terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Slow down, organize a street party

Meia-noite de Sexta-feira dia 25 de Janeiro. Yet another night no Bairro Alto. Os bares com autocolante azul transbordam, nos bares de autocolante vermelho formam-se multidões à porta, de copo de plástico numa mão, cigarro noutra. A demografia é de uma mistura pouco misturada de estudantes, publicitários, people from cinema, funcionários públicos, cotas, cromos, turistas perdidos, o ocasional vadio. O trânsito é previsível, de bar em bar, numa rotina preestabelecida por cada um dos grupos demográficos. Por acordo social silencioso, ninguém entra em discotecas antes das 3 da manhã, resultando em enormes engarrafamentos nos sítios temporariamente abençoados pela atenção dos fregueses e limitando brutalmente a liberdade de expressão corporal. O décor é de beatas, copos de plástico partidos, mijo, graffiti que não merece o nome, dealers nos cruzamentos das ruas. Entre os bares as ruas estão escuras e silenciosas. A quem não conseguiu estar bem acompanhado/a até às 5 da manhã, e depois de desbravado o desafio de entrar numa discoteca quando não se é people from cinema (são 10 euros, por favor), espera ainda uma hora humilhante de engate desesperado até às luzes ofuscarem o delírio e iniciar-se a caça ao táxi.

Mas eis que esta Sexta-feira a rotina da noite, que tem tanto de reconfortante como de deprimente, é rompida por tons de festa popular na tradição da música do Kusturica. De repente os grupinhos polvilhados e mutuamente exclusivos fundem-se num só: tornam-se o público de uma banda de fanfarra. A Rua da Bica enche à volta dos músicos e gere-se uma cumplicidade quase esquecida. A rua animou! Abrem janelas nos andares de cima de onde saem cabeças enfeitadas com rolos. Mas não chamam a polícia, hoje esboçam sorrisos. O público, habitualmente de trato recalcitrante, segue docilmente as instruções do animador da banda e a rua dança. A minha amiga lembra-se de solicitar uma serenata e toda a banda e o público que entretanto cresceu para centenas viram-se para uma senhora de uma certa idade à janela e cantam bésame mucho. A senhora brilha. A banda segue para uma digressão de horas pelo Bairro Alto, arrastando uma multidão fascinada atrás de si. Não sem os seus perigos (o entusiasmo e a excitação desmedida confundem-se a certa hora, sobretudo quando se está a menos de um metro da banda), a iniciativa resulta no entanto numa noite refrescantemente diferente para o velho bairro.

A mim encheu-me o coração. Fez-me lembrar as festas de rua, e de bairro, de cidades como Amesterdão, Londres, Barcelona, umas legais, outras menos (Reclaim the streets), todas legítimas. Nada bate esta sensação de comunidade que renasce quando as ruas são devolvidas às pessoas. Despidos dos artifícios do status, sem o nosso carrão, fora da nossa casa estilosa, somos todos vizinhos e podemo-nos entregar sem reservas à festa.

Sr. António Costa, queremos festas de rua. Acabe com a parvoíce do Terreiro do Paço desertificado no Domingo e feche antes a Baixa, o Chiado ou a Avenida da Liberdade. Ou, que tal num acto de verdadeira coragem renovadora, fechar o centro inteiro? Bora baixar os índices de partículas no ar durante uns dias por ano. Bora retomar as ruas.


A banda: Farra Fanfarra

2 comentários:

José dos Santos disse...

Eu apoio!
Quem anda por Barcelona no bar-em-bar pelo Raval, sabe que tens razão.
Com o tempo que temos em Lisboa, mais razão tens.
Ainda por cima agora com a impossibilidade de se fumar em espaços fechados e como os nossos amigos e amigas mais interessantes fumam, estar cá fora acaba por ser uma inevitabilidade.
Já agora, quem está a pensar em equipamento urbano para aguentar todo o fumo e consumo de álcool na rua?
Lanka for President!!

eubbl disse...

Lisboa nasceu para ser assim. com o seu charme natural, na sua magia perdida, na geografia que dá luta mas permite sentarmo-nos no chão, na sua honestidade saloia, no ser lisboeta, ou não, tanto faz... no seu clima que está quase perfeito, nos pássaros que cantam logo às 4h am... "Nada bate esta sensação de comunidade que renasce quando as ruas são devolvidas às pessoas. Despidos dos artifícios do status, sem o nosso carrão, fora da nossa casa estilosa, somos todos vizinhos e podemo-nos entregar sem reservas à festa"...vamos de banda, de fado, de rock, de nós próprios.