quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Hazy shade of 2009

As I suffer through the last days of 2008 I'm strangely drawn to a 1966 song. Is there a message? There's always a message. Hit it, Paul. 

small curious note: when The Bangles did a remake of the song, they were forced to remove the line about the vodka and lime.. in 1987.. hmm.. only in America.


Time, time, time, see what's become of me
While I looked around
For my possibilities
I was so hard to please
But look around, leaves are brown
And the sky is a hazy shade of winter

Hear the salvation army band
Down by the riverside, it's bound to be a better ride
Than what you've got planned
Carry your cup in your hand
And look around, leaves are brown now
And the sky is a hazy shade of winter

Hang on to your hopes, my friend
That's an easy thing to say, but if your hopes should pass away
Simply pretend
That you can build them again
Look around, the grass is high
The fields are ripe, it's the springtime of my life

Ahhh, seasons change with the scenery
Weaving time in a tapestry
Won't you stop and remember me
At any convenient time
Funny how my memory slips while looking over manuscripts
Of unpublished rhyme
Drinking my vodka and lime

But look around, leaves are brown now
And the sky is a hazy shade of winter

Look around, leaves are brown
There's a patch of snow on the ground...

written by Paul Simon, performed by Simon & Garfunkel (1966)

terça-feira, 25 de novembro de 2008

C-days: To be continued

No dia 20 de Novembro iniciámos no Centro Social da Mouraria o ciclo de encontros e conversas C-days (C de comunidade, civismo e cooperação) com o tema 'A Comunidade que se faz na Rua'.

Apareceu um público animado que nos ajudou não só a dinamizar a conversa sobre a Rua - desde Ruas apropriadas por actividades menos amigas da Comunidade como é o caso do tráfico de droga na Mouraria a Ruas centralizadoras da vida do bairro e extensões apetitosas do nosso espaço privado - como também a tecer novas temáticas comunitárias. Ouvimos os testemunhos sentidos dos educadores de rua da associação Conversas de Rua e os alertas para outros inimigos da comunidade como o carro, o betão e os espaços comerciais disfarçados de espaços públicos, do especialista em mobilidade, Mário Alves.

Ficam aqui algumas sugestões para quem quiser pegar e activar um próximo encontro C-day, pois a sua (des)organização está aberta a todos os participantes: 

- Workshop para explorar a arte como meio de reconquistar espaços públicos e juntar as pessoas de uma comunidade (houve excelentes exemplos dados pelo Mário Alves).
- Case study Mouraria: um encontro de trabalho ao ar livre neste bairro sofrido, criando por exemplo canteiros, bancos ou outro equipamento urbano que possa melhorar nem que um pedaço desta comunidade.
- Como formar/educar uma comunidade problemática para tomar conta de si própria?


Para se inspirarem mais e juntarem-se à conversa, vejam The C-days

saudações comunitárias

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Orçamento Participativo da cidade de Lisboa - 2ª Fase

Até ao dia 14 de Novembro consultem as propostas apresentadas e votem nas 3 propostas que gostariam de ver inscritas no Plano de Actividades da CML para o ano de 2009.
Este ano podemos decidir sobre 5 milhões. Para o ano, talvez já sejam 10. É um começo! E falando de experiência, quando se apanha o gosto da participação, rapidamente nos vai apetecer envolvermo-nos em todos os milhões de tostões que fazem operar esta cidade :-)

Orçamento Participativo

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

The Agenda elects Obama


The Agenda allowed Obama to get elected for reasons that have absolutely nothing to do with what motivated voters to tick Obama's checkbox. But despite my professed reservations, I do have a secret hope, and with me millions of people, that Obama is more than the Agenda, although we won't see this as soon as we'd like. 

For now, I joined other members of Avaaz in congratulating Obama and reminding him of 10 promises he made that affect the world. They seem obvious and no more than common sense but haven't been on the American agenda for 8 years..

· Reduce the US's carbon emissions 80% by 2050 and play a strong positive role in negotiating a binding global treaty to replace the expiring Kyoto Protocol.
· Withdraw all combat troops from Iraq within 16 months and keep no permanent bases in the country.
· Establish a clear goal of eliminating all nuclear weapons across the globe
· Close the Guantanamo Bay detention center
· Double US aid to cut extreme poverty in half by 2015 and accelerate the fight against HIV/AIDS, tuberculoses and Malaria
· Open diplomatic talks with countries like Iran and Syria, to pursue peaceful resolution of tensions
· De-politicize military intelligence to avoid ever repeating the kind of manipulation that led the US into Iraq
· Launch a major diplomatic effort to stop the killings in Darfur
· Only negotiate new trade agreements that contain labor and environmental protections
· Invest $150 billion over ten years to support renewable energy and get 1 million plug-in electric cars on the road by 2015

terça-feira, 4 de novembro de 2008

C-Days – encontros sobre a nova comunidade


Cidadãos com temas comunitários quentes, precisem-se! Venham dinamizar um C-day!
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Enquanto a sociedade moderna treme pelas bases e os gurus convencionais assumem não ter uma resposta pronta, todas as nossas maneiras de produzir, trabalhar, aprender, viver e sobretudo consumir dos últimos 50 anos estão a ser postas em causa. Na digestão de crise após crise a abertura a modelos alternativos de gestão do bem comum nunca foi tão grande. Parece que a inovação social deixou definitivamente de se limitar a desenhar soluções para os problemas sociais politicamente correctos como as desigualdades, o desemprego, a exclusão ou o envelhecimento da população e começou a infiltrar-se em áreas mais incómodas e até agora pouco liberadas como a propriedade intelectual, a produção alimentar, a publicidade, a educação, a saúde e mesmo a ciência e os modelos de mercado.

Será que já podemos falar num quarto sector? Onde os formatos mais institucionais de acção do Estado, Empresas e ONGs são rejeitados ou reinventados? Onde o envolvimento nas nossas comunidades deixa de ser uma vocação ou uma carreira mal-remunerada para se tornar natural? Onde os cidadãos retomam as rédeas da sociedade e exigem serem co-gestores do seu destino comum? Onde a república volta a ser a Res Publica (‘coisa pública’, a não confundir com os republicanos americanos)?

A série hibernal de encontros C-days pretende explorar as potencialidades da cidadania activa, os formatos emergentes de organização mútua e os contornos de um novo sentido comunitário ou até mesmo uma nova concepção social, enquanto paralelamente espera ajudar a capacitar redes sociais informais que se baseiem na troca e colaboração para realizar projectos comunitários.

A arrancar ainda em Novembro, pretendemos organizar sessões temáticas mensais a culminar numa maratona de dois dias na Primavera onde os melhores temas serão apresentados e objecto de uma reflexão mais ambiciosa em simultâneo com minimercados de troca, oficinas e diversões.

Como se trata de inovar, queremos que seja a comunidade a propor e dinamizar cada um dos temas. Faremos sessões preparatórias com os dinamizadores interessados para estendermos, para além da nossa imaginação imediata, os formatos de comunicação e aprendizagem nos encontros C-days, com base na diversidade, na tolerância e na participação. Os interessados a dinamizar um tema nos C-days são convidados a enviar uma breve descrição do tema e proposta de formato até dia 10 de Novembro para o email thecdays@gmail.com

O primeiro C-day está previsto ainda em Novembro, no Centro Social da Mouraria. Haverá uma primeira sessão preparatória com todos os potenciais dinamizadores na semana de 10 de Novembro.

Acreditamos que os ingredientes essenciais para a inovação social são o conhecimento e o capital relacional. Quando as pessoas se juntam passam a ter acesso abundante a estes recursos e acendem o rastilho da mudança.

Exemplos (de todo exaustivos!) de temas: hortas comunitárias, sistemas alternativos de mercado, a mobilização e capacitação dos cidadãos, a livre formação e educação, voluntariado e comunidade, cooperativas, ..

All hail the new President of Hollywood

We Europeans obviously have our slumbering doubts about how democratic Americans really are. But how easy it is, each new election (or invasion for that matter), to forget the issues and get wrapped up in the Hollywood story that is spun for us on every channel and in every newspaper. Although in Europe we're spared the gorier details such as Sarah Palin lookalike contests, close-ups of creepy Joe the Plumber, Obama raps or scary Babies for Obama and though we only suffer through about 5 minutes a day of campaign news, we're still cooperative victims of disinformation. A quick poll in the Netherlands showed that most Dutch were blindly enthusiastic about Obama and had absolutely no idea he actually supports continued military action in Afghanistan and Iraq, believes in the death penalty, will renew the infamous Patriot Act that strips citizens of their right to habeas corpus, believes in 'clean coal' like Palin believes in creation and supports the bailout of private institutions with taxpayers' money.

McCain and Obama did not discuss any issues. Nor did they propose any new models. They merely performed a beautifully choreographed duet on how America would continue to run the world. They stuck to the Agenda. Because the Agenda is bigger than they are, because the Agenda works for both democrats and republicans, let's face it; it works for the whole damn world. And it's a private agenda with a corporate stamp. It's completely unimportant who wins, as long as it's either Obama or McCain (but I secretly believe the agenda supports Obama, as long as he behaves, after all a black president constitutes a brilliant front). 

