quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

'Bora substituir os epítetos Eco, Verde e Bio?

Em resposta a comentários, publicados ou não, explicitados ou não, sobre o uso, apropriado ou não, da palavra "eco-cidadão", gostava de dar uma explicação e logo depois, para compensar ;), deixar alguém infinitamente mais entendido falar. Segue abaixo o link para o blog do George Monbiot, um autor que faz o que escreve. E escreve muito bem.

Reflecti bastante antes de usar o epíteto "eco". Afinal a minha intenção é de refrear o consumo, não simplesmente substitui-lo por um consumo chamado "verde" ou "ecológico" (ou pior, segundo o Monbiot, somar "eco-junk" ao meu consumo normal). E optei por usar "eco" por (ainda) não ter encontrado uma alternativa entendível.

Mas é de facto um epíteto cansado, ultrapassado e muito susceptível de abuso, tais como os adjectivos "verde" e "bio". Suspeito também que falte pouco para o cansaço atingir a palavra "sustentável", com pena minha, pois ainda queria fazer tanta coisa sustentável.
Urge uma requalificação nominativa dos produtos, soluções, práticas de gestão e tecnologias que reclamam estes títulos. São verdes porquê? Porque não foram criados com pesticidas nem adubos sintéticos, no entanto viajaram 3.000 km's para aterrar nas nossas prateleiras e saem da loja num saco de plástico? Porque permitem diminuir o uso de petróleo (híbridos) no entanto ainda são pesados, carregados de peças não-recicláveis e usam um motor de combustão ultrapassado (e serão ocupados a maior parte do tempo por uma única pessoa)? Porque contêm mel natural (!) a contrabalançar os efeitos dos parabenos (ui)?

Os exemplos do paradoxo verde abundam e é quase caso para ficar seriamente eco-bloqueado ou fugir para um mosteiro no Tibete. E isso não é bom. Precisamos de toda a gente no seu perfeito juízo para operar profundas mudanças na nossa sociedade. Por isso tenho algum cuidado em rejeitar as eco-iniciativas, a menos que esteja na vista que se trata de uma fraude ou de uma perversão do objectivo. Porque é preciso criar adesão, e algumas iniciativas ajudam a passar alguns conceitos básicos, operando um início de mudança de mentalidade. Mas é tramado. É uma linha ténue entre tentar penetrar o mercado convencional, seguindo por isso as suas regras mas eventualmente chegando a mais pessoas e estar a fazer um desfavor à causa do nosso planeta. E não chega.

Ofereço um café (normal, num sítio provavelmente não-fumador) a quem me faça chegar um tesauro de epítetos para soluções sustentáveis que incorpore o máximo de critérios possível e permita uma classificação.

agora vamos ao link:

Green consumerism will not save the biosphere

6 comentários:

FeminineMystique disse...

Sinceramente, não sei qual a resposta à tua pergunta.

Confesso que na expressão eco-cidadão incomoda-me mais o cidadão que o eco.

Expliquem-me o que tem um cidadão que uma pessoa não tenha. Expliquem-me o que é cidadania, o que tem a mais que os direitos de uma pessoa não contemplem. Expliquem-me o que é cidadania social, quase uma variante do "eu vi, claramente visto" do Camões...

Concordo perfeitamente com as tuas preocupações com o eco/bio/verde/sustentável. São etiquetas que dão para tudo. É um carro que polui menos 5% - é sustentável! É um saco de plástico que se degrada em 500 anos em vez de 1000 - é ecológico!

Há uma usurpação destes termos, não só porque muitas empresas descobriram facilmente como fazer "greenwashing" mas também porque estes termos nunca foram muito claros.

Não acho que a coisa passe por agora entrar em definições, mas, como dizes, há que saber o que está por trás do eco-verde-bio-sustentável de uma qualquer iniciativa, produto, serviço.

Assim, não há nada como nos informarmos bem sobre o que consumimos, o que comemos, vestimos, etc. E acima de tudo reclamar para nós aquilo que sempre fomos - PESSOAS - e não apenas consumidores ou cidadãos (o que quer que isso seja).

lanka4earth disse...

Ora então, estamos num exercício de metafísica! Embora a palavra consumidor me arrepie mesmo, pois reduz-nos a um pilar de uma economia sustentada em "turn-over" rápido, já a palavra "cidadão" para mim é portadora de uma mensagem positiva. Enquanto as pessoas têm os seus direitos (em teoria) consagrados na declaração universal dos direitos do homem, os cidadãos para além de direitos têm deveres. O dever de respeitar o que foi convencionado entre nós nas sociedades democráticas. O dever de votar para garantir a representação de vontades diversas. O dever de denunciar e corrigir acções que lesem o bem comum. O dever de substituir os nossos representantes quando fazem mais mal que bem. Etc. Eu abraço estes deveres do momento em que aceito viver em sociedade. Considero ser cidadão como uma profissão. Tal como todas as profissões pode ser ensinada. Deve ser ensinada. É a profissão com mais saída, pois é a que mais diferença pode fazer no nosso bem-estar! Até deveria ter uma ordem ou várias ordens.. A ordem dos cidadãos de Portugal, a ordem dos cidadãos de Lisboa, a ordem dos cidadãos europeus.. As pessoas têm direitos, os cidadãos têm deveres. Sou pessoa e cidadã. Não é a mesma coisa.

