. E não, isto não atira milhões de pessoas para o desemprego e pobreza (recordo que já lá estão). Porque podemos continuar a fazer produtos. Mas seriam produtos como este: one laptop per child, aah, este, sim, preenche uma necessidade! Podemos oferecer serviços em vez de produtos. Podemos voltar a trocar em vez de comprar. Podemos dar uma vida nova ao nosso “lixo”. Podemos partilhar em vez de possuir. Por trás de todas estas ideias ainda estão economias, e não obrigatoriamente comunas rurais. Talvez em vez de uma economia global, uma panóplia de micro-economias. E talvez em vez do objectivo clássico de maximizar o lucro para accionistas, teria como objectivo a inclusão e bem-estar de todos. É assim tão chocante?

Hoje, podemos começar por abrandar só uma semana. Depois digam-me se doeu muito.

4 comentários:

joana disse...

lanka e um post com propostas concretas
para uma slowdown week?
pode ser?

obg
joana

lanka4earth disse...

boa, isso mesmo. concretizar. agir. andar e fazer o caminho. mais que falar, fazer. duly noted.

FeminineMystique disse...

Talvez encontres ideias neste livro: "Parecon - life after capitalism" por Michael Albert.
http://www.zcommunications.org/zparecon/pareconlac.htm

Tiago R. disse...

Indo à raiz do problema:
É uma lei da economia que quanto mais capital é investido num determinado sector, mais baixa será a taxa de remuneração (lucro) desse mesmo capital.
Portanto, se o consumo não crescer, se não se encontrarem novos mercados e novos consumidores, as empresas verão os seus lucros a descer inexoravelmente.

Portanto o problema está para lá do consumo. O problema está mesmo na natureza do capitalismo.

Assim, uma "slow down week" sendo uma iniciativa positiva, como consciencialização, não vai, efectivamente resolver o problema de fundo.

Mas não deixa de ser útil chamar a atenção das pessoas!

++