There are actually 10 candidates competing, but does anybody really know this? Does anybody care? I sifted through all my bookmarks of so-called independent newspapers and websites, and guess what? Not!

Even the culture jammers are eerily silent.. Seems everybody is praying for it to be over with so they can all go back to business as usual. Fear is reigning beneath the election buttons and banners. Fear that votes will be tampered with. Fear that the financial, now economic, crisis will escalate while America switches presidents. Fear that someone will assassinate Obama. Fear that McCain spontaneously dies after one day in office and Mrs Alaska steps up to run the country. Fear of Iran, peak oil, expensive hamburgers, terrorists and socialists. Fear, fear, fear. And, as anyone who has read the Shock Doctrine knows, fear is how you enforce the Agenda.

I finally found three or four Americans who care about issues. Would've been five if George Carlin hadn't died. (If any American thinks I'm being unfairly cynical, you're welcome to flood my email with real issues. We've got about twenty hours until the polls close.)



Comment on Current TV by citizen JanforGore:
"Actually, there are ten candidates going into the 'final day.' I love how people just pick up on the MSM BS and continue to just talk about only two as if that is acceptable. I actually listened to a debate last night between three of the VP candidates which included Matt Gonzalez who is Nader's running mate, and a Mr. Castle who is running with Chuck Baldwin, and a Mr. Root who is running with Bob Barr. Now while I would not vote for either Castle or Root, it was one of the most exciting VP debates I have listened to in many years, and firmly believe that had they been included with Biden and Palin that they would have blown them away... of course, that is why they are excluded from the socalled "Democratic" process in this country.

I find it hard to imagine that people who come on these sites who claim to believe in that process aren't at least outraged on principle that other voices are deliberately being stifled and kept off state ballots simply because they might actually give the two moneyed parties some competition and make them actually have to tell us something.

So yeah, Obama and McCain are going into the 'final day' and we know one of them will 'win', and actually who it is already as the media that really picks the president has already told us Obama won. How exciting. So why vote right? Those who are truly exercising their rights under this "Democratic" system are considered nonAmerican anyway if they aren't voting for the "popular" one. So yes, one more day... One more day until I vote for someone who isn't part of the very status quo hypocrites in this country claim they want a "change" from."

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Orçamento Participativo da cidade de Lisboa

Até 24 de Outubro todos os munícipes de Lisboa são convidados a eleger as suas prioridades para o plano anual de actividades da cidade. Não só é uma excelente maneira de ficar a par da realidade da gestão da cidade, como constitui uma plataforma para todos os que habitualmente não têm voz de a fazer ouvir e como bónus ainda podemos votar nas melhores propostas entre 8 e 14 de Novembro. Não se queixem, proponham, aki!

Para além de propostas mais concretas para as áreas de protecção ambiental e espaços verdes, tais como a gestão fechada dos fluxos de resíduos em Lisboa (criando um sistema de reciclagem ambicioso que contempla lixo biológico e águas cinzentas mas também produtos em segunda mão e o aproveitamento dos desperdícios alimentares diários), a promoção da agricultura urbana, a limitação drástica da circulação automóvel no centro e em Monsanto, a implementação de medidas de acalmia de tráfego e a mudança do mix energético da cidade (40% renovável em 2020), sugeri ainda a aliança criativa que segue abaixo.


Área de intervenção: Urbanismo e Reabilitação Urbana

Elejo o planeamento urbano e em particular a reabilitação urbana como área de intervenção prioritária para a CML em 2009. Aproveitando o conhecimento adquirido nos numerosos estudos levados a cabo no âmbito da estratégia para Lisboa 2012 e da revisão do PDM, proponho uma aliança entre sociedade civil, comunidade científica, autarquia e governo para trabalhar a dois níveis em paralelo: traçar um novo rumo para a cidade e definir prioridades e soluções práticas para a reabilitação urbana.

Sem um plano para Lisboa vamos continuar indefinidamente com mais do mesmo, uma cidade refém dos interesses económicos e de um padrão de vida ultrapassado e insustentável com uma autarquia que só reage aos acontecimentos, limitando-se a aplicar pensos em feridas pustulentas enquanto abre novas feridas em zonas virgens. Temos que decidir que cidade queremos, não para o ano, mas daqui a pelo menos 20 anos, incorporando na nossa estratégia as condicionantes de um mundo em crise, sabendo que nessa altura 80% da população mundial viverá em cidades.

A nova cidade ideal prevê-se compacta, com ocupação plena e de elevada rotatividade privilegiando o regime de arrendamento, com os seus antigos subúrbios promovidos a novos núcleos urbanos, rurais ou mistos com uma gestão própria. Ela terá um baixo consumo de energia, uma mobilidade limpa e pouco intrusiva, uma ponderação vida-trabalho-comunidade saudável, um ecossistema equilibrado gerido sob a norma zero-resíduos e onde a agricultura ocupará novamente um lugar proeminente.

Esta ou outra visão para Lisboa deve ser debatida e partilhada por todos os interessados, sendo que nenhuma entidade deve ter uma voz mais alta. Pelo contrário, para o planeamento de intervenções muito localizadas, deve ser dada a primazia aos residentes/utentes da zona em questão. A cidade do futuro será novamente gerida pelos seus cidadãos como na Roma antiga, pois só nos empenharemos no bem comum quando partilharmos a responsabilidade pelo bem-estar da nossa comunidade garantindo consequentemente também o nosso bem-estar.

Proponho assim, no âmbito da elaboração da revisão do PDM e de qualquer um dos planos de reabilitação urbana/urbanização de Lisboa, que se criem com urgência comissões representativas de todos os estratos sociais de Lisboa: moradores, comerciantes, pequenos empresários, universitários, associações culturais, sociais e ambientais,.. com a regra de uma pessoa - um voto. Equipas técnicas compostas por técnicos da câmara e especialistas independentes ficarão incumbidas de apoiar as comissões, fazendo a ponte com as autoridades e ajudando a navegar os trâmites legais, científicos, técnicos e sociais para poder chegar a propostas concretas. Se para o debate do PDM as comissões devem ser as mais transversais possíveis, para o debate das intervenções locais elas devem ser compostas em pelo menos 50% por residentes locais.

É minha esperança que ao fomentar o envolvimento activo da sociedade civil possamos gerar uma nova dinâmica na gestão desta Lisboa sofrida, incorporando valores que se sobrepõem aos habituais economicistas: o sentido comunitário, o respeito pelo equilíbrio ambiental e da vida e a criatividade. Criatividade essa que poderá conseguir o que nenhum orçamento conseguiu até agora: meter as mãos na massa e resgatar a cidade, bairro a bairro, do abandono a que foi condenada.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Feed thyself II

Hoje celebra-se um daqueles dias cínicos e sem consequência. O Dia Mundial da Alimentação foi inventado nos anos setenta pela paliativa e impotente FAO, uma das organizações que se comprometeu a realizar os objectivos de desenvolvimento do Milénio, e que se juntará ao seu falhanço em 2015.

No vigésimo nono dia mundial da alimentação estamos no pior ano em quatro décadas de ajuda alimentar e existem perto de um bilhão de pessoas malnutridas. Pior ainda, eliminámos nestas décadas muito prósperas para o mundo ocidentalizado habilmente todas as capacidades dos países menos desenvolvidos de se alimentarem a si próprios. Países que antes dos esquemas de (re)estruturação de dívida externa e liberalização do comércio que substituíram o colonialismo tinham recursos naturais suficientes para alimentar toda a população mundial (a calorias razoáveis). Hoje estes países, se querem comer, têm que nos comprar a comida a preços inflacionados - taxa especial de combustível, percentagem dos intermediários e remuneração dos especuladores incluídas - mesmo que esta comida venha das suas próprias terras, que entretanto foram privatizadas e já não lhes pertencem. Ou então esperam que chegue um contentor das Nações Unidas com comida comprada às mesmas empresas que controlam a cadeia alimentar com o dinheiro dos contribuintes por todo o mundo. E isso só se o contentor escapar às garras da elite do país em questão.

Ainda bem que os nossos conterrâneos pobres não vêem os milhões (sim) de toneladas de comida deitada fora todos os dias ora porque está 'fora de prazo', ora porque ultrapassa as quotas estabelecidas para controlar o mercado ou tão simplesmente porque nós, os mais prósperos, já não tínhamos apetite..

O homem e a mulher civilizaram-se a partir da produção de alimentos. Foi quando começámos a cultivar a terra que a história escrita iniciou. Dez mil anos depois é a partir do controlo da produção de alimentos que alguns homens e algumas mulheres excluem mais de um terço da população mundial desta civilização (todos os que vivem com menos de 2$ por dia).

A alimentação teve um impacto tal na evolução humana, que até gerou uma nova espécie: o Homo Obesus. São já mais de um bilhão 'and counting', ultrapassando largamente o número de Homo Famintus. Será que Darwin chamaria a isso o resultado de uma selecção natural? Ou estará este processo de selecção ainda em curso? Olhando para a esperança de vida dos obesos, em franca redução, escolho resposta ‘B’.. Que grande ironia essa de mais gente morrer de sobre-nutrição do que de fome.