FeminineMystique disse...

Discordo da tua divisão entre cidadão e pessoa ser feita com base na dicotomia deveres e direitos. Uma pessoa tem tanto de direito como de dever.

O cidadão não sei. A julgar pela definição da wikipedia (http://pt.wikipedia.org/wiki/Direitos_pol%C3%ADticos), tem directamente a ver com direitos políticos. (Aliás, quem começar por procurar cidadania é encaminhado para direitos políticos).

Assim, parece-me mais que cidadão é uma versão light da pessoa. Ainda pior, é uma pessoa a quem só é permitido o exercício dos seus deveres e direitos num determinado contexto político, sem que este seja questionado.

Para mim, é uma versão reformista dos nossos direitos de alterarmos a sociedade em que vivemos.

É ir votar de 4 em 4 anos.

É aceitar as poucas possibilidades/meios de participação que nos oferecem, é termos a nossa opinião ouvida sem que seja tida em conta...

Antes de ser cidadã, sou pessoa.

lanka4earth disse...

Ok, confesso que a minha interpretação de cidadania transcende a definição tecnocrata e pressupõe não só uma ética cívica como também a participação prevista nos tempos de Platão: "The first form of citizenship was based on the way people lived in the ancient Greek times, in small-scale organic communities of the polis. In those days citizenship was not seen as a public matter, separated from the private life of the individual person. The obligations of citizenship were deeply connected into one’s everyday life in the polis. To be truly human, one had to be an active citizen to the community, which Aristotle famously expressed: “To take no part in the running of the community's affairs is to be either a beast or a god!” This form of citizenship was based on obligations of citizens towards the community, rather than rights given to the citizens of the community. This was not a problem because they all had a strong affinity with the polis; their own destiny and the destiny of the community were strongly linked. Also, citizens of the polis saw obligations to the community as an opportunity to be virtuous, it was a source of honour and respect. In Athens, citizens were both ruler and ruled, important political and judicial offices were rotated and all citizens had the right to speak and vote in the political assembly." in wikipedia
Mesmo politicamente, o conceito de cidadão está a voltar para o seu sentido original. Neste momento, todos os cidadãos de um país da UE já são cidadãos da UE e podem votar localmente e nas europeias. E podem fazer pressão ao nível da União Europeia. Estamos a encaminharmo-nos para a cidadania global. Como pessoas há poucos que sentem que têm deveres (mas direitos, sim!). Os virtuosos são raros. Convencionar os deveres ajuda a mobilizar. Mas se entretanto inventarem uma declaração universal dos deveres do homem, vou com o termo "pessoa" na hora..

FeminineMystique disse...

(parece que este diálogo vai durar...)

não acho nada que haja assim tanta gente a achar que só tem direitos e não tem deveres. e mesmo que haja, porque não ir à raiz da coisa?

Porque é que eu hei-de achar que é meu dever respeitar o próximo (e.g., o carro) se este não me respeita enquanto peão?

Porque é que eu hei-de ficar contente com as migalhas que me dão se os impostos que pago não se reflectem inequivocamente em melhores condições de vida?

Porque é que eu hei-de ser leal ao meu patrão se este na hora H não me renova o contrato por causa dos encargos sociais que daí advêm?

"Neste momento, todos os cidadãos de um país da UE já são cidadãos da UE e podem votar localmente e nas europeias." - e todos aqueles que cá vivem (na UE) e não são considerados cidadãos? Continuam a ser pessoas, mas é como se não existissem...

Pressão ao nível da UE?! Deves ter a maior parte da população europeia a favor da realização de referendos nacionais à ratificação do tratado europeu e nem metade dos países deve estar para aí virada...

lanka4earth disse...

no fundo, o que tu esperas de uma pessoa, eu espero de um cidadão. são todos pessoas, ergo estamos a falar da mesma coisa. falo em cidadão para destacar aqui uma faceta da pessoa relacionada com a sua inserção na sociedade, no sentido mais lato do termo, e apelar à acção. acção para incluir pessoas que ainda não são cidadãos. acção para garantir que os impostos são gastos equitativamente. acção para proteger o peão. acção contra a fuga aos impostos. peço isto a pessoas, mas dou-lhes um título, cidadão. perguntaste o que um cidadão tem que uma pessoa não tenha. é ao contrário: a pessoa é maior que o cidadão, é espiritual ou não, é mãe/pai, homem/mulher, amigo/amiga, tem gostos, desgostos, ambições, etc. mas se eu tivesse que colocar um anúncio de emprego para um cidadão, não colocaria estas dimensões tal como na Inglaterra não especificam nem sexo, nem idade, nem raça, apresentava o que eu esperava da pessoa que desempenhasse a função de cidadão.