segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

O pré-acordo de BALI sabe a muito pouco

O 4º relatório do IPCC (Intergovernmental Panel on Climate Change), incluído como mera nota de rodapé no acordo preliminar e pouco comprometedor alcançado entre 180 países na cimeira do clima em Bali, é peremptório na sua análise das alterações climáticas dos últimos 150 anos.

Se não fossem as acções do homem, a terra nos últimos 50 anos teria provavelmente arrefecido. Em vez disso aqueceu 0,74º em média. E este aquecimento provocado pelo homem, sobretudo devido à queima de combustíveis fósseis (56,6% das emissões GEE – gases com efeito de estufa), para além da desflorestação e a prática de agricultura intensiva, está a ter efeitos devastadores comprovados: subida do nível do mar, deslocação da flora e fauna (primaveras antecipadas), aumento de ciclones, desgelo acelerado, desertificação, perturbação do ciclo hidrológico, aumento de mortalidade relacionada com vagas de calor, doenças infecciosas e o aumento dos alergénicos.
Estas consequências são as que o IPCC considera provadas com um grau elevado de segurança.
No entanto, a mensagem mais importante é o alerta para as consequências que ainda não sonhamos enfrentar e que estima serem bem piores do que as que sofremos agora. Mesmo que estabilizemos desde já as emissões de GEE no nível de 2000, o que é impossível, a temperatura da terra vai aumentar até pelo menos 2º até final do século (e pode continuar a aumentar nos séculos seguintes). No melhor dos cenários possíveis (cortando emissões até 2050 com pelo menos 50% em relação a 2000) aquece até 2,4 a 2,8º. No pior, com todos os países a fazer o que bem lhes apetece, pode aquecer até 6º. NINGUÉM sabe como é que a terra vai reagir a um aquecimento relativamente acelerado para além de 2º… Há algumas indicações de que terão havido episódios de aquecimento rápido no passado da terra, como por exemplo o fim da última idade de gelo, e que provocou a extinção de centenas de espécies, flora e fauna. Alguns cientistas ESPECULAM sobre os efeitos de incidentes isolados (os chamados "climate tipping points"), como o desgelo da Antárctida (que pode fazer subir o mar 70 metros..) ou a paragem da circulação termohalina dos oceanos, mas os factores são tantos, que ninguém pode prever as consequências de uma série de incidentes ocorrerem ao mesmo tempo e interagirem.

O IPCC baseou-se por isso nos efeitos observados até agora e extrapolou para vários cenários de aquecimento, e mesmo pecando por ser algo linear, garantidamente é o suficiente para concluirmos que vamos pelo menos ver: centenas de milhões de pessoas sem água potável, outras centenas de milhões a fugirem das zonas costeiras, grave escassez de alimentos, aumento das doenças infecciosas, aumento da mortalidade por catástrofes naturais, morte dos corais, 30% das espécies em risco sério de extinção (digam adeus ao urso polar), perda de 30% das zonas húmidas..

Deixo aqui as mensagens mais importantes a reter para um cidadão preocupado:
1. NINGUÉM sabe ao certo o que pode acontecer se a terra aquecer para além de 2 ou 3º. A combinação dos efeitos é devastadora e imprevisível devido à sensibilidade e inércia do sistema climático.
2. “Business as usual” está FORA DE QUESTÃO. Para não entrarmos no cenário de um aquecimento acima de 3º, as emissões TERÃO de REDUZIR pelo menos 50% até 2050 em relação a 2000.
3. A terra vai em qualquer um dos cenários aquecer acima de 2º e ainda não vimos O PIOR dos respectivos efeitos. A humanidade vai ter que se preparar para a adaptação.
4. É POSSÍVEL MITIGAR as alterações climáticas com tecnologia existente ou acessível. Estima-se que a mitigação seja mais barata do que a adaptação e pode inclusivé contribuir para o aumento do PIB global.

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