Mas desenganem-se os que julgam que a obesidade é o preço a pagar por uma vida mais confortável. Contrariando a lógica, a obesidade e a fome partilham a mesma causa: a falta de acesso a comida saudável. O fast food já é mais barato do que os alimentos frescos e a obesidade deixou de ser o privilégio dos ricos para se tornar o novo flagelo dos pobres. Os ricos, incluindo os patrões de empresas como Monsanto, já adaptaram a sua alimentação e preferem a comida biológica, deixando os produtos de composição duvidosa que fabricam para o resto do mundo consumir.

O meu desejo para mais este Dia Mundial é que se desmantele de vez o mito da escassez e que enfrentemos as consequências de um mundo de abundância que é para a maioria dos humanos como a árvore de fruto foi para o Tântalo, fora do seu alcance. Com a diferença de que Tântalo foi condenado à sua condição por deuses enquanto os desafortunados modernos o foram pelos seus congéneres.

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

No dia Europeu sem carros, que tal um pouco de exercício.. de cidadania?

Vimos convidar a todos os e todas as Lisboetas para na próxima segunda-feira 22 de Setembro, dia Europeu sem carros, programarem o despertador para mais cedo e ao acordar (depois de um duche frio) fazerem o seguinte exercício*, acessível mesmo aos menos ginasticados:

- imaginem por um dia que não há carros (particulares), que as ruas, inesperadamente espaçosas e convidativas, aos cidadãos pertencem para nelas passear, conversar, namorar, brincar e festejar, que não há barulho nem poluição nem riscos de atropelamento ao virar de cada esquina, nem chicos e chicas espertos. A calçada parece novamente branca, nenhum detalhe desta bela cidade está escondido por baixo ou por detrás do habitual metal amontoado, as árvores respiram fundo e os pássaros cantam com a certeza de serem ouvidos. Por um dia, a cidade parece confortavelmente pequena e acessível e muito vivível. O que fariam?

Eu e a Ava já sabemos: vamos percorrer os 12,5 km desde Alfama até à escola de bicicleta..

..e vós, que transporte escolheis??

saudações citadinas

Lanka e Ava

*a câmara só vai fechar parte da Baixa, daí o apelo à vossa imaginação :-))

..mas tem algumas iniciativas interessantes.

domingo, 10 de agosto de 2008

sexta-feira, 11 de julho de 2008

Por um mundo livre de transgénicos

.. comecemos em Portugal. Amanhã, 12 de Julho, acção grande em Monforte, onde foram autorizados ensaios experimentais de milho transgénico em plena Rede Natura!

É um atentado à natureza, à soberania alimentar mas sobretudo um atentado ao direito de escolha. Ao autorizarem o cultivo de milho transgénico, com riscos de contaminação enormes (aliás, garantidos), deixa de ser possível confiar na segurança alimentar. 

Como centenas de casos de contaminação pelo mundo fora nos mostram (até em bancos de sementes ancestrais!), rapidamente toda a cadeia alimentar fica prejudicada e aqui não há volta atrás. A natureza procurará sempre um novo equilíbrio, mas pode não ser um equilíbrio que permita a sobrevivência da nossa espécie.. Em poucos anos podemos vir a eliminar a pouca biodiversidade que nos resta e estarmos sujeitos a pagar meia dúzia de empresas transnacionais cada vez que temos fome, pois são elas que detêm perversamente as patentes sobre a vida.

Juntem-se a esta causa, ela é central à luta pela soberania alimentar, ao combate à pobreza e à fome. Neste momento quem controla os transgénicos, controla a comida, pelo mundo fora.






quarta-feira, 9 de julho de 2008

G8 à mesa, 1 mundo com fome II


La Via Campesina Press Release
(Hokkaido, 9 July 2008)
The G8 is using the food crisis to promote their free trade agenda: Reacting to the G8 Leaders statement on Global Food Security issued last night in Hokkaido, Via Campesina farmer leader
Mr. Yoshitaka Mashima said: «We do not understand why the G8 leaders pretend to solve the food crisis with more free trade while it is the liberalisation of agriculture and food markets that continue to lead us to the current crisis. People need to eat local food to protect themselves from the instability of world markets. We do not need more imported food».

At a press conference today, farmers leaders said that the G8 governments were mistakenly using the current food and climate crisis to promote the free trade agenda that is serving large companies and not producers of food and consumers. The G8 leader's statement insists on reviving the agonising WTO negotiations and on preventing countries from regulating
food exports.

However, small farmers around the world, men and women, have experienced the devastating effects of free trade and WTO policies on livelihoods and local food production. They defend the right of countries to protect their domestic markets, to support sustainable family farmers, and to market food in the countries where it is produced. (..)

cont.: The G8 is using the food crisis to promote their free trade agenda

domingo, 6 de julho de 2008

Who resuscitated the electric car?


Quando os humanos querem, os humanos podem e mandam. Do momento em que uma nova via não só parece inevitável como até apetecível e '
trendy', saltam todos a bordo.


A subida inesperadamente acentuada dos preços do petróleo, a comercialização do combate às alterações climáticas e talvez até o cansaço de continuar a empacotar o mesmo motor de combustão ineficiente 100 anos depois do primeiro Ford levaram a que, tal como afirmei tentativamente em Janeiro, os carros ‘do futuro’ fossem apresentados já este ano ao mercado.

A Honda acabou de lançar o primeiro carro movido a hidrogénio (ainda a um custo proibitivo, mas para estimular o mercado eles estarão disponíveis em regime de leasing). As grandes marcas estão a atropelar-se uma a outra para introduzir carros eléctricos e híbridos ‘plug-in’. Na Holanda, um consórcio de uma empresa de energia e um fabricante de automóveis promete que em breve os utentes de carros eléctricos poderão ligar o seu veículo a fichas um pouco por todo o país e 'encher' o depósito com cerca de 3 euros.

Não se excitem demasiado, pois não se trata de nenhuma revolução. Os carros eléctricos que chegam agora ao mercado podiam ter sido lançados há 20 ou mesmo 30 anos, poupando centenas de milhares de milhões de emissões de CO2 (mais ainda se as centrais de energia tivessem sistemas de captura de carbono) e evitando a manta cinzenta de partículas que cobre a maioria das grandes cidades, causadora do aumento exponencial de alergias e asmas. Poucas pessoas saberão que há cem anos atrás, os carros eram eléctricos, que a célula de combustível que permite carros que não emitam mais que água foi inventado há mais de 160 anos, que o primeiro híbrido data de 1930 e que o estado da Califórnia tinha um 'zero-emission vehicle mandate' (ZEV) nos anos '90 que obrigou os grandes fabricantes a introduzirem carros eléctricos à pressa e com sucesso...

Como foi possível assassinar a tecnologia limpa de cada vez que ela aparecia para agora a abraçar? Muito simples. Depois de a Ford ter iniciado a sua produção em massa de carros com motor de combustão interna e depois de os americanos terem encontrado petróleo suficiente no Texas para alavancar a era do petróleo barato e do ‘urban sprawl’, o destino do carro eléctrico ficou selado. Na última tentativa de o introduzir, nos anos ‘90, o lobby sujo dos fabricantes de automóveis e da indústria petrolífera acabou por vencer novamente e o programa ZEV, que já tinha sido adoptado por outros sete estados, foi suspenso, sob pretexto federal de ser uma diligência ilegítima para regular o mercado da energia.

Pois era demasiado importante sacar primeiro todo o petróleo disponível na terra e queimá-lo. Um pouco de smog, ruído e efeito de estufa não podiam ensombrar um negócio tão lucrativo, onde tantos ‘players’ ficavam a ganhar. Em primeiro lugar a indústria petrolífera e petroquímica, a seguir os fabricantes de automóveis a quem bastava volta e meia re-estilizar um produto ‘cash-cow’ com uma tecnologia madura para continuar a encaixar, depois a indústria da construção que tinha pano para mangas com auto-estradas intermináveis e subúrbios cada vez mais extensos e ainda o governo que ganhava com os impostos e com os empregos criados, enfim, um modelo imbatível.

E agora... que o petróleo dos Estados Unidos acabou e que têm que travar guerras bilionárias para o assegurar, que os EUA e o Reino Unido gostavam de convencer o público a aceitar o carvão (lembro que nenhum destes países tem uma rede ferroviária de jeito), que o mercado de carbono passou os primeiros testes e parece ser lucrativo, agora sim torna-se interessante liderar uma pretensa revolução limpa nos carros e aproveitar a inexperiência do público para manter as indústrias fóssil, automóvel e de construção bem oleadas. A súbita promoção de 'carros verdes' pelos fabricantes de automóveis (a Opel, do mesmo grupo que matou o carro eléctrico nos anos ’90 – a GM -, até afirma escandalosamente de ter um Astra 'impacto-zero' que obviamente está longe de o ser, com emissões de carbono 50 gramas acima do novo target da União Europeia), e o facto de a produção de hidrogénio depender pesadamente do petróleo ou do carvão, leva-me a crer que vamos continuar a ver mais do mesmo mas com ainda menos transparência.

O futuro não terá carros a queimar petróleo. Mas, sob a legitimação de passarmos o carro a electrodoméstico gigante, vamos tentar continuar a entupir as nossas cidades com quantidades insustentáveis de veículos de uso pessoal, estender as zonas urbanas e as redes viárias até termos eliminado qualquer réstia de ruralidade e comunidade, erguer catedrais de consumo até cada uma só ter 10 clientes e entretanto queimar fósseis nas centrais até à última gota.

O renascimento do carro eléctrico não parece ser mais do que uma chicanice para prolongar indeterminadamente o ‘
business as usual’ de umas dezenas de multinacionais. Espero não ter razão.



Fontes:
Who killed the electric car? (doc e site)
History of electric vehicles
The end of suburbia (doc) e Escape from suburbia (a sequência)

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Declaração do Dia da Soberania Alimentar


G8 à mesa, 1 mundo à fome

pela soberania alimentar - um pedido de reviravolta no sistema global de produção de comida.


"A Soberania Alimentar é o direito dos povos, das comunidades e dos países de definirem as suas próprias políticas agrícolas, pastorais, laborais, piscatórias, alimentares e territoriais, que se adeqúem às suas circunstâncias ecológicas, sociais, económicas e culturais. Inclui o direito genuíno à alimentação e à produção alimentar, o que significa que todas as pessoas possuem o direito a comida segura, nutritiva e culturalmente apropriada, aos recursos para produzir alimentos e ainda à capacidade de auto-sustentarem-se a si e as suas sociedades.”

in Declaração do Fórum para a Soberania Alimentar, Roma, Junho 2002

Nos dias 7 a 9 de Julho 2008, os oito países mais ricos do mundo vão reunir em Hokkaido, Japão, para discutir as actuais crises alimentar, petrolífera, climática e financeira.

Para eles chegou o momento mais propício de sempre para implementar o que a autora Naomi Klein intitulou ‘capitalismo do desastre’ (1) . Com o mundo incrédulo perante o colapso dos mercados, e com mão-cheia de argumentos cuidadosamente preparados e disseminados há meses, os representantes destes países e os seus aliados intergovernamentais, o Banco Mundial, o Instituto Financeiro Mundial e a Organização Mundial do Comércio, para além do lobby das grandes empresas transnacionais, vão insistir em replicar a receita que envenenou o planeta: mais liberalização do comércio, a eliminação de qualquer réstia de política de protecção do mercado interno por parte dos países em desenvolvimento, a promoção intensificada de fertilizantes e sementes industriais, a aceleração da incursão de organismos geneticamente modificados, a industrialização da agricultura africana e um pouco mais de ajuda alimentar como paliativo para a exclusão crónica dos mais pobres do sistema alimentar.

Os espantosos aumentos dos preços de cereais estão no entanto completamente dissociados dos problemas apontados pelos governantes e analistas: uma agricultura insuficientemente industrializada, o aumento da procura de comida em países em crescimento, as alterações climáticas, o aumento da população e mesmo a produção do etanol. A produção de cereais conheceu um recorde absoluto o ano passado (2), o suficiente para alimentar o mundo mais de duas vezes se distribuído equitativamente (3), os biocombustíveis, certamente uma ameaça a breve prazo, ainda só representaram 5% da produção de cereais em 2007 (4); a produção de carne consome de facto um terço dos cereais e monopoliza as terras agrícolas e a água, mas só tinha aumentado 3% (5) e a procura de cereais para consumo aumentou exactamente um porcento desde 2006 (6).

Os cereais estão mais caros não porque há mais bocas para alimentar, mas porque há mais dinheiro a competir por eles, em mercados de futuros onde se aposta numa escassez vaticinada. A crise alimentar é o resultado de políticas nefastas implementadas desde os anos setenta pelos países ricos e não de uma falta de produtividade: as pessoas morrem à fome não porque não há comida, mas porque não a podem pagar.

Os G8 e seus aliados instalaram um sistema de produção e distribuição alimentar de alcance global que deu primazia ao lucro sobre as necessidades humanas e correu milhões de produtores das suas terras, minou irremediavelmente a produtividade do solo enquanto envenenou o ar e a água e condenou perto de mil milhões de pessoas à fome crónica e malnutrição. Fez depender 70% (7) dos países em desenvolvimento das importações de produtos subsidiados do Norte, enquanto retirou o apoio às agriculturas locais, arrasando assim os mercados dos pequenos agricultores, favorecendo as monoculturas para exportação e eliminando eficazmente a auto-suficiência de dezenas de países na produção de comida. Ao abrigo dos acordos bilaterais e das políticas impostas em troca do saneamento da sua dívida, os países em desenvolvimento ficaram à mercê das empresas transnacionais, sendo as suas políticas agrícolas e tarifas aduaneiras completamente desmanteladas. A auto-suficiência foi substituída por um sistema verticalmente integrado de produção, distribuição e especulação de comida, inteiramente privatizado e patenteado e nas mãos de poucas dúzias de empresas gigantes.

A comida é demasiado crucial para ser uma comodidade sujeita à volatilidade do mercado liberalizado, tal como a agricultura é demasiado essencial à governância do nosso planeta para ser gerida como uma fábrica de produção em série.

Em solidariedade com La Via Campesina, com aquela metade do nosso mundo que vive na ruralidade, e em nome da humanidade, subscrevemos as seguintes medidas de inversão do rumo traçado pelos G8:

- Um regresso à independência e auto-suficiência dos povos em matéria de produção alimentar com o direito de determinarem as suas próprias politicas agrícolas.
- Uma nova governância das terras que inclui sobretudo os que as trabalham.
- O fim da dependência dos químicos, monoculturas e de sistemas de produção intensivos.
- A desprivatização dos recursos naturais como o solo, a água e as sementes, proibindo os assaltos ao solo fértil e à biodiversidade, a bio-pirataria e as patentes sobre as formas de vida.
- O fim das politicas intergovernamentais que entreguem o controlo sobre a agricultura a empresas transnacionais.
- O cancelamento imediato da obrigação de importar 5% do consumo interno e das cláusulas de acesso desprotegido aos mercados dos países em desenvolvimento.
- Retirar a negociação sobre a produção e distribuição alimentar do foro da Organização Mundial do Comércio, do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional, regulamentando o comércio alimentar dentro de mecanismos internacionais genuinamente democráticos, respeitando a soberania alimentar de cada país.
- O fim da especulação em torno da comida.

O mundo seria capaz de se alimentar a si próprio desde que as políticas alimentares e agrícolas se baseassem em factos e não em mitos. Chegou o momento dos países mais ricos assumirem a responsabilidade pela crise que geraram. Chegou o momento da soberania alimentar.


(1) Naomi Klein, “The Shock Doctrine”, 2007
(2) FAO,
Abril 2008
(3) "
How we could feed the world"– World Socialist Movement, 2006
(4) FAO,
Abril 2008
(5)
World Watch Institute
(6) FAO,
Abril 2008
(7) Katarina Wahlberg, “
Are we approaching a global food crisis?”, World Economy & Development in Brief, Global Policy Forum, 3 March 2008

outras fontes:
FAO,
World Food Situation
Getting out of the food crisis'’- Revista GRAIN, Maio 2008
Making a killing from hunger” – Revista Grain, Abril 2008
Unnatural roots of the food crisis” - Gonçalo Oviedo in BBC news, Junho 2008
A response to the Global Food Prices Crisis: Sustainable family farming can feed the world.”- La Vía Campesina, Fevereiro 2008
FOOD CRISIS (Part Two): Capitalism, Agribusiness, and the Food Sovereignty Alternative” - Ian Angus in Socialist Voice, Maio 2008
Food Aid or Food Sovereignty? Ending World Hunger in Our Time” - Frederic Mousseau, Oakland Institute, 2005
Mere sticking plasters” - Kevin Watkins, The Guardian, 2 Junho 2008

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Trocas na Horta - 28 de Junho


No próximo sábado 28 de Junho a Horta popular da Graça, na Calçada do Monte, anima com mais um evento em prol da comunidade. Foram convidados os representantes de redes de troca como o Trocal, Banco do Tempo e Banco Comum de Conhecimentos, para depois do piquenique conversarmos sobre sistemas de troca e a capacitação dos cidadãos como possíveis soluções para a falência dos nossos actuais sistemas socio-económicos.

Trocos e trocados das 16 às 20 horas seguido de jantar popular e música no Centro Social da Mouraria.

Relembro que no mesmo dia decorre mais uma Maratona fotográfica de Alfama!


quarta-feira, 18 de junho de 2008

Bush Acknowledges Existence Of Carbon Dioxide

Não resisto.. uma das funções básicas do corpo humano é de rir, cá vai uma achega do 'The Onion', o jornal da comunidade americana de culture jammers. É de Dezembro 2007, mas não perdeu a graça.

Um excerto:

WASHINGTON—In an unexpected reversal that environmentalists and scientists worldwide are calling groundbreaking, President George W. Bush, for the first time in his political career, openly admitted to the existence of carbon dioxide following the release of the new U.N. Global Environment Outlook this October.

"Carbon dioxide, a molecule which contains one atom of carbon bonded with two atoms of oxygen, is a naturally occurring colorless gas exhaled by humans and metabolized, in turn, by plants," Bush told a stunned White House press corps. "As a leading industrialized nation, we can no longer afford to ignore the growing consensus of so many experts whose job it is to study our atmosphere. Carbon dioxide is real." (..)


:-D

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Collapse 202

Neste artigo (dica José Sousa) o Gonzalo Oviedo do IUCN explica numa linguagem muito clara porque é que a solução para a crise alimentar tem que passar pela mudança radical do modelo de governância das nossas terras agrícolas, zonas de pesca e sobretudo a nossa biodiversidade. Temos que desautorizar a pequena elite que controla a cadeia alimentar e devolver a gestão dos recursos comuns à maioria. 
O mundo só pode reconhecer que a industrialização e globalização da agricultura e da pesca e a chamada "Revolução Verde" para África foram um desastre para o planeta, destruindo 60% dos nossos ecossistemas e reduzindo a biodiversidade para além do regenerável. Três quartos da diversidade genética das culturas agrícolas já desapareceu, substituída por uns meros quatro espécies de plantas que constituem 50% da nossa dieta vegetal actual. 

Já vamos muito tarde. Mas isso não justifica fazer mais do mesmo. Parece-me de bom senso, antes de planear qualquer intervenção humana na natureza, de olhar para a estrutura ecológica onde esta intervenção se vai inserir. É a estrutura ecológica que deve ditar as regras e não o contrário, como as evidências de todas as nossas asneiras nos mostram, todos os dias. Não brinquem com a natureza. Observem as suas regras e usem-nas a nosso favor.  

terça-feira, 3 de junho de 2008

Feed thyself

The FAO Conference on World Food Security opened today in Rome. With few exceptions, most participants will rehash the fallacious arguments of Killer Biofuels, Luxurious Meateating in China and India, Poorer Harvests due to Climate Change (or simply Bad Weather) and Too Many Mouths to Feed. You and I know that biofuels, although truly a threat, actually only represented 5% of grain production last year (1), meat production, which yes, is a serious grain gobbler, increased 3% (2) while last year was an absolute record for grain production, up 5% at 2.1 bn tonnes (3), enough to feed the world almost twice over if rationally distributed (4).

The men and women that pull the strings in agribusiness and their institutional allies at the World Bank, IMF and WTO want to hypnotise us into solving the food crisis with the same means that caused them – heavily industrialised, monopolised and monocultural agriculture that is highly dependent on petrol and patents and liberalised trade and investment that has transformed food producing countries into food importing countries and took away land and markets from smallholder farmers. They’ll ask us to throw some more money at feeding the weakest of all (a typical neoliberal tactic to assuage guilt) without ever tackling the fundamental issues of our long lost food sovereignty.

The way out of the food crisis is in the opposite direction. It is to wrench food production and distribution from the greedy hands of agribusiness and speculators and hand it to those who respect the land, its fruit and its people. The way out is to say no to more trade liberalisation, more fertilisers, more GMO and more debt. It is to stop the land grabbing, dismantle food speculation, dismantle the food cartels, abolish seed patents and let farmers take care of the land again, in the name of food security, our tired soils and our long-suffering, contaminated biodiversity.

Even if you can't or don't want to lobby against the giants, there's a lot you can do to change our perverse model of food production and distribution. You can start by eliminating processed foods, going back to preparing food the way our grandparents did. You can found a cooperative and buy directly from farmers or fair trade. You can decrease your meat consumption. Best of all you could become a producer. Instead of grabbing a burger, grab a spade and start on that vegetable garden.

GRAIN July issue preview: Getting out of the food crisis

(1) FAO, April 2008
(2) World Watch Institute
(3) FAO, April 2008
(4) How we could feed the world

We are what we share... but should we share with billion dollar companies?

I deactivated (which doesn't mean delete, see '2504 steps to closing your Facebook account') my (largely unused) Facebook account and deleted all cookies on my browser. I also changed all my passwords. I'm looking into setting up my own site on a server I can reasonably trust and hook it up with an email address so I can get out of Google's clammy embrace. Finally I will carefully monitor the sites I'm registered at and make sure any info I share is not too sensitive. Despite my efforts a number of large companies, governmental organistions (guess who) and anonymous data hackers very probably have a lot more information on me than I can imagine. With data mining programs getting more powerful, Bush still in office, privacy issues being brushed off as anti-progressive and most users still happily accepting the unbelievable terms of service drawn up by the social networking giants, it's very easy to compile a profile on anyone who spends more than average time on the Internet. Do you know Google doesn't even have an email address you can complain to? You have to join a forum and get other users to help you! Facebook controls every bloody step you take, giving you wise advice at every corner ('you want to deactivate your account because it's not useful? try using some more of our features and get some more friends..'!!).

In Wired words: 'If we want an open social web, we're going to have to build it ourselves, using technologies that no one company controls.'
You decide (or maybe not):

quarta-feira, 28 de maio de 2008

this blogger went offline.


Um dia por Lisboa


Só posso apoiar qualquer iniciativa ou mesmo sinal da crescente tomada de consciência cívica colectiva, que até há bem pouco tempo era praticamente inexistente em Portugal, por isso em primeiro lugar quero louvar a organização do debate ontem no Teatro São Luiz, em torno da habitação em Lisboa.

Também, antes de chegar à parte da opinião da praxe própria de um blog unipessoal, faço o exercício de humildade, dando graças ao clima favorável à participação pública que nos permite hoje darmos a nossa intervenção como cidadãos em qualquer debate como direito adquirido e que aguça a nossa exigência quanto à qualidade das respostas que nos são dadas.

Dito isto ;-) e legitimando a minha exigência face à evidência da estagnação na revitalização da capital, considero que a plateia no debate, tanto do lado do painel, como do lado da audiência, foi perigosamente homogénea. É o problema da maioria das conferências e debates (e posso dizer por experiência própria que há muitos, quem tenha tempo pode assistir a um por dia): acabam por juntar pessoas que genericamente ou já estão de acordo ou sentem-se inibidas de falar por se conhecerem tão bem (o que é natural num país com uma elite pequena). Este pacto silencioso de não nos chatearmos demasiado uns aos outros mantém-nos num déjá-vu perpétuo das análises de causa e efeito e estrangula por completo a acção mas sobretudo a criatividade.

Mais uma vez, pode ser que eu tenha ficado blasé e por isso resistente à repetição dos conceitos loteamento, estudos, planeamento, reabilitação (esta palavra até já dá alergia), bairros históricos, estacionamento, transportes públicos, etc. Mas é que inevitavelmente o resto da frase que inclui uma destas palavras vai qualquer coisa assim: 'Deveríamos ter mais..' 'Podíamos ter menos..' O que eu gostava de ver em vez da regurgitação dos problemas são casos concretos, alguém ter pegado num bairro e começado a restabelecer o equilíbrio do organismo que é a nossa cidade (por acaso até há um exemplo bom da zona do Alto de Santo Amaro). De preferência alguém ou uma associação de 'alguéns' do terceiro sector, dado que o primeiro e segundo já provaram não ter juízo para gerir a cidade.

A elite de Lisboa está presa no paradigma neoliberal, numa profecia auto realizada, com, é verdade, uma crescente vontade e abertura para a acção, mas ao mesmo tempo uma paralisia de ideias que se vão repetindo com nuances meramente estéticas e contornos inevitavelmente economicistas. Numa semana é uma torre de 100 andares, noutra acaba-se com os eléctricos (imagina, empatam os carros), depois um dia alguém se lembra de um casino no Parque Mayer que vira casino na Expo porque ‘coitadinho do Stanley Ho, já lhe tínhamos prometido’, já tivemos a epifania da ponte da Baixa para o Castelo, recentemente ouvimos um ‘bora experimentar enterrar uma nova linha de comboio e matar Santa Apolónia, fala-se em tirar hospital, pôr hospital, arrasam-se hortas urbanas para acabar a CRIL antes que a Comissão Europeia a trave para poucas semanas depois anunciar um ‘parque’ de hortas urbanas e nasce uma terceira ponte que vai colar porque alguém teve a brilhante ideia de concentrar o debate numa quarta ponte, transformando a terceira em inevitabilidade. São tantas as diarrideias que uma ou outra vai escapando ao escrutínio público e cai sob o controlo do cartel imobiliário.

O que continua a faltar por completo é uma visão holística que insere o munícipe no seu bairro, o bairro na cidade, a cidade na região e no país e por fim no mundo. Uma visão que incorpora todos os membros e órgãos do organismo cidade. E não falo só dos habitantes nem tão só das suas casas e das estradas que as ligam. Falo da água que humedece e arrefece a cidade, das árvores que dão sombra, do solo não betonado que ajuda a trazer uma vida não-mecânica à metrópole. Falo de mercados, de percursos pedonais que ligam as sete colinas, de avenidas e praças animadas, de ruas sem carros onde as crianças podem brincar, de ter umas lojas ao pé de casa, de residências de estudantes polvilhadas pelo centro, de uma zona ribeirinha que não é um silo de automóveis ao ar livre com uma oferta de lazer escassa, cara e de má qualidade. Uma cidade que não se pode saborear nas ruas, a pé, cumprimentando o vizinho, não merece o nome (que deriva de ‘civitas’ ou cidadania).

Estamos há anos a planear e replanear Lisboa e a preparar propostas-lei, enquanto se continua a desbaratar impunemente o espaço público. Ainda não vejo fim à vista tão cedo.

Propunha por isso uma solução mais radical: congelem tudo. Não vendam mais terrenos da câmara, não emitam mais licenças de construção, não autorizem mais um supermercado que seja. E entreguem a gestão aos munícipes. Criem comissões de moradores apoiados pelos excessivos técnicos que existem na câmara, universitários e investigadores (de preferência estudantes e doutorandos e não professores catedráticos) e representantes de todo o tipo de associações cívicas e organismos não governamentais. Pequenas e médias empresas que operem num bairro podem enviar representantes também. Grandes empresas estão excluídas e os partidos não entram, para garantir que o cartel imobiliário não puxe nenhuma corda. Liguem estas comissões umas às outras numa comissão regional onde estão representados também os agricultores e agrónomos. Dêem-lhes poder para agir. Tenho um palpite que as soluções vos surpreenderão, pela sua criatividade, pela rapidez e pelo seu baixo custo.

A única maneira de quebrar o empate intelectual e o círculo vicioso em que se encontram as pessoas que ‘pensam’ Lisboa, agravado pela promiscuidade entre poder político e poder económico, é de dar a palavra a quem usa realmente o transporte público, a quem precisa da loja da esquina, a quem gostava de andar de bicicleta no centro, a quem tem o prédio a ruir à sua volta, a quem mais do que viver na cidade, vive a cidade.

Resultado do apelo dos Ambientalistas da Amadora: 9.000 árvores por 9.000 carros

(mail chegado hoje para todos os que colaboraram no apelo)

date 27 May 2008 14:58
subject Re: 9.000 razões para não usar o transporte público

Olá,

Obrigado por teres dedicado algum do teu tempo a escreveres aos responsáveis do Dolce Vita Tejo.

Gostaríamos de te informar que após dezenas de e-mails e duas notícias publicadas na RTP e no SOL, conseguimos ter uma reunião com o Director de Recursos Humanos e Desenvolvimento da Chamartín Imobiliária e dois consultores ambientais do projecto.

A reunião foi muito construtiva e esclarecedora. Foi notório o empenho e determinação para que o projecto possa minimizar e compensar os danos ambientais causados. Quanto às 9000 árvores, foi-nos dito que está a ser feito um estudo sobre o assunto e existe abertura para plantar o dobro ou mais se o estudo assim indicar. Não pretendem ficar apenas pelo simbólico de 1 árvore por lugar de estacionamento. Insistimos numa solução local, isto é, a plantação das árvores o mais perto possível do centro comercial. E de preferência árvores de fruto. Os parqueamentos para bicicleta estão já assegurados. Outras sugestões que fizemos: criação de ciclovias que liguem o centro comercial às localidades próximas, percursos pedestres com o mesmo objectivo, acessibilidade por transportes públicos, uma horta pedagógica no interior ou exterior do centro para fins de educação ambiental. Foi-nos dito que o centro terá painéis solares e aproveitamento das águas da chuva para rega.

Mais uma vez agradecemos o teu empenho e dedicação. Daremos mais novidades assim que as mesmas surgirem.

Ambientalistas da Amadora

----
to geral@dolcevita.pt
cc ambientalistas_da_amadora@aeiou.pt
date 21 May 2008 17:51
subject 9.000 razões para não usar o transporte público


Exmos. Senhores,

Tomei conhecimento do vosso projecto imobiliário para a Amadora, onde estão prestes a implantar o maior centro comercial da Península Ibérica.

Entre todos os benefícios por vós assinalados, o facto de possuir 9.000 lugares de estacionamento, alimentados por enormes redes viárias, parece merecer particularmente o vosso orgulho.
Lamento esta ênfase no uso do veículo particular, cada vez mais dúbio face às evidências dos efeitos da poluição do ar, água e sonora, dos gases com efeito de estufa e do entupimento dramático da cidade.

Venho por isso sugerir que a Dolce Vita empreenda acções de mitigação, e em última instância de compensação, do impacto ambiental e social deste centro comercial (gasto de energia e água, poluição directa e indirecta, perda de zonas de convívio públicas, diminuição do tecido empresarial convencional e engarrafamento das redondezas), tal como já é prática comum em qualquer empresa de dimensão considerável:

- Garantia de facilidade e promoção do uso dos transportes públicos para o CC.
- Limitação do número de lugares de estacionamento em prol de espaços públicos mais solidários.
- Reserva de espaços de estacionamento para bicicletas.
- Criação de um percurso pendular de e para o CC, um 'Bus Dolce Vita'.
- Criação de espaços verdes com razoável biodiversidade dentro e em redor do CC. Relembro que é perfeitamente possível criar ambientes vivos 'indoors'.
- Compensação dos efeitos indirectos dos lugares de estacionamento com a plantação de árvores na Amadora.
- Promoção de iniciativas para o bem comum na Amadora: criação de emprego, apoio ao empreendorismo, promoção de comida saudável nos restaurantes do CC, incentivos à reciclagem, divulgação da arte e cultura locais, etc

Certa de que o pensamento 'sustentável' já chegou à Amorim, subscrevo-me,

atentamente

Lanka Horstink
Alfama, Lisboa

segunda-feira, 26 de maio de 2008

27 de Maio: Um dia por Lisboa no teatro São Luiz


Cada vez mais casas, Cada vez menos gente
Teatro São Luiz, 27 de Maio de 2008

(mais) uma sessão cívica
"UM DIA POR LISBOA – Fazer e Não Fazer"

A sessão de dia 27 de Maio será dividida em 3 painéis, entre as 18h e as 23h. em que vão participar diversas personalidades:

18h – 19.30h - O despovoamento da cidade de Lisboa e a dispersão metropolitana
19.30h – 20.30h - Construção vs. reabilitação
21h – 22h - Imobiliário e direitos adquiridos vs. interesse público
22h – 23h - Debate institucional

Vão estar presentes entre outros:
Augusto Mateus, Manuel Graça Dias, João Cleto (Movimento Porta 65 Fechada), Luís Campos e Cunha, Leonor Coutinho, Carlos Pimenta, Isabel Guerra

Debate final

João Ferrão, Secretaria de Estado do Ordenamento do Território e das Cidades
Manuel Salgado, Câmara Municipal de Lisboa
Fonseca Ferreira, CCDRLVT
Carlos Humberto, Junta Metropolitana de Lisboa (e presidente da Câmara Municipal do Barreiro)

Moderação: Luísa Schmidt e Nuno Artur Silva

Mais informações através do contacto telefónico: 213 864 554

domingo, 25 de maio de 2008

Agronegócio: para onde vão as calorias?


Apenas cinco empresas controlam o mercado mundial de sementes, Monsanto incluída.
Quatro empresas dominam o mercado global de fertilizantes.
Quatro empresas processam toda a soja no mundo.
Três produzem toda a farinha.
E os três maiores comerciantes de cereais controlam efectivamente o milho mundial.
Nenhuma destas empresas é conhecida do público. São muito discretas (o termo menos eufemista seria secretas). Os interesses que as movem opõem-nas numa batalha desigual aos 1,3 bilhões de pequenos agricultores. 

Enquanto neste momento perto de um bilhão de pessoas (o que inclui muitos destes pequenos agricultores) passa fome, os lucros dos gigantes do agronegócio dispararam com a actual crise alimentar. Monsanto, BASF, Bayer, Syngenta, Dupont, Potash e Mosaic no sector químico e agroquímico (com aumentos de em média 90% nos lucros, segundo algumas fontes há empresas com 200 a 1200% de aumento!). Cargill, Archer Daniels Midland e Bunge no comércio de cereais (idem). E inevitavelmente conhecidos do público, Tesco, Carrefour e Walmart (o gigante absoluto) no retalho alimentar. Nestlé e Unilever, praticamente monopolistas para uma série de produtos alimentares processados, também apostam com sucesso na bolsa de cereais.

À boleia do IMF e do World Bank, os monstros agroquímicos e comerciantes de cereais (que normalmente controlam toda a cadeia: tanto compram como vendem cereais, dominando as bolsas de 'commodities', e adicionalmente fornecem os químicos e sementes necessários para a produção agrícola agressiva), instalaram-se nos países em desenvolvimento. 

Funciona assim: a troco de empréstimos, o IMF e o World Bank forçam estes países a abrir as suas fronteiras para produtos em regra americanos e em regra subsidiados, transformando 70% dos países em desenvolvimento em importadores de comida (quando muitos eram auto-suficientes). Esta imposta liberalização do comércio facilita o controlo por investidores dos recursos destes países, plantando monoculturas que são exportadas. O 'coup de grace' são as sementes geneticamente modificadas cujas patentes eliminam não só os pequenos agricultores como as variedades locais em dois tempos. 
Ah, ia esquecer-me das Fundações pretensamente samaritanas como Gates e Rockefeller, que 'investem' no que elas chamam a Revolução Verde para África exclusivamente com produtos biotecnológicos americanos que favorecem as tais monoculturas nas mãos de uns 'happy few'. Assim se completa o círculo: os três sectores (instituições de governo, empresas e os not-for-profit), de mãos dadas para controlar a cadeia alimentar global. Disse o Kissinger: 'Who controls food, controls the people'. É um esquema engenhoso, maquiavélico e com décadas que até à data não foi possível desmontar na opinião pública.

Estes esquemas maquiavélicos vivem do controlo do povo, dependendo sobretudo do contentamento da classe média. Porém agora a classe média começa a estar seriamente afectada pelos efeitos de décadas de políticas perversas de produção e distribuição alimentares. As consequências do seu desalento são por enquanto imprevisíveis.

Podíamos antecipar o futuro de modo a que ele seja menos dramático, agindo agora. Reconquistando a nossa soberania alimentar. Todos. Por todo o mundo. Por via de cooperativas, de hortas urbanas, de escolha selectiva na compra de produtos e pela pressão nos governos locais, nacionais e internacionais para acabar com os oligopólios no agronegócio e com a flagrante especulação financeira em torno de um bem essencial à vida, a comida.

Abaixo segue o que provavelmente é o único artigo entre centenas que lista os verdadeiros mecanismos por detrás da crise corrente. A maioria dos analistas, mesmo quando são críticos do agronegócio, assinala uns factores, esquecendo outros, e ninguém atribui o peso certo a cada factor, o que só ilustra quanta areia nos é atirada aos olhos.


Nota: 26 de Maio - há mais: vai aki o artigo de Ian Angus no Socialist Voice, traduzido para português. Extremamente completo e com todas as referências :-). in Investigando o Novo Imperialismo
Nota2: Há quem aproveite a crise para promover, sem dó e sem notas de rodapé, os OGM. Faz lembrar a tentativa do Patrick Monteiro de Barros. Aki in Diário de Notícias.
Nota3: 27 de Maio - um debate da BBC World muito interessante sobre a crise alimentar que junta à mesa um agrogigante, políticos, cientistas, o World Bank e o representante de 1,8 milhões de pequenos agricultores.

sábado, 24 de maio de 2008

Not my kind of saint – The world according to Monsanto

Gostava de dar a palavra a Marie-Monique Robin que num documentário recente desmonta corajosamente o embuste engenhoso e criminoso de uma das maiores empresas do mundo, a Monsanto. É muito provável que nunca mais venha a fazer um documentário subsidiado.. meteu-se com um gigante mais poderoso do que muitos estados.

A Monsanto é americana, tem mais de 100 anos, começou como fabricante de químicos e é actualmente líder em biotecnologia, controlando 70% das vendas mundiais de herbicidas e, incrivelmente, 90% dos principais organismos geneticamente modificados (o que deveria ser argumento suficiente para travar por completo a incursão dos OGM na Europa). Adicionalmente inventou o esquema brilhante e genocida de patentear sementes, estando assim muito bem posicionada para controlar toda a cadeia alimentar no mundo. Colecciona royalties de inúmeros países sobre toda a sua produção de cereais (mesmo que esta produção tenha resultado de uma contaminação transgénica e não de uma plantação propositada de transgénicos), obriga milhões de agricultores a contratos de compra anual de sementes a 4 vezes o preço de sementes tradicionais e quem tenha a ousadia de guardar uma semente que seja é impiedosamente perseguido pela ‘polícia de genes’.

Chocados? Há mais! Estamos a falar de quem inventou produtos tão letais e actualmente proibidos como Agent Orange (recordam-se do Vietname?), DDT’s e PCB’s (que continuam, 30 anos depois, a persistir em toda a nossa cadeia alimentar, aparecendo até no sangue dos ursos polares) e ainda a hormona de crescimento bovino (todavia usada fora da Europa e certamente presente em lacticínios e carne que compramos cá). Todos estes produtos provocam comprovadamente cancros fulminantes, doenças do foro imunológico, alterações hormonais e defeitos de nascimento. Só foram retirados do mercado quando o número de mortes começou a ser difícil de bagatelizar, deixando no entanto a Monsanto intacta e impune. A prova é que o seu produto bandeira, Round Up, continua a ser vendido, apesar dos seus contornos de serial killer: mata qualquer planta em minutos. Daí a brilhante ideia de desenvolver uma planta de soja geneticamente modificada para resistir aos efeitos do Round Up. A terra fica um mimo de limpeza, só mesmo soja encharcada de químicos a abanar ao vento. Nada de borboletas irritantes a voar pelo campo e mesmo os pássaros já perceberam que aquilo não é para comer. Ou é? Praticamente todo o gado no mundo inteiro come cereais geneticamente modificados..

O que o documentário nos ensina sobretudo, para além de dezenas de factos orwellianos, é que o modelo da Monsanto é incompatível com a própria vida, não obstante o seu lema eminentemente cínico ‘food, health, hope’. E que este modelo tem o apoio dos EUA e organismos aliados como o IMF, Worldbank, WTO e até a Agência Europeia para o Ambiente, que fecham os olhos a estudos claramente manipulados e sinais de crise nos países cuja agricultura já foi subjugada pela Monsanto, como a Índia (onde milhares de agricultores já se suicidaram, optando dramaticamente pela ingestão de um herbicida - o Round Up? -, incapazes de suportar o custo combinado das sementes transgénicas e químicos para controlo de pestes) e a maioria dos países da América do Sul. A estratégia é dantesca: a Monsanto sabe que é uma questão de tempo até todas as culturas estarem contaminadas com o pólen dos transgénicos, como já aconteceu nos EUA, o que constituiria um ‘fait accompli’, levando à resignação dos governos resistentes. Depois é só provar que as sementes e culturas contêm genes patenteados pela Monsanto e voilá, o mundo inteiro aos seus pés a pagar royalties. Que eles próprios e os seus descendentes correm riscos elevados de cancros fulminantes e outras mutações celulares num mundo transgénico, ainda não os parece preocupar tanto como a maximização do seu lucro.

Não é então por precisarem de um hobby que há cada vez mais grupos de cidadãos a criarem bancos de sementes ancestrais. É porque sabem que estão prestes a desaparecer para sempre apesar de ninguém se preocupar em colocá-las na Red List das espécies em vias de extinção.

Há outra via disponível. A agricultura biológica podia alimentar o mundo e ainda salvá-lo dos efeitos das alterações climáticas. É um tópico pouco estudado porque mexeria com os mercados poderosos de petróleo, químicos e da produção e distribuição alimentar, todos nas mãos de uns muito poucos muito bem colocados e muito amigos uns dos outros (reparem na estratégia do revolving door exposta no doc). Mas quando é estudado (Can Organic Farming Feed Us All?), tudo indica que só por esta via é que preservaríamos a biodiversidade do planeta, as nossas comunidades, o sustento da maioria em oposição a uma minoria obesa, a nossa saúde e que recuperávamos a nossa actualmente inexistente soberania alimentar. Não fiquem indiferentes.

The World According to Monsanto

mais sobre transgénicos:
Genetically Modified Foods - Panacea or Poison

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Apelo: 9.000 árvores por 9.000 carros

(Apelo que me chegou por email)

(Eu consegui durante 5 meses não pôr os pés numa catedral de consumo. É bastante fácil evitar fazer a vida lá, apesar de tudo :-) Fui lá ontem, mas por uma boa causa, colocar equipamento electrónico estragado no ponto Electrão. Enquanto não implodimos estes monstros de construção que distorcem a cidade e aglomeram precariedade e poluição, ao menos que se ponha os seus visitantes a reciclar, né?)

De: Hugo Jorge
Enviada: terça-feira, 29 de Abril de 2008 13:45
Assunto: Peça ao Dolce Vita para plantar 9 mil árvores no novo centro comercial na Amadora
Importância: Alta

O novo centro comercial Dolce Vita Tejo situado na Amadora terá nove mil lugares de estacionamento subterrâneo distribuídos por quatro pisos. Este será o maior centro comercial da Península Ibérica.

Nove mil lugares de estacionamento são mais um convite a uma utilização excessiva do automóvel nesta zona da Amadora e na Grande Lisboa. Teremos mais poluição atmosférica e mais problemas de saúde. Tudo menos uma Dolce Vita (vida doce).

A poluição atmosférica, gerada pelos veículos motorizados, é uma séria ameaça à saúde dos habitantes de um dado lugar, sendo responsável pela deflagração de inúmeros problemas como alergias, doenças respiratórias, cardiopatias, stress, cancros, entre outros.

Peça ao Dolce Vita para plantar 9 mil árvores (uma por cada lugar de estacionamento automóvel) e instalar parques de estacionamento para bicicletas (no formato U invertido).

e-mail: geral@dolcevita.pt

Por favor envie o seu e-mail com conhecimento (Cc) para ambientalistas_da_amadora@aeiou.pt

Ambientalistas da Amadora

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Um sentimento de pertença – cidade encontra campo

No Domingo passado, a meio da Primavera, provou-se de que não é só de couves portuguesas que é feita uma horta urbana em Lisboa.

O dia comunitário na horta popular da Graça começou já na semana antes, com um percurso a pé pelos bairros da Graça, Mouraria e Alfama, para afixar cartazes alegres nos cafés e lojas, e sempre que possível divulgar pessoalmente a iniciativa a moradores curiosos. Outros tantos voluntários recolheram madeiras usadas de todo o tipo, tintas, pregos, ferramentas, cercas e ainda corda para baloiços.

Sábado abriu-se oficialmente a oficina de construção de mobiliário urbano reciclado, uma iniciativa que se pretende prolongar no tempo. Paralelamente arrancaram os trabalhos de criar caminhos pela horta, delinear as zonas de cultivo, identificar as cerca de 35 variedades de plantas com plaquinhas de madeira, desimpedir as entradas e limpar (mais uma vez) estes 1000 m2 de terreno que sofreram anos de maus-tratos. No próprio dia da festa a azáfama começou logo pela manhã, com uma excelente adesão para concluir os trabalhos de embelezamento do terreno e de preparação da festa a tempo de receber os participantes para as tertúlias da tarde. Às 15 horas duas mesas, vários bancos, dois baloiços e uma escadaria fantástica escavada na terra e reforçada com madeira a descer pela horta tinham metamorfoseado o local num pedaço de campo autêntico onde só faltava correr uma ribeira. Junto dos caminhos novos, entusiastas plantaram rebentos de oliveiras, amendoeiras e pessegueiros.



Apesar do tempo instável criou-se um espaço agradável por baixo dos pinheiros onde o Arq. Gonçalo Ribeiro Telles, a Raquel Sousa (Eng. Agrónoma, Ambiência), o Fernando Pires (horticultor e sócio-produtor da Biocoop) e a Raquel Leitão (Gaia, Grupo da horta da Graça) partilharam os seus conhecimentos e experiência sobre hortas urbanas com moradores e interessados. Conversou-se sobre as raízes rurais de Lisboa, os corredores verdes - que estão numa fase crucial de formalização e incluirão hortas -, a componente biológica das hortas urbanas, exemplos de cidades lá fora que já tiram 30% do seu consumo de frescos das suas hortas, a vertente social, comunitária e pedagógica, a necessidade de criar massa crítica envolvendo os moradores e os aspectos técnicos a ter em conta na manutenção de uma horta. Os momentos expositivos intercalados com momentos de perguntas e debate, deram espaço a vários moradores para exporem as suas sugestões de melhoria da horta popular da Graça. Estes assinalaram a importância da estética (uma horta bonita atrai um leque mais variado de moradores), a ênfase compulsória no contacto pessoal com todos os potenciais interessados (indivíduos, colectivos, escolas, junta,..) e a necessidade de prever questões logísticas e políticas que inevitavelmente surgem quando a horta cresce (a mais premente sendo o destino do terreno, pois mantém-se a ameaça do silo de automóveis).

Ainda houve tempo para ensaiar a adesão ao projecto Banco Comum de Conhecimentos, que pretende em breve montar um mercado de troca de conhecimentos no Centro Social da Mouraria. O espírito solidário devia ser contagiante pois houve uma chuvada de ofertas de conhecimentos desde como fazer seitan e tricô, passando por dicas de informática e como cuidar de hortas e jardins até como construir projectos de intervenção social e praticar arquitectura bioclimática. Para quem pretende aprender o body-piercing, este ofício também não faltou ☺.

O sol resolveu brindar os hortelões e seus convidados com a sua presença na conclusão das tertúlias, dando o mote para os pontos de programa mais lúdicos: a instalação ‘mundo perfeito’ pintada pelo público (o público menor de idade ficou mais pintado do que pintou..), a música ao relento, a limonada e a sangria.

Sentados na relva no ponto alto do terreno inclinado, de costas para os três pinheiros plantados pouco depois do 25 de Abril pelo então presidente da Junta (informação recolhida nas tertúlias), os resistentes dos cerca de 100 visitantes viram o sol desaparecer por trás dos prédios da cidade, enquanto de um cantinho remoto do terreno subia o som da orquestra de caixas, pedras e paus improvisada pelas crianças. E depois destes dias longos de trabalhar com as mãos e o coração, de subir e descer os caminhos de terra vezes sem fim, de pisar relva em vez de pavimento e de nos abrigarmos por baixo de árvores em lugar de tectos, ter uma horta a 10 passos do passeio e a 200 passos de casa, parece perfeitamente natural. Parece um direito.

Notícia no Diário de Notícias
Notícia no Jornal da Região de Lisboa
Blog da Horta popular

terça-feira, 6 de maio de 2008

“Há Festa na Horta!” – Dia comunitário na Horta popular da Graça, Domingo 11 de Maio



No próximo Domingo, dia 11 de Maio, no auge da Primavera, vamos convidar os vizinhos dos bairros da Graça, Mouraria e Alfama, os amigos e todos os simpatizantes de hortas urbanas e da ruralidade citadina para participar num dia comunitário na Horta popular da Graça.

Enquadramento:
Mais que nunca as cidades têm que reencontrar o seu equilíbrio e voltar a abraçar a natureza da qual se afastaram nos últimos 50 anos. Os habitantes das cidades nunca foram tão dependentes dos serviços de terceiros para satisfazer as suas necessidades básicas, serviços esses que se estão a tornar cada vez mais proibitivos. 2008 é o ano em que o aumento gradual dos preços das comodidades se vai sentir de maneira dramática, com os cereais a aumentar mais de 50% enquanto o acesso a legumes frescos de qualidade se limita a uma faixa cada vez mais pequena da população.

À falta de autonomia dos munícipes e o seu afastamento da produção da terra, se juntam a perda de espaços comuns e sobretudo de espaços verdes para conviver, para gozar os tempos livres e para fomentar um sentimento de segurança e de pertença.

O conceito da horta urbana insere-se firmemente numa estratégia de recuperação da sustentabilidade urbana, ligando factores sociais, culturais e ambientais. Contribui para a conservação de espaços verdes naturais, um planeamento urbano mais humano, a segurança alimentar, a estabilidade socioeconómica, e ainda para proporcionar lazer ou mesmo terapia.

Horta popular da Graça-Mouraria:
A Horta popular, na intersecção da Rua Damasceno Monteiro com a Calçada do Monte, nasceu como projecto do GAIA – Grupo de Acção e Intervenção ambiental, no âmbito da campanha “Por uma Agricultura mais sustentável” iniciada em 2007, no momento em que o GAIA começou o projecto “Centro Social”, albergando a sua sede nas instalações cedidas pelo Grupo Desportivo da Mouraria. Os objectivos do projecto da Horta são: Promoção da Agricultura Sustentável, Consciencialização para os Benefícios da Agricultura Sustentável, Atrair os Jovens para a dinâmica entre cidade e campo, Convidar os Mais Jovens para o desenvolvimento de actividades comuns ligadas ao Desenvolvimento Sustentável e Preservação da Natureza, Envolver a Comunidade local na manutenção de uma horta urbana, promovendo a sua autonomia.

Todas as segundas-feiras o Grupo da Horta reúne no local para juntos trabalharem a encosta solarenga, cuja terra sofreu sucessivos despejos de entulho e lixo e está ainda pouco fértil, plantando variedades que vão arranjando e partilhando, semeando novos mini-lotes, soltando a terra e regando-a, com o objectivo de ali recriar um ecossistema equilibrado, aplicando as técnicas ancestrais da agricultura biológica. Sempre que passe um morador curioso, é convidado para espreitar os afazeres e receber uma explicação do projecto, impulsionando a participação activa dos residentes dos bairros adjacentes.

A iniciativa está a começar a ganhar alento e os resultados estão à vista, com uma variedade de talhões semeados ou plantados – couves, alfaces, tomate, milho, favas, cebola, acelga, alho francês, abóbora,.. -, umas jovens árvores e algumas plantas resgatadas das Hortas de Benfica, um talhão preparado para flores, todos rodeados por plantas e ervas espontâneas essenciais para o controlo natural das pragas.

Neste Domingo queremos celebrar a promessa desta iniciativa, incentivar o arranque de muitas mais e partilhar conhecimentos sobre horticultura social e jardinagem com vizinhos, interessados e outros horticultores. Durante todo o dia operará uma oficina de construção de mobiliário urbano reciclado, aberta a todos. À tarde juntar-nos-emos para umas tertúlias sobre hortas urbanas e ruralidade e teremos a oportunidade de uma visita guiada à Horta, enquanto as crianças são entretidas por dois animadores e um artista plástico, tudo isto ao som de música acústica e ao sabor de petiscos com ingredientes da própria Horta. Ao fim do dia a festa continua no Centro Social na Travessa de Nazaré.

Propósitos do dia comunitário:
- Promover o conceito das hortas urbanas.
- Promover em particular a horta urbana da Graça para que ela ganhe massa crítica.
- Fomentar a troca de conhecimentos com vizinhos, interessados e outros horticultores.
- Ajudar a garantir o continuado uso público para fins verdes do terreno em questão.
- Proporcionar um verdadeiro convívio comunitário.
- Servir de exemplo para outras iniciativas semelhantes.

Programa do dia – Concertos e consertos, conversas e passeios na Horta:
9.00 – 19.30:
Oficina de construção de mobiliário urbano reciclado
14.30 – 19.30:
Tertúlias com Arq. Gonçalo Ribeiro Telles, Ângelo Rocha (Miosótis), Raquel Sousa (Agrobio), Fernando Pires (Biocoop) e o GAIA
Visitas guiadas à Horta
Bancas informativas do Banco Comum de Conhecimentos e do GAIA-CSM
Espaço para crianças, Pintura livre, Música acústica ao vivo, Petiscos vegetarianos
A partir das 20.00:
Jantar popular e festa no Centro Social da Mouraria

Programa completo